Au bonheur des dames 372
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós .
Uma vez, aliás várias, alguém me disse que as minhas historietas deviam mais à imaginação que à realidade. Erro gordo, confesso, erro grosseiro: tomara eu ter a imaginação desenfreada de tantos e tantos escribas cá do burgo!
Não digo que, muito de longe em longe, ou nem isso, não use algum pequeno veu de fantasia como mandava Eça. Todavia, o que venho pondo em folhetim é, regra geral, a realidade, a crua realidade.
Depois de introito convirá dizer que sou um fervoroso leitor de Alexandre O’Neil desde, exactamente, 1960. Li tudo, tenho tudo dele, já arrisquei muito dinheiro para ter “A Ampola Miraculosa” mas depois de vários e malogrados esforços, contentei-me com uma 2ª edição fac-similada.
Todavia, faltava-me de há muito o voluminho “Portogallo, mio remorso” uma antologia italiana publicada graças ao cuidado e amizade doutro grande senhor (Antonio Tabuchi) . Descobri essa edição em Itália no longínquo ano de 1972. Em Pescara, onde frequentava o 2º ciclo do curso de Direito Comparado, saltou-me o livro duma prateleira e e eu, claro, comprei-o logo.
Entretanto, dado que o direito comparado deixava muito tempo livre, encontrei uma jovem ourives florentina a quem por razões diversas acabei por oferecer a obra. Ela merecia, convém acrescentar e sabe bem iniciar um breve intermezzo amoroso sob a égide de O’Neil.
Nunca mais encontrei o livro e não foi por o não procurar. A coisa esgotara-se, a edição seria pequena, a editora (Julgo que a Einaudi) nem sequer o tem na lista de obras publicadas.
Hoje, vinha no comboio para Lisboa e para passar o tempo, abri o computador. Como de costume havia notícias frescas da Amazon.it e, nem sei bem porquê (provavelmente porque ainda havia muita viagem pela frente) resolvi pesquizar o livro. E não é que me salta, todo lampeiro, um exemplar de 2ª mão por cerca de dez euros? Uivei de pura alegria, ou de saudade por tempos mais cativantes, de paixões antigas, sei lá o quê. Só não invoquei o nome da gentil florentina porque o perdi de todo... Ah!, a ingratidão masculina, ou a porra da desmemória, ou tudo junto!...
Quando contei ao meu irmão este golpe de sorte, ele, velhaca mas pragmaticamente avisou-me: vê lá se o livro que vai chegar não é o mesmo que ofereceste...
Juro que isso duplicaria a minha alegria e talvez até milagrosamente me recordasse o nome desse namoro de Verão (dessa “Estate violenta” que os tempos eram duros, a Itália estava a ferro e fogo e em Munique um bando infame de assassinos matava uns atletas israelitas.) Já é tarde para “stessa spiagia, stesso mare” mas o pequeno lume da memória aquece, e de que maneira, os velhos ossos deste vosso
mcr

