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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 414

d'oliveira, 13.10.21

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Depois da casa assaltada...

mcr, 13-19-21

 

 

O sr. Rendeiro ”abriu” para parte incerta quando percebeu que ia malhar com os seus frágeis costados na cadeia. Lá terá entendido que os ares da prisão, seja ela qual for, nõ eram os melhores para passar quase vinte anos da sua já longa vida.

Os juízes, logo vieram dizer, em sua defesa, que era a lei, e não eles, quem franqueava aporta de saída ao ex-banqueiro. Que, acrescentavam, não se discernia razão alguma para a criatura se tornar um fugitivo e se esquecesse dos seus deveres para com a pátria.

Quem iria imaginar que, sob a ameaça de longos anos à sombra, ele não preferisse, esses mesmos anos, à sombra de uma bananeira, de um coqueiro, de qualquer outra árvore exótica, de preferência tropical?

Alguns, terão, eventualmente pensado que o cavalheiro industrioso,  e de indústria, não teria dinheiro para ir viver num desses recônditos e paradisíacos lugares para onde é costume os milionários irem, mesmo sem um mandado de captura nos costados.

Eu, que, porventura, terei lido demasiados romances policiais na minha estouvada juventude, jamais cairia nesse logro. Gatuno que se preza, é gatuno previdente. Não põe todos os ovos no mesmo cesto, nem todos os euros na mesma meia dúzia de bancos convenientemente of shore.

Há sempre mais um banco simpático, de aspeto modesto mas sólido, com férrea disciplina de segredo que está ali, ao virar de uma esquina quase invisível, pronto a tomar conta das economias de quem tomou conta de outras de outros cavalheiros e os ludibriou bem ludibriados.

 E o resto é o que se sabe. Agora andam por aí espalhados pelo vasto mundo, mandados de captura que só os ingénuos acreditam que terão êxito.

Um dos associados do sr. Rendeiro, um cavalheiro chamado Guichard, estava no Brasil a tratar da vidinha, depois de ver que cá não lhe dariam emprego aliciante. Uma repórter descobriu-o e entrevistou-o. Para espanto da lusitana audiência, o dito sr. Guichard, entendeu afirmar que Rendeiro fora cobarde, que não se foge à justa prisão  que, ele Guichard, também exposto aos perigos do cárcere, estava pronto a regressar à pátria justiceira para pagar a sua dívida para com a sociedade.

O meu genro Nuno, ao saber disto, rompeu numa gargalhada enorme e confidenciou-me que o senhor G nunca mais seria visto nas terras de Espanha, areias de Portugal. E eu, convenho, concordei. Não é hábito as pessoas virem qual Egas Moniz, de corda ao pescoço entregar-se aos julgadores.

Ma, surpresa das surpresas, Guichard, embarcou mesmo para Portugal, com o fito de se entregar a uma sr.ª juíza que queria ter uma conversa de pé de orelha com ele a propósito de outro processo onde havia mais uma condenação à espreita. Ora, o juiz de um anterior processo em que Guichard também estava condenado mas com interposição de recurso, soube por um passarinho que o heroico futuro preso estava de regresso. Vai daí, mandou que, à porta do avião que o trazia, estivesse um cabo de esquadra que imediatamente o conduzisse a um calabouço seguro sob a suspeita de que poderia fugir.

Não deixa de ser interessante que a alguém que regressa, que jura que cumprirá a pena, que poderia não regressar sem incomodo de maior, visto estar num país com que Portugal não tem acordo de extradição, seja aplicada a medida que ninguém aplicou ao cavalheiro Rendeiro.

Então o homem regressa, como anunciara e é preso quando tudo parece indicar que não só não fugiria como até vinha ao encontro do seu fado cruel, e é preso, à cautela?

Nunca entenderei bem a magistratura da pátria amada. Guichard, provavelmente, também não a entenderá. Fala-se num habeas corpus a ser proposto pelos seus advogados.

Eu já esqueci todo o Direito que aprendi. Esqueci-o aliás com uma férrea vontade de deitar para traz anos de aprendizagem resignada, outros tantos de penoso exercício da advocacia que nunca me deu prazer de qualquer espécie. Não vou, pois, abundar na discussão sobre se o habeas corpus é ou não possível e, a sê-lo, se teá qualquer efeito útil para o actual preso.

Fico, porém, com a sensação de que o juiz que o mandou ver o sol aos quadradinhos, nunca será apanhado de surpresa por um condenado (ou em vias de o ser) que entenda mudar de ares. Cá estou, pois, para ver como é que os futuros casos deste previdentíssimo magistrado evoluirão.

E vou-me pasmando com as voltas que o mundo dá.

Isto é muito mais divertido do que o Orçamento onde pelos vistos, a dívida aumenta, o défice idem e as despesas futuras e contínuas irão sobrecarregar os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos numa má versão dos “Moody Blues”. A seu tempo iremos esmiuçar essa proposta, as propostas dos alegados parceiros que juram por tudo e mais alguma coisa que desta vez, não! Mas que em boa verdade irão outra vez, dar o seu assentimento o OE a troco de uma sopinha dos pobres, como de costume, como de mau costume...  

* na vinheta:  a continuação do título: trancas à porta