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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 415

d'oliveira, 15.10.21

empregada-de-mesa-alemão-ou-bávara-com-canecas-d

Quadros de uma exposição, perdão de uma colecção

mcr, 15.10.21

 Olê, mulé rendera 
Olê, mulé rendá 
Tu me ensina a fazê renda 
Que eu te ensino a namorá…

(Lampião, 1922  )

 

 

 a leitora Maria Miguel que me escreve, desculpando-se do nome com que a baptisaram que me desculpe. Podia ser bem pior. Por exemplo, Miquelina!

Aliás, talvez movido pela moda recente , eu até acho Mª Miguel, um nome bastante potável. Olh se fosse Vanessa. Ou Natahca (os ignorantes não sabem que é um diminutivo –russo – de Natália). Portanto, avisada que está a questão da ida à pia baptismal, coisa de que geralmente não temos culpa e, muito menos recordação, passemos aos nossos afazeres. A leitora, queixa-se que eu encaro o caso Rendeiro bonacheiramente, divertido quando “a coisa é muito, mas muito, feia” (sic, MM ).

Ora,  cara leitora (e já agora os que cairão na loucura, mansa, de me lerem mais esta crónica), esta história, à medida que vão conhecendo mais pormenores, é uma chachada (não xaxado, género musical brasileiro e nordestino, a que pertence a canção cuja 1ª quadra serve de epígrafe  - eu sei que é forçado mas que querem, lembrei-me de algo que ouvia muito quando era criança e isso é sempre terrível: não resisto, enquanto escorre uma vaga lágrima de saudade por um tempo que a memória traidora e vacilante e os horrores do tempo presente, tornam quase excelso - ).

Tudo nesta opereta, indigna sequer do parque Meyer, resuma a falso e a ridículo. Vejam só: dos 15 quadros desaparecidos ou dados como estando em parte incerta (como o dono...) já apareceram alguns que a sr.ª Rendeiro foi encontrar no “hall” da garagem.

Vê-se que gente fina é outra coisa. Então havia de haver na garagem, um “hall” de paredes nuas? Que diriam as pessoas desta falta de arte, bom gosto e decoração num hall, mesmo se de garagem.

Ainda por cima, a garagem é (ou era) o território privado do fidelíssimo e generoso motorista que comprou um apartamento por pouco mais de um milhão e logo o cedeu em usufruto à esposa amantíssima do patrão!

Para que não se dissesse que as relações laborais na casa Rendeiro eram como as que a CGTP passa a vida a denunciar, houve quem tivesse a ideia brilhante de pespegar lá um quadro, quadro bom, quadro de colecção, um Noronha da costa talvez, ou um Rezende, porque não, que os vieira da silva vão directos para a alcova do motorista, perdão, “chauffeur” de Monsieur et Madame. (noblesse, mesmo a dos parvenus!) oblige!

Eu, ao ler esta história lembrei-me logo de um casa alemã onde estive hospedado durante uma missão oficial e artística . A história é simples. Um grupo de alemães, residentes numa pequeníssima cidade, criou um “centro cultural” com o dinheiro que sobrara de umas obras citadinas. Vejam bem: a cidade resolveu fazer um pequeno bairo, alguma repartição, uma escola (que sei eu?) e, vergonha das vergonhas!, sobrou dinheiro. A câmara municipal ia morrendo de susto pelo erro orçamental e lá conseguiu empandeirar o inesperado diferencial para construir um centro cultural. Em Wiesloch (no Land de Baden-Wurtemberg).

E depois de criada a instituição, desataram a promover actividades culturais. No grupo de sócios mais aniados, estava uma senhora portuguesa casado com um cavalheiro alemão. Durante uma exposiçãoo de pintura de artistas da região, lembrou-se a excelente senhora do seu longínquo Portugal, do Norte, aliás e eis que, munida de plenos poderes nos apareceu na Delegação Regional de Cultura propondo um intercâmbio de exposições. Achámos (o Rui Feijó e eu) que a ideia era interessante e como os alemães se prontificavam a arcar com a despesa quase por inteiro, ainda melhor. Quando lá fossemos, levaríamos a nata dos artistas portuenses ou a trabalhar no Porto, dando-lhes um pouco de publicidade internacional, tanto mais que os alemães prometiam fazer circular a nossa ostra por vários sítios.

A exposiçãoo alemã lá se fez, e com ela vieram duas ou três dúzias de entusiastas da pequena cidade. Recebêmo-los com folares e cavalhadas, eles gostaram e partiram cheios de presentes que entretanto conseguimos recolher junto de várias casas exportadoras de vinho do Porto.

Na altura de pagar a visita, o Rui pediu-me pelas alminhas que eu fosse o representante oficial da Delegação e também do Ministério que, uma vez sem exemplo, nos apoiou com muitas e boas palavras. Entendemos que, já agora, valia a penas convencer os artistas a fazerem a excursão, pagando, claro, do próprio bolso a viagem de autocarro. Em boa verdade, esse grupo era já um habitué de excursões à estranja para ver exposições, assistir a espectáculos etc. 

Eu aceitei a incumbência exigindo apenas ir de avião pois temia enjoar.  Fizera as minhas contas e descobria, contristado, que as ajudas de custo atribuídas me permitiriam comer um a refeição diária no caso de encontrar hotel barato. Todavia, fui, afinal tinha curiosidade em ver como funcionava aquela pequena cidade e a sua instituição cultural.

Para surpresa minha, verifiquei que os alemães, cientes da pobreza endémica lusitana, tinham decidido alojar toda a lusa expedição nas casas dos sócios do Centro cultural. Eu, personagem importante, fui destinado à casa do amabilíssimo presidente, um médico simpático e dado ao consumo de champanhes de primeira qualidade. A casa era bonita, tinha um agradável jardim, estava pejada de pintura por todo o lado.

E agora, a parte “rendeira”: a casa de banho dos hóspedes estava dividida em duas partes  e na da santa, bem atrás do assento onde “todo o vale se caga e todo o cobarde faz força” estava um belíssimo original de Sempé, um reputado autor de bd francês, coisa para custar uns milhares de euros!

Não sei se o proprietário detestava o artista ou se, à falta de outro espaço, o pendurara ali.

Resta dizer que esses dias em Wiesloch foram extraordinários, aquela gente era gentilíssima, levaram-nos a uma série de cidades próximas, não permitiam que gastássemos um tostão (vejam há quanto tempo isto foi...)Parecia que havia um sistema de vigilância sobre os hóspedes portugueses de tal modo que se algum entrava num café quando ia pagar respondiam que a conta já estava liquidada.

Eu lá tive que fazer de representante da pátria dos egrégios avós, de alinhavar umas discursatas que os jornais locais reproduziram com elogios, e a exposição foi um êxito enorme. As peças foram exibidas em vários outros círculos, a televisão fez um documentário de mais de um quarto de hora, eu tive de improvisar uma apresentação da cidade, da região e das forças vivas culturais que foi copiosamente distribuída e comentada. Apenas duas ligeiríssimas nuvens toldaram a minha estadia. No dia aprazado para me estrear num voo em bal\ao, o ceu e o nevoeiro negaram-me essa alegria. Em segundo lugar, todas as noites os meus hospedeiros me convidavam para despachar umas garrafas de Veuve Clicquot na companhia de artistas e sumidades locais. Ora eu detesto champanhe! Ao terceiro dia, o meu hospedeiro descobriu-me clandestinamente sentado numa esplanada a atacar um copázio de cerveja. Espantado (os alemães, às vezes, são ingénuos, perguntou-me se eu gostava de cerveja, como se não lhe bastasse o copo de litro que eu emborcava com visível e sequiosa alegria. Quando respondi afirmativamente, todas as restantes noites me dava escolher entre o caríssimo champanhe e umas óptimas cervejas de diferentes proveniências (sempre alemãs, claro).

Claro que gastei todas as ajudas de custo em prendas para esses amigos que me receberam tão fidalgamente. Ao fim e ao cabo, esse dinheiro não era meu...

Voltando à vaca fria: o aparecimento de uma peça no hall da garagem (ninguém percebe o que é que a briga ada da Judiciária andou a bisbilhotar pela casa  sem dar com o quadro, ora reaparecido nõ é mais do que a versão portuguesa, e em calão, do acontecido com o original de Sempé pendurado em cima de uma retrete para hóspedes de marca.

Eu não sei se a srª Rendeiro sabe fazer renda, nem me ofereço para a ensinar a namorar pois tenho-a como espsa fidelíssima e bem casada. O marido estará em local incógnito como alguns dos quadros ainda por encontrar mas ela tem o expediente suficiente para provar que a Judiciária, em questão de buscas, não lhe chega aos calcanhares. 

A  vinheta: era deste tmanho a caneca de cerveja que eu pacatamente bebia em Wiesloch