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Incursões

Instância de Retemperação.

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12
Nov19

au bonheur des dames 416

d'oliveira

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À Lagardere

 

mcr 11.11.19

 

Duvido bem que a maioria dos meus leitores tenha algum vez lido Paul Féval, um cavalheiro francês (sec XIX) que, com Ponson du Terrail (outro da mesma nacionalidade e da mesma matriz literária), escreveu romances de capa e espada na senda de Alexandre Dumas. Féval tinha um herói, o jovem Lagardere, espadachim emérito que aliava a coragem, a virtude ee o encanto a um bote secreto com que vencia duelos tremendos.

Depois, sei lá porque razões começou a usar-se a expressão “à Lagardere” para referir ousadia (num primeiro tempo) e excesso de qualquer qualidade, finalmente.

Ora, eu, ainda que sem especial vontade, vou voltar a referir-me uma vez mais à sr.ª dr.ª Joacine Moreira deputada do Livre (ou será o Livre que é o grupo de Moreira?) que tem ocupado excessivamente as páginas dos jornais. E não pelos melhores motivos, convenhamos. A polémica instalou-se pelas más razões, desde a gaguez da personagem até à cor de pele brandida como arma de arremesso pelos seus partidários (a começar pelo sr. dr. Rui Tavares) que carregou nessa tecla juntamente com a da condição de mulher como se isso fosse uma panaceia para o parlamento. Não é o facto de ser mulher, mesmo negra (como ele insistiu e ela se conformou com inegável à vontade ), que faz um bom deputado/a. E nem sequer como símbolo isso parece valioso num país que, com todos os seus defeitos (e são muitos) já elegeu gente de “cor” (pudica expressão para dizer preto que, pelos vistos é muito pior do que negro) e até tem no seu Governo uma mulher negra (ou preta) e um 1º Ministro com sangue indiano.

Portugal mesmo sem recorrermos ao estafado luso-tropicalismo, encheu-se de negros (escravos) desde o século XVI, de mulatos e governou colónias onde estes foram, em quase todos os casos, os executantes subalternos da política colonial e imperial. No Alto Alentejo subsistiram durante centenas de anos grupos fortemente mestiçados para ali levados para os trabalhos agrícolas e se, agora, são menos visíveis foi porque abandonaram a zona e se cruzaram com “brancos” nas zonas de imigração interna para onde se deslocaram.

E onde é que entra a sr.ª deputada Joacine? Entra, precisamente, com uma versão modificada da espadeirada à Lagardere. Ou seja, ganhará sempre todas as discussões recorrendo ao argumento “atacam-me porque sou negra, mulher e gaga”. Perguntam-lhe alhos e ela responde que é negra. Perguntam-lhe bugalhos e retorque que é gaga (“de fala mas não de cabeça”, sic). À questão dos negalhos dirá que só lhe falam disso porque é mulher. E assim, sucessivamente.

Todavia, as questões que se puseram em relação a esta senhora não são assim tão inconvenientes. A gaguez é mesmo um senão, uma barreira à discussão no parlamento. Darem-lhe mais tempo, benefício que não discuto e a que, muito menos, me oponho, pode ser uma prova desagradável de condescendência e não o reconhecimento de um direito. De todo o modo, sozinha como está e com a limitação de direitos que também recai nos outros dois deputados igualmente sós, temos que mais minuto menos minuto em pouco modificará a discussão na AR.

E, já agora, o problema da gaguez não perpassou sequer ao de leve, pelas cabecinhas iluminadas dos dirigentes do Livre? Não acharam (e muito menos entenderam) que, mesmo sem assessor espampanante de saia de pregas e meia verde bandeira, era complicada a sua acção no parlamento?

É que, para um espectador distraído, poderá surgir a tentação de pensar que a cor d pele é apenas um truque para mostrar a “diferença” mesmo se isso não tem cobertura política e/ou ideológica! E se for assim, e bem que o pode ser, impõe-se uma grave conclusão: a cidadã Joacine chega ao parlamento não por ela própria mas pelo sexo, pela cor de pele e, eventualmente, pelo seu problema de locução. Um truque, um expediente uma vigarice (para usar uma expressão posta em moda politicamente pelo sr. deputado Rui Rio).  

Não sei se nisto tudo ela é actriz ou meramente vítima. Seja como for, ha aqui algo que cheira a expediente eleitoral e a uso e abuso de diferenças de sexo, e de cor.

E é pena porquanto uma voz (mais uma) feminina pode sempre tornar o parlamento mais abrangente, mais curioso mais interventivo.

 

 

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