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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 416

d'oliveira, 10.09.20

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Antes que me acusem de sexismo

mcr, 10 de Setembro

 

Eu ia falar de três novidades culturais, a saber: as doações de Alberto Manguel e Paulo Mendes da Rocha e a notícia infausta e tristíssima da morte da Cotovia, uma editora pequena mas excelente que funcionava mos locais da velha livraria Opinião, outro monumento desaparecido (bem como, aliás, muitos dos seus frequentadores habituais). Fica para o próximo post porquanto duas candidatas à Presidência da República fizeram acto de presença.

Em boa verdade, não se trata de nada de novo. Sabia-se, de há muito, quais as disposições do BE e de Ana Gomes. Só isso bastaria para não dar à pequena notícia qualquer relevo. Porém, e antes que isto pareça sexismo, o melhor é ir pela alegada novidade e tentar uma que outra conclusão.

Comecemos pelo esforçado e gasto tema da novidade. Nenhuma destas mulheres pode arrogar-se de estar fora do sistema ou de ser uma refrescante surpresa. Ambas foram deputadas, inclusivamente no Parlamento europeu que é onde está Marisa Matias, esta já foi candidata ao mesmo mandato enquanto que a Ana Gomes é mais conhecida do que o doce da Teixeira.

Do ponto de vista programático também não se descortinam surpresas, aliás difícil seria dada a função a que se candidatam.

Eu bem sei que o actual inquilino de Belém sofre de uma espécie de doença de S Vito que o faz correr ceca e meca que, pelos vistos, faz feliz os media e o Zé Povinho que gosta, adora, uma selfie com o Presidente.

Mas mais que andar disparado pelas estradas, ruas, caminhos, atalhos ou veredas de Portugal e ilhas, o actual locatário de Belém, gosta de molhar a sopa e de ser um Presidente interventivo, porventura mais do que a função permite e o bom senso recomendaria.

Pessoalmente atribuo esse frenesim à tentativa de ficar na História. Duvido que o método seja eficaz porquanto a um estadista pedem-se coisas mais interessantes do que um par de alfinetadas (e algumas úteis..., aliás) e um corrupio constante.

Por muito que se queira, os políticos que vão ficando na História pregressa, foram mais discretos. Soares, cuja popularidade ainda é visível, tinha um projecto, uma ideia de Portugal, um longo percurso cimentado desde os seus verdes anos e deixou obra. Sá Carneiro, teve a ousadia de pensar pela cabeça própria e de enfrentar o meio de onde vinha e os políticos que o tinham convidado para deputado durante o “marcelismo”. Isso e a morte romântica e trágica ao lada de grande mulher que soube escolher (e ser escolhido) transportou-o para a lenda e a legenda. Cunhal teve uma vida empenhada, dura, combativa, notoriedade internacional e deixou um partido que tantos anos depois ainda se aguenta mesmo trémulo. (basta olhar para o destino dos partidos espanhol, francês ou italiano – o partido de Gramsci, Togliatti e Berlinguer!...- para perceber a diferença- O stalinismo e a naftalina conservam os partidos quase tão bem quanto os operosos funcionários que diariamente tomam conta da múmia de Lenine.

Mesmo o dr. Salazar mantem um prestígio que, graças às criticas menos ponderadas, preservam a sua imagem ascética.

Ora nada disto ocorre com o dr. Rebelo de Sousa, uma inteligência fria, um percurso político sinuoso e sem chama que ele soube compensar com os famosos factos políticos que ia inventando e, sobretudo, com uma presença contínua na televisão. Durante centenas de domingos, entrou pela casa dos portugueses, à hora do jantar e numa linguagem simples estudadamente simples criou a fama e o proveito de que se aproveitou. (isto, aliás só prova a inteligência da personagem mesmo se essa inteligência se tenha aplicado geralmente em exclusivo benefício próprio. Para isso soube trabalhar árdua e incessantemente, o que, servido por uma cultura e uma memória importantes o pôs na ribalta onde está e de onde, para já, não será desalojado.

Isto dito, permito-me pensar que da aparição há muito anunciada destas duas senhoras nada de grave há a temer para o Presidente. O cavalheiro Ventura vi a votos para contar as suas espingardas (no que não difere da senhora Matias), não tem de apresentar mais do que o estereotipado manifesto do “Chega” pelo que joga em casa. Eventualmente, poderá ter mais votos que qualquer delas, coisa que não prevejo difícil. Não tanto porque arrebanhe as simpatias de muita gente mas porque, se a apatia eleitoral se mantiver, ele pode alcançar os resultados que pretende.

Ainda se não conhecem os espontâneos e menos o/a candidato/a do PC. E digo “o/a” porque ao partidão pode sorrir a ideia de tirar um coelho da cartola, aliás, e sem ofensa, uma “coelha”.

Para já uma constatação: Marisa já avisou que não desiste a favor de Ana e parece improvável que esta não retribua o favor. A ideia que fica é que, como de costume, a famosa unidade da Esquerda continua tõ longínqua quanto foi sempre. Nem a tentativa de “geringonça 2” que Costa busca desesperadamente pode ser transposta para este palco eleitoral.

E é com esta observação que me despeço. Nada de novo na frente ocidental do torrãozinho de açúcar. Notícia, verdadeiramente notícia, é a eventual intenção do governo britânico sobre a manutenção de Portugal, digo o Algarve, na lista dos destinos permitidos sem quarentena.

Deixem-nos vir emborrachar-se para a nossa bira mar. Eventualmente também trarão algum covid , coisa mais do que natural num país onde o vírus se ceva. Mas as libras servem de vacina...

 

* na vinheta: “Ceifeiras” de Cipriano Dourado. Bem sei que alguém poderia pensar que eu iria usar a imagem da Barbie para troçar. De modo algum: vai mesmo esta obra de Dourado de que aliás tenho uma bela serigrafia tintada que me acompanha há mais de quarenta anos.