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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 417

d'oliveira, 17.09.20

Desconfinar

mcr, 17 de Setembro

 

Não há bela sem senão, eis uma verdade demasiado usada mas sempre recorrente. Eu, que cada vez conheço menos gente ligada ao poder, ainda não tinha tirado a bissectriz à dr.ª Ana Mendes Godinho. Azares da velhice, claro. A minha geração vão desaparecendo a todo o vapor, mais pela lei de bronze da vida mas, actualmente, with a little help do covil. Note-se, a propósito, que se refiro o filho da puta do vírus, não estou de modo algum a associá-lo à senhora ministra. Pero que hay coincidências, las hay. De facto, a propósito do lar de Reguengos, a ilustre senhora perdeu-se num labirinto de declarações todas mais desastradas umas que as outras. Já nem falo do fatal esquecimento de leitura do texto da Ordem dos médicos que S.ª Ex.ª mandou analisar pelos “serviços competentes”!!! Relembro, antes, a cegada das declarações sobre inquéritos que afinal não o eram e que, claro, apontavam para para uma espécie de virgindade cognitiva do Ministério. Tudo correra bem excepção feita às quase duas dezenas de mortos. Ora a boa verdade é que tudo correra mal, a começar pela diluição de responsabilidades entre a Câmara a ARS e a direcção do lar. Não fora o facto da Ordem dos Médicos ter posto a boca no trombone e ainda hoje aqueles mortos não teriam morrido. Ou teriam morrido por acaso, pela idade, pelas maleitas próprias da velhice jamais pela incúria, pelo desleixo, pela impreparação de gente que acha que os velhos são descartáveis. E, de facto quase que o são: a ida para um lar é, muitas vezes, demasiadas vezes, uma entrada num “no man’s land”, numa espécie de pré-morte ou de não vida. As famílias (talvez apenas algumas ou muitas) empandeiram os trastes velhos para o lixo e os antepassados ainda vagamente vivos para os lares. E aguardam a misericórdia de uma morte que tarda. Fazem o luto ainda em vida dos indesejáveis. Pelos vistos o Estado segue este exemplo de amor familiar, finge que tutela os lares, envia esporadicamente umas inspecções que ao cabo de algum tempo, normalmente longo, elaboram um relatório que irá dormir o sono dos justos numa secretária burocrática. Não admira que o inoportuno inquérito levado a cabo pela Ordem dos Médicos tenha sido, além de uma “ilegalidade” (sic) um pontapé no vespeiro. E foi um ver se te avias, Ministros, Misericórdias, Câmara, ARS, todos em coro a enxotar os ainda há pouco heróis da primeira linha, a quem numa cerimónia burlesca é ridícula fora dedicada a final da “champions”. Todavia a dúzia e meia de mortos não se comoveu com estas mostras de virtude ultrajada. Mortos estavam, mortos estão, mas a indignação parece viva depois de estas semanas todas. Setembro está a ser um mês horribilís para Costa & comandita.Aumentam os números de infectados, os surtos em lares já vão em 33, começa a época das aulas e, pior, a da gripe. A economia e o seu principal apoio, o turismo, está como se vê, o Benfica, o tal clube de seis milhões de lusitanos naufraga na Grécia diante de uma “equipa de 2ª divisão” (sic) e diz adeus à Europa, melhor dizendo a umas dezenas de milhões de euros a que uma simples presença daria direito. O virtuoso presidente dessa egrégia e patriótica instituição é alvo de rumores, insinuações, acusações e em breve poderá ter de se sentar no banco dos réus. É neste contexto que surge uma lista com centenas de nomes associados numa patusca “comissão de honra”a favor da reeleição do actual presidente. Se isto não é a cereja em cima do bolo da asneira então não sei o que será. Não vou referir, deixo isso para ocasião mais substanciosa, a pré campanha eleitoral para a Presidência da República. Pelos vistos há claras suspeitas que se vai repetir a caminhada de Branca de Neve e os Sete Anões de há quatro anos. Todavia, vai um reboliço de apoios cada um deles mais surpreendente que o outro. A srª deputada Moreira (PS) jura um amor eterno ao candidato do PCP. Outra deputada do mesmo ajuntamento dá o nome por Marisa, a dr.ª Gomes recebe o voto caloroso e perigoso do fundador do LIVRE, o mesmo que fez incontáveis juras de amor a Joacine que lhe pagou como se sabe. E Marcelo calado. Está num cinema de Lisboa uma reposição de filmes do grande Kurosawa, o autor de “Ran”. Eu lembraria aos entusiasmados cabos eleitorais que vissem este filme e percebessem as razões que levam o grande daimio a não se mexer. Ou dito de outra maneira: a aranha na teia está imóvel à espera que a mosca lhe caia na rede. Depois comê-la-á tranquilamente Percebem ou querem que vos faça um desenho? Este texto, penosamente escrito num I Pad foi quase todo realizado na esplanada. Reato assim uma tradição que os idos de Março interromperam rudemente. Estou a terminá-lo em casa, ao som reconfortante da trovoada e sob a ameaça da chuva benfazeja.

Senhor é mais do que tempo

O verão foi demasiado intenso

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol

e por sobre as pradarias desata os teus ventos

..............................................

Quem não tem casa não a irá mais construir

Quem está sozinho vai ficá-lo ainda mais

Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais

e correr as áleas num inquieto ir e vir

enquanto o vento carrega as folhas outonais

E com este fragmento de Rilke me despeço. Acompanha-me deste um dorido sétimo ano num colégio interno altura em que copiei, um a um, todos os poemas constantes de dois volumes organizados por Paulo Quintela com o título geral de “Rainer Maria Rilke Poemas”.

 

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