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Incursões

Instância de Retemperação.

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au bonheur des dames 418

d'oliveira, 19.09.20

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Estrangeirado mas informado

mcr,  19 de Setembro

 

Tenho um amigo francês, dezoito anos mais velho, que chegou a Portugal e à Figueira pouco antes do fim da guerra. Vinha acossado por várias polícias, desde logo as alemã e francesas (Paris e Vichy) e mais tarde pelo franquista. Pai preso por resistente, resistente também ele, encarregado de guiar fugitivos até à fronteira espanhola, descobriu que lhe andavam no encalço e, com dezanove anos acabados de fazer, desandou sem olhar para trás. Atravessou meia Espanha à pata, entrou sem especiais dificuldades por Vilar Formoso (passaporte espanhol mais falso do que Judas). Arribou à Figueira, apenas para descansar umas semanas e seguir para Inglaterra para continuar o combate. Adoeceu com alguma gravidade e ficou-se por Buarcos a recuperar. Entretanto a guerra na Europa acabou, encantou-se com uma rapariga local e, graças a vários figueirenses de origem francesa (gente que se fixara por alturas da construção da linha de caminho de ferro da Beira Alta, normalmente técnicos que terão sentido o apelo de uma terra à beira mar e se integraram na comunidade local. Conheci e privei com muitos, os Jacques, os Bracourt os Reynaud...), deixou-se ficar. Nada o prendia ao país natal, pais desaparecidos, família dispersa, país libertado e devastado.

Contra o costume, aprendeu rapidamente português, mantendo um ligeiro sotaque que lhe denunciava a Saboia natal e uma especial predileção por boa e sólida comida. Agora, rodeado de filhos, netos e bisnetos, aparece de vez em quando, ainda robusto, proibido de tomar café que ele substitui por chá de cidreira que acompanha com “um cheirinho”. O médico que apenas lhe permite um copo de vinho a cada refeição, esqueceu-se de lhe interditar os cognacs, armagnacs e  destilados similares. Francês astuto, temperado por muitos anos de Buarcos, também não perguntou e a verdade é que aos 96 está rijo, um pouco surdo, ágil tanto quanto se permite a um quase centenário. E depois de almoço e do jantar a eterna infusão acompanhada de um cálice de “fine Napoleon “ ou de uma reserva velha e excelente de “Carvalho, Ribeiro & Ferreira”.

Conhecemo-nos desde sempre e ele, agora, aprece duas três vezes por ano pois tem por cá um bisneto que não dispensa a companhia do antepassado. Partilhou com o Fernando Assis Pacheco e o tio Marcos Viana, as últimas garrafas de um brandy que o avô Alcino fazia com carinhos de pai. E só para oferta! “Ai o brandy do teu avô”, suspira. O tio Marcos jurava que nunca tinha bebido nada melhor e o Fernando homenageou a criação do velho Corrêa Ribeiro no seu excelente romance “Trabalhos e paixões de Benito Prada” (cfr pag 194, in fine, onde o meu querido amigo põe um agente da “prestimosa” a emborcar um cálice da nossa produção). Agora, quando aparece, leva uma das últimas e raras garrafas de porto que me caíram em herança desafia-me para um restaurante francês para matarmos saudades "du pays".

É dele a frase “evacué comme un malpropre” que eu tinha escolhido para um texto desaparecido em combate neste computador que, de quando em quando, me prega partidas infames. No caso por duas vezes que escrevi um post que misteriosamente desandava para o infinito quando o tentava publicar. Só à terceira é que se salvou. À terceira versão, diga-se, diferente da segunda que já nada se assemelhava à primeira excepção feita do assunto. O que se perdeu de literatura “boa, abundante e bem confeccionada” como se dizia na tropa a propósito do rancho que se servia aos pobres taratas que, em boa verdade. Raramente tinham comido melhor e em tal quantidade,

Desta feita, porém, lembrei-me dele – e já lhe enviei cópia, ao cuidado de uma bisneta- por via de um artigo no “Le Monde” datado de 18, sobre a pandemia na Suécia.

Os leitores lembrar-se-ão da estratégia sueca, fortemente atacada, de apenas esboçar uma espécie de resistência passiva ao vírus filho da puta. É verdade que morreu gente (cerca de 6000 pessoas) numa população de 10 milhões de habitantes mas o país nunca parou.

Neste momento, a Suécia averba cerca de 200 novos casos dia (!) tem 130 doentes no hospital (!!) e 13 nos cuidados intensivos (!!!)

Estes números, comparados aos de cá, deixam-me extasiado, tanto mais que as aulas já lá começaram há duas semanas. Costa, cuidadoso, teme 1000 casos dia e os números de hospitalizações cá são três vezes maiores sem falar na percentagem de casos em cuidados intensivos.

Os suecos não deitam foguetes, não se armam ao pingarelho, nem recomendam o seu sistema como exemplo. Mas que estão a aguentar, ai disso não resta a mínima dúvida.

Ora, a que se devem estes números, excepcionais em toda a Europa, e extraordinários quando comparados com os nossos, pais igualmente periférico mas dependente, pobre, com maus hábitos cívicos, menor educação ambiental e social?

Não sou sueco, nunca pretendi sê-lo, provavelmente não gostaria de viver longe do sol, sal e sul mas tenho por mim que convinha perceber melhor como é que esta gente, periférica como nós, insisto, se debate com o mesmo problema e consegue, aparentemente, melhores resultados.

Digo aparentemente porquanto, no que toca ao vírus filho da puta, pouco se sabe e tudo pode, subitamente, acontecer.

E lembrei-me da Suécia, porquê? Porque saiu mais uma reedição de uma obra de Stig Dagerman, um sueco escrevente e anarquista que descobri nos alvores de 60. Desta feita é “Um outono alemão”, reportagem sobre a Alemanha no fim da 2ª guerra, o mesmo é dizer o desastre total. E lembrei-me a este propósito do paralelo, fácil de fazer, com “Alemanha ensanguentada” de Aquilino Ribeiro, um outro olhar compadecido sobre os horrores suportados sempre pelos que menos têm, que menos decidem e mais aguentam. E mais morrem.

Há muito que não propunha uma leitura, redimo-me agora e espero poder vir a dizer qualquer coisa de “ressurreição” (em terras francesas) de Joseph Roth, o autor de “A marcha radetzky” um dos melhores livros do século XX (com tradução portuguesa). Descobriram-se inéditos do austríaco o que merece ser celebrado. A seu tempo, depois de ler, algo se dirá se valer a pena.

Até lá, bom fim de semana...

Na imagem: fotograma de “Mónica e o desejo” de Ingmar Bergman

 

 

 

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