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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 419

d'oliveira, 26.09.20

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Pot-pourri de Outono

mcr 26 de Setembro 2020

 

O dia a dia proporciona a qualquer pessoa um conjunto de observações que só reunidas merecem , se é que merecem, referência. A pátria assoberbada com os escândalos, os processos, o covid manhoso, deixa passar o dia a dia mesmo quando este se revela ridículo ou, pura e simplesmente, detestável.

Comecemos por uma patetice que também é uma grosseria e, sobretudo, uma arrogante falta de juízo político, social e ético.

A srª Inês de Medeiros é presidente da Câmara de Almada, autarquia arrebatada ao PCP não tanto por virtude dela mas sobretudo por cansaço da população e manifesta perda de velocidade do partido comunista. De facto, nada a recomendava especialmente para a carreira autárquica mesmo se, como se sabe, fora deputada pelo PS. Desse período, fora um par de vulgaridades a propósito de cultura, só resta o escandalozinho de, enquanto deputada ter usado da estranha prerrogativa de viagens semanais Lisboa Paris (em classe executiva)à conta do Parlamento. Tal facto levantou um sururu de primeira e a deputada acabou por custear por si as suas idas a casa.

Eleita surpreendentemente presidente de uma Câmara do cordão vermelho pouco se ouviu falar da sua obra, excepção feita a uma persistente campanha dos vencidos que não lhe perdoaram a ousadia. Em breve saberemos mais, quando ( e se) disputar um novo mandato. Manda a verdade dizer que também se não ouviu grandes críticas o que não deixa de ser um sinal animador. Pas nouvelles, bonnes nouvelles!

Todavia, no melhor pano cai a mancha. Eis que a propósito dos degradados bairros sociais de Almada, a boa senhora entendeu aprofundar a discussão exaltando as “maravilhosas vistas” desses locais abandonados de Deus e dos homens ou tão só das atenções municipais. Da intervenção em causa que a televisão maliciosamente passou na totalidade há dias verifica-se que tudo o que depois se disse da infelicidade, da parvoíce e da insensibilidade da autarca é pouco e tristemente verdadeiro.

A srª Medeiros, logo que o rumor começou veio, como de costume, afirmar que os seus destemperados dizeres tinham sido “descontextualizados”. Não foi original e, sobretudo, usou mal as palavras. A sua infância austríaca e a longa permanência no estrangeiro tê-la-ão afastado da subtil semântica indígena. Nada no seu discurso, passado, como já se disse, de novo na televisão, permite falar em contexto ou na falta dele. Naquela aziaga intervenção a autarca até se diz disposta a ir viver para o “bairro amarelo” cujas vistas fazem a inveja da margem norte (sic).

Não se percebe porque razão não optou por dizer que aquilo foi uma distracção, uma fogachada tola disparada durante o calor de uma discussão e pedir desculpa pela asneira. Nada disso. A srª Medeiros arrogantemente tentou enfrentar a comunicação social acusando-a de mentirosa ou de estúpida. Foram os interlocutores que não perceberam a bondade das suas palavras, o arreigado respeito pelos seus munícipes mais desfavorecidos e, já agora, a defesa tous azimuts da sua cidade, bela entre as belas.

Pobres cidadãos de Almada.

 

As aulas vão começar nas universidades e a grande questão do momento é, imagine-se!, a praxe. Parece que, com o covid tem de se amaciar um par de aspectos da repelente instituição que sobrevive graças à imbecilidade manifesta de uma multidão de “praxistas” disseminada pelo inteiro universo universitário nacional a partir de desastrado exemplo coimbrão.

Não vale a pena tentar explicar o quão ofensiva pode ser esta prática herdada de muita selvajaria tradicional e inexplicavelmente replicada nas universidades (e são muitas) portuguesas.

Eu estudei em Coimbra, aliás até fui “bicho” e, por isso mesmo, eventual vítima das “trupes” embuçadas que corriam ruas, travessas e becos à procura de um desgraçado para rapar e/ou sovar. As autoridades fechavam os olhis a estas “rapazices”, a Universidade via com complacência estas práticas que, in illo tempore, só abrangiam os varões. Com o exponencial acesso das mulheres ao ensino dito superior, eis que a praxe começou a aplicar-se às meninas. Em boa verdade já não há “rapanço”, “unhas” e, muito menos “canelão”. Neste último caso, a prática morreu desde que o recinto universitário extravasou da “Porta Férrea”, local ideal para os “doutores” em alcateia ferrarem caneladas nos pobres caloiros que só tinham aquele caminho para irem às aulas.

Porém, além das capas e batinas (hoje um vestuário caro e incómodo) das fitas e grelos, da “Queima” que se tornou num cortejo alcoólico e sujo, subsiste, mesmo que profundamente desvirtuado, o “gozo” dos caloiros. Em tempos, mesmo nos meus, a coisa, de todo o modo humilhante e desprezível, durava um par de semanas e em casos contados poderia revelar alguma ironia, uma pouca de graça. Em caso contados, raros, raríssimos. Na generalidade, aquilo reunia uma multidão de sevandijas, outro tanto de imbecis espectadores e um ou vários rapazinhos imberbes recém chegados que se deixavam “gozar” para evitar “julgamentos” e rapanços que sempre se lhes seguiam.

Tive a sorte, a infinita sorte, de ser caloiro já com uma Associação Académica de pé, com uma direcção geral democrata que conseguia vagarosamente eximir os caloiros de quando em quando. As actividades associativas desportivas ou culturais permitiam aos caloiros fazer o seu caminho casa-associação- casa sem cair nas patas dos trupistas.

Quando fui veterano (1969) fui um dos subscritores do decretus que abolia todas as formas infamantes de praxe, “gozo” e “mobilizações” incluídos. Fui, aliás eu que redigi o documento que lá vem, se se conserva com a minha assinatura “marcellus fluviulus” se bem recordo. Devo dizer que fui sempre anti-praxista mas não deixei de aproveitar a minha promoção a veterano para melhor combater aquela burrice manifesta. Aliás, os veteranos são apenas e só os alunos que tem mais matrículas do que normalmente o curso comporta. Ou seja, os veteranos ou são cábulas ou estúpidos, basta escolher. Eu fui provavelmente as duas coisas mesmo se em meu abono possa fazer uso das vicissitudes da vida académico-política que levei a cabo entusiasticamente. De todo o modo, no quarto ano, percebi, tardiamente, que podia fazer tudo e estudar um mínimo e num ápice terminei o curso sem mais chumbos e, pasme-se, com boas notas.

Nesse decretus que refiro, não se beliscavam os trajes académicos, as insígnias, as festas estudantis (queima, latadas, tomada da bastilha) nem sequer a nomenclatura dos diferentes graus que levavam um caloiro a doutor. Só se eliminavam a violência e a humilhação.

Durou pouco este estado de coisas. Em Coimbra (onde apesar de tudo acabaram trupes, rapanços unhas) e espantosamente nas outra universidades (Lisboa e Porto, primeiro e agora no resto do país) que não só copiaram (macaquearam) servilmente o mau hábito coimbrão mas até o expandiram desmesuradamente.

Tudo isto nas barbas de Reitores, Senados Académicos, Conselhos de Faculdade e associações de Estudantes. Toda esta boa gente copiou o modelo coimbrão (fora uma que outa novidade sempre cretina no traje professoral ou estudantil) sem perceber que tirando o fado e a balada que se podem cantar em todo o lado nada poderia sequer assemelhar-se à velha cidade, aos velhos edifícios, a um clima intelectual e tradicional construído ao longo de séculos. Coimbra, que pouco mais tem do que estudantes que a fazem viver e cuja mitologia pluri-centenária foi absorvida pela cidade “futrica”, não é replicável por qualquer outra cidade por muitos estudantes que a sua universidade tenha.

Agora, algumas “autoridades académicas” parecem querer travar algumas manifestações não por serem estúpidas e estupidificantes mas por mera precaução anti pandemia! Não vi nenhum comunicado de associações de estudantes mas tão só referências a “conselhos de veteranos” que pouco adiantam. Isto não é negar o século XXI. É negar, desde logo, o XX.

 

As presidenciais começam a bater-nos à porta. Desta feita, o PC apresentou o seu candidato, escolhido como não podia deixar de ser, por unanimidade, no Comité Central.

Vá lá que, depois do fiasco das ultimas eleições com aquela criatura da Madeira, resolveram fazer avançar um dos seus “jovens” (42 anos, o que no pc é juventude pura e dura): João Ferreira, biólogo e deputado europeu. Antes deste cargo terá sido deputado na AR. Pesquizando na internet nada mais se sabe. Se além da política, trabalhou em algum sector. Também não é necessário porquanto, na mitologia partidária basta ser quadro do partido para ser não só um intrépido defensor do proletariado, do povo e dos bons portugueses mas um verdadeiro trabalhador.

Resta que o público em geral, um pouco mais abundante do que o estricto quadro da militância comunista ou mesmo do círculo de simpatizantes, desconhece completamente a criatura. Nõ pretendo com isto dizer que Ferreira é um verbo de encher mas apenas que tem pela frente um árduo trabalho que é fazer-se conhecer mesmo se já tnha disparado a primeira salva afirmando que se dosse Presidente da República daria o seu aval à eutanásia. É pouco e é muito, dado que essa discussão ainda vai no adro. De todo o modo já garantiu o voto da sr.ª dr.ª Isabel Moreira, deputada do PS que prefere o comunista a Ana Gomes, sua alegada correligionária ou a Marisa, uma repetente nesta guerra.

Obviamente, mesmo se o PC recusa tal tese, João Ferreira tem apenas uma missão: fixar eleitorado próprio que ultimamente se tem mostrado demasiado volátil (ou então tem morrido velozmente) e contrariar as duas senhoras já referidas. O dr. Rebelo de Sousa vê assim o seu caminho mais facilitado e com mais dois ou três eventuais candidatos (o sr Tino de Rans e uma senhora socialista que anda afanosamente a recolher assinaturas) aquilo, a eleição, nem história vai ter.

 

Finalmente, e a propósito do sr. Presidente da República seria bom recordar que a sua decidida campanha contra o chumbo do Orçamento tem algumas fragilidades. Primeiro terá de convencer PC e BE a alinhar de novo com o PS. Claro que as resmungadelas destes dois partidos pouco significam. Trata-se marralhar antes de concluir o negócio orçamental. Não vá o PS obrigar a novas eleições, coisa por que estava mortinho, na espectativa de obter uma maioria absoluta. Agora, com a perda de velocidade de Costa, bastarão umas concessões aqui e ali para todos gritarem vitória. O PPD que não tem ilusões já se pôs de lado ou melhor já não acredita na hipótese de ser boia de salvação deste Governo. E isso facilita a vida a Rui Rio que poderá votar como lhe der na real gana sem com isso perturbar a economia. Estranho, muito estranho, seria que o PPD desse boleia ao PS sem fortes garantias e claros ganhos políticos. Rio aposta no cansaço, no anunciado “fim de ciclo” de que toda a gente fala.

De qualquer maneira, a velada ameaça de Marcello é uma falta democrática. E de nada lhe vale tentar relembrar o seu medíocre desempenho à frente do PPD e os alegados favores feitos a Guterres. Não foram favores porque nada podia fazer. Estava apenas a tentar salvar a pele mesmo se isso tinha como consequência um enfrentamento com alguns barões do seu partido. Foi escovado sem honra nem glória e do seu tempo de líder não resta nada. Absolutamente nada. Até Santana deixou mais vestígios. Mesmo se esses fossem sobretudo cacos.

De facto, começo a pensar que estamos em fim de ciclo, queira isso dizer o que quer que seja.

 

*na vinheta: le quartier jaune, perdão bairro amarelo, onde Madame Medeiros apreciaria viver. Eu, egoísta e malvado, detestaria... Feitios...

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