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Incursões

Instância de Retemperação.

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au bonheur des dames 422

d'oliveira, 15.10.20

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“Ai Portugal é um torrãozinho de açúcar!” *

mcr, 15 de outubro

 

Coitados dos políticos que surfam temerariamente as ondas do nosso descontentamento. Eles, gloriosamente, de pé no mar bravio, enfim na rebentação, e eis que uma pobre palavra os atira de focinho para o poceirão (era assim que numa cada vez mais longínqua e difusa infância chamávamos cova que as ondas faziam e onde se perdia o pé. Fui pela palavra ao Houaiss mas nada. Às tantas era um termo muito próprio de Buarcos )

E agora quem foi o náufrago do português língua traiçoeira por excelência?

Pois o senhor Ministro Siza Vieira, homem cauteloso que raras vezes dá azo a zurzidela.

Numa qualquer sessão da Assembleia da República, questionado pelo rumor constante crescente da “corrupção”, S.ª Ex.ª terá dito, e cito, “colocar a corrupçãoo acima de alguns poderes estruturais é um sinal externo muito negativo”

Ou seja, o Ministro, apelou obliquamente para o patriotismo dos deputados avisando a Assembleia dos perigos do uso e abuso dos alarmes contra a corrupção. O estrangeiro, sempre atento, a tudo o que se passa no jardim à beira mar plantado, poderia recuar nas suas intenções de investimento...

Todavia, numa investigação do “Expresso” (Revista, pp 7 e 8) da passada semana lá aparecia, um quadro internacional onde a disseminação da corrupção atingi o valor espantoso de de 94% contra, por exemplo, 22% na finlandia. Ou seja, os cidadãos portugueses estão convictos que o país é um imenso pinhal da Azambuja. No mesmo artigo, referia-se, entre outros o caso da deputada Hortense Martins que se tinha abarbatado com duzentos e tal mil euros de fundos comunitários e que, oh surpresa divina!, continua sentadinha no areópago sem que ninguém lhe vá à mão e lhe peça delicadamente para ir dar uma volta ao bilhar grande.

O Ministro decerto não ignora que os tribunais estão cheios ou correm esse risco de processos contra políticos, magistrados, banqueiros do regime, de todos os regimes, aliás, enfim de que fora deste caldeirão de Pero Botelho aparent rari nantes in gurgite vasto para citar Virgílio, o poeta latino de que apareceu uma brilhante tradução. Por outras palavras, e traduzindo o latinório, no outro mar vasto– o da virtude, são raros os marinheiros que se deixam ver. O resto é como nas esquadras que vinham do Oriente: afundam-se nomes e reputações ao peso da muita canela obtida por meios pouco claros.

Eu só soube destas declarações ministeriais porque a CG se engasgava de riso ao ler um suelto no facebook . Como não frequento essa (e outras) rede tive de a ouvir. As declarações do ministro tinham suscitado uma onda de indignações e um comentário brejeiro mas esclarecedor. Alguém, dizia que “se os corruptos tivessem uma luz no cu, Portugal inteiro pareceria mais feérico que Las Vegas”.

Tirando o pequeno ponto escatológico, a criatura tinha montes de razão. O panorama é estarrecedor e ao cheiro dos fundos que hão de vir da UE as suspeitas avolumam-se quanto à ladroagem que se põe em guarda.

Ainda por cima, ninguém esquece que um presidente do Tribunal de Contas mal concluído o mandato foi irremediavelmente substituído por outro cavalheiro. Ora sucede que há uma longuíssima tradiçãoo, praticamente ininterrupta de renovar os mandatos neste Tribunal, sobretudo se, como se depreende das palvras do Presidente da República, do Primeiro Ministro e do alegado líder da Oposição, o substituído é digno de todos os louvores. Esclareça-se que o ex-presidente do TdC tinha durante vários mandatos ocupado um mais que honroso cargo numa instituição comunitária de cariz semelhante de onde saiu cumulado de honrarias.

A tese novíssima e sem apoio na constituição de que este mandato deverá ser único foi repentinamente mencionada pelos dois primeiros quando já todas as sirenes tocavam a rebate. O Sr Presidente disse mesmo que ele, constitucionalista, sempre fora pelo mandato único. Contudo, foi quando presidia (sem chama nem fulgor, nem herança visível) ao PPD que a constituição foi revista e nem uma palavra a favor dessa tese foi seguida. Mais: nessa mesma revisão a teoria ora em curso foi chumbada! Quanto ao líder da oposição a coisa parece clara. Depois de o informarem que o Presidente do TdC ia ser substituído, perguntaram-lhe se concordava com o futuro nomeado e ele aceitou. Todavia, em entrevista acrescentou que “por ele se manteria o antigo”... Portanto, até na chamada do seu nome, houve um pequeno entorse à verdade plena. Ninguém, pelos vistos, lhe deu a escolher o nome mas apenas o consultaram sobre o que já estava nomeado.

Voltemos, porém, ao Ministro Siza Vieira. Nada tenho contra ele, bem pelo contrário. da minha preguiça, perdi de vista. Portanto, repito, é com alguma perplexidade que em vez de ouvir uma dura condenação da corrupção e um claríssimo anúncio de que os seus dias estariam contados (pelo menos no que respeita ao Ministério da Economia e enquanto ele conseguisse continuar a ser monistro...) eis que o governante se dá ao luxo de prevenir as raras vozes que no deserto parlamentar clamam sobre os males de tal escarcéu! “Não façam ondas que os estrangeiros assim não investem”. E é mau para a reputação do país!... O dr. Siza Vieira que certamente lamenta a corrupção endémica que grassa no seu país, aflige-se com a reacção dos investidores, provavelmente os cavalheiros chineses, que poderão ficar desmotivados...

Em segundo lugar, o dr. Siza Vieira parece ignorar que esta calamidade pública é pública e notória e dela se fazem constantemente eco relatórios internacionais. Ou seja, poucos ignoram que, em Portugal, há sempre uma multidão de mãos ávidas que esperam comprador mesmo barato para exercerem as suas influências no descaminho das despesas públicas.

Será o dr. Siza Vieira assim tão ingénuo ou pretenderá apenas calar as vozes dissonantes que contrariam a tese da melhoria da ética pública?

Recomendaria a leitura sempre excelente de Eça de que ele decerto ouviu ofalar nos seus anos de escola secundária. Bem sei que as leituras obrigatórias suscitam um profundo e duradouro horror à grande maioria das vítimas inocentes e jovens do eduquês que cá se pratica com alto grau de malignidade mas convido-o a esse “patriótico” esforço para perceber que o patrioteirismo do seu apelo é malsão e, sobretudo, ridículo.  

* o título é retirado de "Uma campanha alegre"

 

 

 

 

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