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Incursões

Instância de Retemperação.

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au bonheur des dames 425

mcr, 13.12.19

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Pido la paz y la palabra

 

mcr 13 Dezembro 2019

 

 

O título do folhetim de hoje é de Blas de Otero, poeta grande entre os grandes e resistente entre os resistentes, ao franquismo primeiro e a tudo na realidade.

E se uso Otero nesta croniqueta é porque talvez (um talvez esperançado mas não muito) o seu nome seja conhecido por Eduardo Ferro Rodrigues,  pelo menos devido ao facto do poema com este título ter dado origem a uma bela canção de Paco Ibañez que se ouvia muito nos anos duros a cujo estertor final EFR assistiu e, aliás, para o qual colaborou, honra lhe seja.

Gostaria de começar com um “meu caro Féfé” mas não o faço. Foi na qualidade de Presidente da Assembleia da República que ele tropeçou e a uma autoridade destas há que, mesmo para a criticar, usar um tom que sem ser subserviente não caia no desrespeitoso ou no demasiado familiar.

De facto, ontem o sr. Presidente da AR perdeu a cabeça e a contenção exigida pelo alto cargo que exerce. E, pior, cometeu uma injustiça ao tratar diferentemente dois deputados que usaram a mesma palavra “vergonha”. A um tratou-o rudemente, para não dizer mal, para não dizer que abusou da sua posição naquele areópago. Ao censurar o termo “vergonha” e, sobretudo ao extrapolar do seu uso para um insulto aos restantes deputados, o sr. Presidente demonstrou (mesmo que, como espero, contra vontade e para além do que devia) uma impaciência (e estou a ser demasiado suave) e um forte desconhecimento da língua portuguesa.

“Vergonha” mesmo no plural (“vergonhas” por partes pudendas masculinas ou femininas) não é insulto.

Mais: é usado aqui e em muitos outros lugares, parlamentos incluídos e quase não há sessão no britânico em que alguém não brade em discurso ou em aparte, “shame on you!”

Eu, como o dr Ferro Rodrigues (presumivelmente) não tenho qualquer simpatia pelo doutor André Ventura. Em boa verdade tenho mais sorte que o meu ex-camarada de MES porquanto nem sequer conheço a criatura e muito menos sou obrigado a ouvi-la.

Porém, o Presidente do parlamento está lá para ouvir sem emoção os desabafos, desde que civilizados, dos deputados. E mesmo os outros pois a AR já foi palco de muita discursata ofensiva.

Não cabe nas funções de Presidente da AR deidir qual o português que se usa e, muito menos, interpretar semanticamente o que se diz. No caso, nem sequer é uma interpretação. É uma distorção absoluta ou, em língua corrente e,  com o respeito devido, uma asneira de todo o tamanho.

Há porém mais, como argutamente o notava o caricaturista Luís na última página do Público de hoje. O dr Ferro Rodrigues deu, de mão beijada, ao representante (por enquanto único) do Chega uma oportunidade extraordinária de mostrar urbi et orbe, que é perseguido por quem deveria velar pela ordem , pela paz e pelo bom uso legítimo das palavras na AR

A coisa torna-se ainda mais caricata, o dr Ferro Rodrigues que me desculpe, quando na mesma sessão uma deputada do BE usou a mesma palavra sem ser admoestada.

Claro que poderemos sempre pensar que o dr Ferro Rodrigues quis ser um “galantuomo” e tratar uma senhora com requintes de amabilidade e compreensão. Mas também aí erra e não pouco. De facto o BE é um potencial aliado do PS, partido a que o dr Ferro Rodrigues pertence. Fez parte da “geringonça” e os seus votos são fundamentais para a aprovação do Orçamento.

Não ouvir a “vergonha” do BE quando ao som da outra do Chega se perde a calma e a razão e o sentido da língua é um erro dramático e um péssimo sinal para a defesa da democracia. Pode parecer parcialidade!

E em política, dr Ferro Rodrigues, o que parece É    

 

(a parte: como amigo do visado a quem reconheço humor e inteligência devo dizer que fiquei arrepiado com a sua intervenção, com o tom que usou que me pareceu prepotente. Numa palavra: estou envergonhado)

 

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