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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 430

d'oliveira, 28.11.20

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Se valesse a pena...

mcr, 28 de Novembro de 2020

 

se valesse a pena, se o destinatário soubesse ler e entender o que está escrito e fosse capaz de pensar fora da caixa ideológica onde se tem mostrado encerrado, eu dar-me-ia ao trabalho penoso de lhe escrever umas breves linhas como se fazia nos séculos passados, tentando chamar a atenção para situações surpreendentes.

 

Por exemplo: a sr.ª Ministra da Saúde deu uma entrevista à Rádio Renascença fartamente reportada pelo “Público” onde afirmou, entre outras coisas dignas de pasmo, que havia ainda 500.000 doses de vacinas para a gripe.

Ora ocorre que, em dois dias (quinta e ontem) me referiram cinco casos de pessoas que, estando inscritas desde o inicio da campanha de vacinação nos respectivos centros de saúde e, à cautela, em farmácias, não conseguiram até ao momento ser vacinados.

Aliás, quarta feira passada (25/11) entendi perguntar na farmácia que mais frequento se ainda tinham vacinas. A resposta foi tão pronta quanto elucidativa: não tinham, não sabiam se iriam ter não obstante haver uma lista de espera (ou de desespera) longa como a espada de D Afonso Henriques. O meu genro disse-me ontem que anda desesperado por arranjar uma vacina para a mãe, senhora com mais de 70 anos. Está inscrita em duas farmácias e no centro de saúde.

O meu amigo Pedro M. A. afirmou-me, hoje, que nem ele nem a mulher conseguem vacinar-se mesmo se esta, médica actualmente reformada, tivesse tido o cuidado de, a tempo e horas, se inscrever. Ambos de Coimbra, pessoas conhecidas na cidade, tem corrido ceca e Meca para se vacinarem. Sem êxito. Ou seja, nem gente influente, pelo menos com o grau de influência deles (que não são pessoas de mendigar cunhas), tem acesso à vacina. De Lisboa chegou-me uma notícia semelhante mas metendo mais pessoas igualmente idosas, igualmente cuidadosas e inscritas desde o os primeiros dias.

 

Traduzindo em miúdos: em três das maiores cidades do país não há vacinas. A acreditar na Ministra, teremos de pensar que as vacinas em falta se passeiam por Freixo de Espada à Cinta, Unhais da Serra ou Almodôvar. Ou por algum outro mais recôndito lugar do tristonho interior abandonado. Ou nas Berlengas...

Claro que podemos, pura e simplesmente, não acreditar na criatura ministerial que entretanto, entendeu esclarecer os portugueses medrosos, egoístas e estúpidos que na República Checa apenas se importaram uns centos de milhares de doses e na Suécia (ambos países com a mesma população de Portugal) ainda foram menos. Ena, gente corajosa!

Eu não sei onde a pitoresca senhora foi desencantar, a serem verdadeiros, estes números, claro. Desconheço o quanto a gripe se ceva na carninha tenra e inocente e loira de checos e suecos. Pode até acontecer que, sendo eles protestantes na maioria dos casos, aquele contacto mais intimo com Deus e com a Bíblia os livre da gripe e das bexigas doidas. Ou será o frio que os conserva melhor enquanto nós, gente do sul, habituados ao quentinho somos presa fácil do vírus da gripe sazonal.

Conhecendo como conheço (mal) aqueles povos estranhos e nórdicos espanta-me tão robusta constituição física. A menos que, como são dados ao consumo de bebidas brancas fortes isso lhes inocule defesas que a nós, consumidores de vinho nos escapam.

O meu amigo Kapa, sugeriu-me, hoje, à hora da bica matinal que o segredo estaria na cerveja pelo menos no caso dos checos, gente simpática e industriosa que inventou a Budweiser (a verdadeira) e a Pilsner Urquell que, num Berlin longínquo e dividido foi pelos dois John, (big e little) por um sardo, pelo espanhol Martin e por mim próprio, aclamada como a melhor cerveja do mundo. Tal declaração, importante e honesta, foi aliás amparada pelo meu amigo Luís Matias que apenas lhe juntou uma alemã, a “alte Dortmund” (?) que nunca consegui provar e que seria uma cerveja de dupla fermentação. Vários anos depois, mas sempre no âmbito do “Goethe Institut” e dos seus cursos de alemão para estrangeiros, dois cavalheiros japoneses (Abe e Satoro, ambos engenheiros, um de pontes em betão e outro especializado em instrumentos musicais de vento!!!) que me tratavam reverentemente por “Marcero san” e se desfaziam em vénias sempre que me encontravam ( e encontravam-me às duas por três porquanto habitávamos a mesma casa em Murnau) notificaram-me após prolongadas libações nocturnas que, na realidade, a “...Urquell” era a melhor.

Será que na Suécia, pais de gente plácida mas rija, vikings governados por uma dinastia francêsa, também há uma cerveja deste tipo? Já estou a ver uns suecos altos e umas suecas belíssimas a mamarem as bejecas e a gritarem “skall” de cinco em cinco minutos. Não se estão a emborrachar, longe disso, estão a vacinar-se contra a gripe, como aliás o valente soldado Schveik fazia na sua Praga natal.

Deixemos, porém, este interlúdio alcoólico, e voltemos à ministerial criatura. Pode acontecer que, contra as indicações dela, os funcionários e a DGS (oh nome apropriado e antigo!) estejam cavilosamente a guardar as vacinas para mais tarde. Nesse caso, a Ministra não mente mas é incompetente. Isto faz verso mas é perverso. Porque uma Ministra que não tem mão na gentinha que lhe está adjunta e sob as suas ordens pede vassourada grande. Tudo para o olho da rua, Ministra e o resto.

Que há mistério, não restam dúvidas. Que será feito das quinhentas mil doses que mais parecem fantasmas (o da ópera? O de Canterville? ) que remédios?

Portanto, eu escreveria à Ministra mas, confesso-vos, aqui à puridade: não acredito em milagres, nem sequer no bom senso da senhora. Ela pode ser, e é, uma “picareta falante” mas está mais gasta do que as solas dos sapatos de Charlot.

Quanto à criatura da DGS, tirando o duvidoso gosto por broches e pregadeiras que ela ostenta em profusão, perdoando-lhe o português deficiente com que diariamente nos mimoseia, creio francamente que reforma-la e envia-la para um lar seria uma boa acção mesmo se (e para citar um dos seus melhores momentos de inspiração) “impatriótica”...

 

*na vinheta: “Big” John e “little” John . O primeiro jáera um fotógrafo talentoso, o segundo tinha fundado um círculo de ópera na sua cidade natal mas logo que aquilo cresceu e ganhou importância passou o cargo a um músico profissional e desandou para Berlin para aprender alemão. Tornou-se jornalista mas perdi-lhe o rasto. Conheciam Berlin “bei Fuss, ou seja tinham palmilhado aquela imensa cidade que mesmo dividida era enorme. Quando aparecemos com o nosso carro, foi o delírio pois aumentava sempre intra muros o nosso raio de acção e a rapidez com que se chegava a qualquer lado. Temo que a pandemia que anda à solta pelos EUA tenha acabado com ambos que até eram mais velhos do que eu.

A fotografia é miserável mas vou ver se ma restauram. Inde querque estejam, velhos amigos: Schuss!

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