Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

31
Mar18

Au bonheur des dames 436

d'oliveira

images.jpeg

 

Páscoa feliz

mcr 31-3-2018

 

No momento em que escrevi este título para a crónica de hoje, lembrei-me de ter ouvido uma história de dois irmãos em que o homem se chamava Natal Querido e a irmã Páscoa Feliz. Trop beau pour être vrai!... Todavia, não descri inteiramente do amigo que me falava destes singulares nomes porquanto o meu pai contava que no seu tempo de moço atrevido havia duas irmãs que se chamavam República e Liberdade (a mocidade local à falta de melhor entretenimento fazia mas incursões à rua onde as duas manas moravam e berravam vivas à Liberdade e à República esperando que a polícia desse tempo (eram os ominosos anos trinta do século passado) os interpelasse para poderem galhofeiramente referir que nesses gritos nada havia de subversivo  mas tão só de louvor às duas moçoilas.

Eu próprio conheci um Lenine de Jesus e adorava cumprimenta-lo com grandes salamaleques tratando-o de camarada Lenine de Jesus ou até só camarada Jesus. A criatura era, se a memória sempre traiçoeira não me falha, militante no mesmo carnaval político que frequentei entre 74 e 75...

Mas não era de nomes que vinha falar mas tão somente deste estranho costume de celebrar a Páscoa com idas maciças para o Algarve, consumir a “semana santa” entre a praia, grandes comezainas e noites brancas nos locais de uso.

A Páscoa é a grande, a mais emblemática data da Cristandade. É quase ou absolutamente o cerne desta fé. Sem Páscoa não há cristianismo.

E que vemos nós neste torrãozinho de açúcar à beira mar plantado? Pois uma emigração em massa para umas curtas férias balneares nacionais ou mesmo internacionais. É verdade que aqui e ali, e sobretudo em Braga (a idolátrica como referia Pacheco) há umas procissões soleníssimas cheias de criaturas com capuzes fora de moda (farricicos?), muitas cruzes num desfilar de piedade pouco convincente e vagamente andaluz. Mas a coisa é mais folclore e turística do que realmente religiosidade entranhada e sentida.

(a este propósito não resisto a recordar uma história passada nos primórdios de setenta. Com mais um par de amigos e amigas fomos de longada para a Catalunha onde nos reuniríamos com outros amigos então exilados na Suiça. Numa cidade (cória?) do caminho, já ao lusco fusco caímos no meio de uma dessas tremendas procissões penitenciais da semana santa. Logo que a rua ficou vazia corremos para um restaurante recomendado por uns locais onde se comeria bem e a bom preço. Já estávamos instalados na grande sala a petiscar presunto e à espera de umas carnes – nesse tempo a malta não religiosa fazia questão de só comer carne na quaresma e sobretudo na semana da Páscoa- quando vemos entrar a multidão dos processionários ainda fardados com as vestes de ocasião. em alta grita foram, também eles!..., encomendando acepipes vários e doses quilométricas de tapas onde não faltavam o chouriço, o presunto e outras especialidades cárnicas (roubo a palavra a José Quitério, gastrónomo e e crítico de grande gabaritoque escrevia algum do melhor português que se usava no Expresso. Saravah, velho amigo e irmão, um abraço deste teu velho companheiro de fuga ao estudo, de noites varadas em conversatas saborosas numa Coimbra, ainda sem atropelos urbanísticos e com uma “baixa” cheia de livrarias e cafés). Fiquei esclarecido. A espanholagem que nos acompanhava nesse restaurante devia considerar que a procissão de que fizera parte permitia uma fuga ao preceito do jejum pascoal. Beberam e comeram e cantaram. E nós com eles, claro.)

E o mais curioso desta migração pascal é que ela ocorre sem lhar para o calendário, sequer para a meteorologia. Caiam as festas em fins de Março ou em Abril bem avançado e ala que se faz tarde. Praia com eles. Chova ou faça sol. “Ei-los que partem” com uma fé eventualmente pagã no milagre das rosas algarvio. Substituem a água benta pela do mar, a missa matutina por uma soneca que a noite foi de discoteca e até às tantas.

Decididamente, o país alegadamente católico, apostólico e romano, aposta numa ligeira intermitência da fé e dos deveres do crente. Portugal, à medida que se vai europeizando, transforma-se em terra de missão.

Não é que a coisa me incomode. Sou (ainda...) um agnóstico da velha guarda que só não se declara ateu porque isso tem um ar de militância desagradável. Aliás, escrevi acima “ainda” porque nada me garante que mais entrado em anos (e eu já estou quase na quarta idade) não me suceda o mesmo que a Jean Barois herói de um grande livro de Roger Martin du Gard, prémio Nobel e autor do magnífico “Les Thibault”, obra admirável que provavelmente ninguém lê. Porventura nem sequer existem actualmente versões em português. Barois é católico em jovem, passa a ateu durante a vida adulta mas quando já está no ocaso da vida retoma a fé antiga, depois de, durante anos, ter provado a desrazão da crença. Não me sinto fadado para Barois, não andei a pregar a evidência da ciência e da razão versus a religião mas tudo pode suceder-me amanhã. O mais certo é morrer de cancro ou perdido no Alzheimer ou outra doença medonha. Todavia, a velhice e o seu cortejo de misérias físicas podem predispor uma pessoa a subitamente acreditar numa vida outra e eterna. O medo da morte é como o sono da razão: cria monstros. E aterroriza o mais corajoso.

De todo o modo, desejo-vos, caros leitores e leitoras, uma boa Páscoa. que o cabrito, as amêndoas e demais mimos da época vos caiam bem. Também vos desejaria bom tempo, mar chão e quente mas isso vai contra todos os prognóstico do Instituto do Mar e da Atmosfera. E ao ex-camarada Lenine de Jesus, Salut e forza nel canut como se diz na Catalunha. Com a idade que terás é um voto mais simpático do que saúde e fraternidade...

* na gravura procissão em Braga

1 comentário

Comentar post