Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 444

d'oliveira, 02.02.18

images.jpeg

 

tempos confusos, práticas estranhas

(para Maria Assis, uma testemunha de outro tempo de batalhas duvidosas a que não se fugia)

 

O senho Centeno é uma criatura singular. Apareceu nas vésperas da última eleição legislativa com uma proposta económico-financeira que o PS, sempre preguiçoso e pouco imaginativo, aceitou de braços abertos. Depois, mesmo depois desta perdida, o PS governou. Com Centeno ao leme das Finanças. Quando se esperava que aquele programa fosse aplicado, saiu outro completamente diferente. Com isso Centeno, evadido do limbo do Banco de Portugal, ganhou a simpatia de Herr Schauble que o crismou de Ronaldo. Schauble mesmo alemão e de cadeira de rodas gosta de ironizar...

A recuperação geral na Europa e na UE, o silêncio das ruas portuguesas sem marchas, sem indignados sem manifs, o turismo fugido de um Mediterrâneo perigoso, e o comportamento das exportações fizeram o resto. Foi aquilo e não especialmente Centeno que mudou, episódica e levemente, a pátria imortal dos nossos egrégios avós. O resto, a dívida pública – e a privada, ai a privada!...-, o novo “consumo” interno desenfreado (até o BP o quer limitar) pintaram a cara de um país que ficou negro no Verão.

Centeno marchou para o seu lugar europeu e pelos vistos gosta de estar na mesa dos adultos. Ainda bem, mesmo se lá, como cá, pouco ou nada poderá influir na Europa que se redesenha.

Entretanto, uma palermice ia entornando o caldo. Centeno, arguindo de uma qualquer ideia de segurança pediu, solicitou, implorou um lugarzinho no “camarote presidencial”. Tais lugares não têm preço (ou tendo-o esse é de tal modo elevado que o melhor é não comentar) e o desejo de Sª Ex.ª foi prontamente atendido. Ele e o abencerragem sentaram-se naquele olimpo de papelão e ouropel e provavelmente tiraram uma selfie comemorativa.

Caiu o Carmo e Trindade. Que o camarote tinha um custo a pagar agora ou nas calendas!

O ministro e os seus defensores aproveitaram a burrice da crítica para se defenderem. Os críticos, em vez de dizerem que um ministro não deve pedir este género de favores insignificantes pelo que isso tem de eticamente absurdo e tolo, vieram falar de corrupção. Que diabo, esta corrupção é tão visível que corre o risco de não passar de um tiro de pólvora seca.

Centeno ou foi ingénuo ou tonto. Ou ambas as coisas, ao mesmo tempo. Deveria saber, mesmo inexperiente politicamente, que o que pediu, segurança pessoal ou não como molho, é indefensável eticamente. Gosta de futebol? Basta vê-lo comodamente na televisão, se receia que um energúmeno na bancada lhe venha pedir contas. Os ministros são, ou deveriam ser como a mulher de César mesmo se a Centeno falte cultura clássica.

O Sr. Primeiro Ministro defendeu o seu Ministro arguindo que aquilo, o bilhetinho de borla eram trocos miúdos. De acordo, tem toda a razão. Até aqui!

Mas perde toda a razão, toda, repito, quando afirma, pomposo e desafiante, que nunca o demitirá, suceda o que suceder, seja arguido ou não. Isto é um desafio esparvoado e perigoso à Justiça e um convite a todos quantos cá por baixo andamos, a mandar a Justiça às malvas para não dizer à merda. Demitir Centeno por conta de uma bagatela que releva da sua patetice seria uma tolice em cima de outra. Dizer que, em caso algum (em caso algum!) tomaria providências é um exercício de arrogância presunçosa que nem sequer defende bem Centeno.

Nota à margem: o PE teve uma conversa preliminar sobre esta caso, o que prova que os eurodeputados andam com falta de trabalho. Os deputados portugueses (todos mesmo os “conservadores”) opuseram-se a qualquer inquérito. Se foi por o assunto ser de lana caprina, muito bem. Se foi por solidariedade patriótica, muito mal. Tudo isto cheira a Carnaval mas não é o de Veneza, o de New Orleans nem o do Rio. É um desses pobretes mas alegretes, típicos da nossa província mais provinciana de onde espiritualmente surdiram Centeno e Costa.