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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

05
Abr18

Au bonheur des dames 447

d'oliveira

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Pagar mas receber

(carta ao Sr. Presidente da Câmara do Porto)

 

por mcr 4/5 de Abril de 2018

 

Ex.º Sr.

Entendeu a Câmara, a que V.E. preside, criar “zonas de estacionamento de duração limitada” no “FOCO” (ou Parque Residencial da Boavista seu verdadeiro nome mesmo se caído em desuso).

Para esclarecer algum leitor que não viva no Porto, trata-se de um conhecido bairro da cidade, situado a meio da Avenida da Boavista e constituído por cerca de doze edifícios onde existirão entre 600 a 800 apartamentos de dimensão grande e média. Há uma Igreja, uma galeria comercial com duas dúzias de estabelecimentos, três pastelarias, um pequeno supermercado, uma agência bancária e dezenas de escritórios. Existe também um hotel ,neste momento desactivado devido à inépcia e ao desvario do antigo BES, uma piscina, um “clube residencial”, um supermercado (todos encerrados) e um bonito jardim no centro. Este conjunto, edificado nos anos 70 está em vias de ser classificado e andou nas bocas do mundo por via de um tresloucado projecto de implantar numa empena do prédio de entrada da rª de Azevedo Coutinho uma criação do “artista de rua” Vihls. Quem aqui vive só costuma sair em caixão pois não há na cidade construção tão boa e, sobretudo, com dimensões tão generosas. Foi obra de reputados arquitectos e ainda hoje é motivo de estudo e visita para alunos de Arquitectura. É um bairro de classe média/alta e provavelmente por isso a CMP (seja qual for o partido que a ocupa maioritariamente) “esquece-se” frequentemente de tratar este conjunto habitacional como trata muitos outros. Basta verificar o estado de pavimentação dos arruamentos e a lepra que invadiu vários passeios, esburacados com pedras de calçada em falta prometendo aos menos atentos valentes quedas. Eu mesmo já me estendi ao comprido num dia invernoso em que, desprevenido e friorento, avançava rapidamente e de mãos nos bolsos. Pimba, zás trás! Beijei a calçada em falha como se fosse o Papa em viajem a um país ignoto.

Volta e meia, a solícita e operosa Polícia Municipal faz uma razia na zona e multa ou reboca viaturas estacionadas mormente nas ruas Eugénio de Castro e Afonso Lopes Vieira. Razões obscuras (ou talvez não...) evitam tropelias policiais idênticas aos estacionamentos absolutamente caóticos da rua onde está situada uma coisa qualquer relacionada com “desporto” e “futebol” onde a regra é a dupla fila. Também nunca se vê um cavalheiro da polícia camarária nas horas em que pais solícitos e mães amoráveis vêm buscar as crias à saída das duas escolas secundarias existentes na rª Primeiro de Janeiro. É um sinal de carinho e respeito pela educação ou simplesmente uma cautela para não ofender progenitores eventualmente famosos ou/e poderosos.

Pessoalmente, disponho de dois espaços na garagem colectiva do meu prédio pelo que estou relativamente descansado. A coisa muda de figura quando tenho visitas ou (como é o caso) algum vizinho com família mais numerosa excede a capacidade de estacionamento da sua fracção. Nessas eventualidades, corre-se o risco de ver a zelosa polícia municipal a operar.

(convém acentuar que estas surtidas ocorrem apenas de dia e com bom tempo. Compreende-se que os senhores guardas se queiram defender da chuva ou de umclima particularmente agreste. É sabido que o crime ou a mera contravenção só acontecem em dias suaves e primaveris.)

Como já se disse acima, há neste conjunto de prédios lojas e escritórios, igreja, um banco (e já houve um cinema e um supermercado bem como uma piscina) que obviamente atraem visitantes, compradores, devotos, para não falar do caso de funerais casamentos e baptizados que, como é presumíve,l atraem pequenas (ou grandes) multidões. Em, zona “rica” há sempre mais freguesia para este género de eventos.

Recordo, sem saudade, o imortal slogan “os ricos que paguem a crise” que encheu paredes de boa parte do país apelando à luta de classes mesmo se os seus propagandistas não tivessem especial noção do que aquilo quereria dizer. Marx é de leitura dificultosa e qualquer “sebenta” progressista, a começar pela da senhora Marta Heineker substitui vantajosamente as elucubrações do velho Karl.

A digna Vereação a que V.ª Ex.ª preside deve ser herdeira desse momento heroico da nossa vida democrática ou, pelo menos, do que se entende como tal.

Assim, nunca a CMP se preocupou em deitar umas pazadas de alcatrão nos arruamentos que estão como foram concebidos pela empresa construtora do “Foco”. Muito duraram eles, sinal de boa e sólida construção!

Agora o piso está gasto, rapado, com fracturas e falhas. Nele, de novo e moderno, só os risquinhos amarelos que proíbem o estacionamento. Pouco antes da Páscoa, na sexta feira, provavelmente para melhor celebrar a Paixão, apareceu grandioso e ameaçador um buraco com um diâmetro de mais de meio metro mesmo em frente da saída da garagem do meu prédio. A meio da rua para ser mais preciso e, sobretudo, mais estético. Alguém adornou a cavidade com uns ferros e um fita de plástico branca e vermelha, como se quisessem alertar os motoristas que descem a rua. Com sorte e algum espírito de gincana consegue-se evitar a cova que ontem, quarta feira, já tinha mais de trinta centímetros de profundidade. Deve ser uma preparação para o rallye de Portugal ou para o finado circuito automobilístico da Boavista...

Exº Sr. dr. Rui Moreira

Eu compreendo que a CMP não nade em dinheiro. E que seja contra a desordem do estacionamento selvagem. Vejo continuamente – e sobretudo na Avenida da Boavista – dezenas de automóveis estacionados em via dupla sem que a briosa e operosa Polícia Municipal dê um ar de sua graça. Provavelmente estará ocupada em esquadrinhar os ricaços que abusam dos arruamentos da minha zona...

Sou, depois de um longo rosário de multas, uma pessoa que só estaciona em parques de estacionamento, pagando o óbolo exagerado que me pedem. Percebo a vontade de tornar a cidade, alegadamente Invicta, mais civilizada e mais europeia. Todavia, veja, V.ª Ex.ª, rentabilizar os arruamentos (e para já só estes) arruinados do “Foco” sem sequer os restaurar parece-me (mas pode ser defeito meu, mesmo sendo seu votante, como fui, e das duas vezes) uma falcatrua, e uma pequena indignidade. Mesmo “ricos” temos, os habitantes do “Foco”, os mesmos direitos constitucionais e camarários, de quaisquer outros concidadãos.

Não quero pagar ou fazer pagar os meus amigos e familiares que me visitam sem que se veja que esse dinheiro tem a sua utilidade e razão de ser. O Município, que, normalmente, só se lembra de nós para pedir o IMI e outras alcavalas, tem o dever de cuidar da cidade de a arranjar, defender, embelezar e tornar mais atractiva para turistas ou empreendedores.

Queira, em consequência, mandar tapar o buraco antes que a rua fique intransitável e, de caminho, melhorar os pisos que irão, estou certo, render bom dinheiro aos cofres camarários

Sem outro assunto de momento, sou

De V.ª Ex.ª admirador atento e obrigado

* nas gravuras:aspectos do "Foco" ou, melhor dizendo, Parque Residencial da Boavista.