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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

20
Abr18

Au bonheur des dames 450

d'oliveira

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Abril de alegrias mil

 

mcr 19 e 20 de Abril

Há dois dias, passou mais um aniversário da Crise Académica de1969 em Coimbra. Não foram muitas as notícias da efeméride. Afinal passaram já 49 anos e o tempo como se sabe passa, faz esquecer, destrói.

Duas das referencias ao acontecimento referiam a Crise académica de1969. Pelos vistos, ou por aqueles vistos, a coisa fora geral. Não foi, bem pelo contrário.

A crise ocorreu em Coimbra, persistiu em Coimbra e arrastou-se longamente naquela cidade e naquela Academia.

É verdade que, em Lisboa um pouco e no Porto muito vagamente, houve algumas (não demasiadas e não multitudinárias) manifestações de apoio. Razões para esta aparente (aliás real) solidão coimbrã não faltam. Em primeiro lugar as Associações de Estudantes eram em Lisboa débeis e no Porto inexistentes. Em Lisboa, o “movimento associativo” estudantil registara nos anos anteriores duríssimas derrotas. As escassas elites académicas tinham sido dizimadas pelas prisões, pelo chamada às fileiras e pelo exílio. A oposição ao Estado Novo fragmentara-se e, na Universidade isso era particularmente visível. Não era só a pequena acção da ASP que desde 64 vinha recrutando jovens socialistas pretendendo quebrar a hegemonia do PC. Havia, sobretudo, a irrupção de grupos de extrema esquerda que começaram com o aparecimento da FAP e continuaram desordenada e autonomamente a crescer e dividir-se nos anos seguintes. Não eram muitos os seus militantes mas eram extremamente activos e o Maio de 68 dera-lhes visibilidade. Visibilidade importada mas visibilidade. Maoístas, trotskistas, anarquistas ou simples críticos independentes acotovelavam-se nas assembleias gerais e a sua irreverência garantia-lhes audiência. O PC bem que os crismava de “esquerdelhos” (referência abusiva ao texto de Lenin “Esquerdismo, a doença infantil do comunismo”) mas, para a generalidade dos estudantes politicamente empenhados, isso ou não dizia nada ou era até um elogio.

No caso especificamente coimbrão, o movimento que se impusera na luta (e consequente vitória) contra as Comissões Administrativas que durante três anos (des) governaram sem brilho, sem apoio estudantil e penosamente a Associação Académica de Coimbra, partia de diferentes sectores mas unificava-se em torno do Conselho das Repúblicas uma estrutura não oficial que, com o Conselho de Veteranos (idem), era independente e compósita dada a própria especificidade e diversidade das estruturas que se reuniam.

Com esta estrutura aliavam-se os “Organismos Autónomos” (CITAC, TEUC ((teatros) Tuna Académica e três grupos corais o Orfeão, o Coral de Letras e o Coro Misto) que também se posicionavam diferentemente no xadrez político coimbrão os teatros mais à esquerda e o Orfeão mais à direita.

Compreende-se, assim, que para alcançar uma posição comum em defesa da autonomia estudantil houvesse que encontrar um denominador comum que, atentas as realidades e a origem dos estudantes seus participantes, não podia situar-se muito mais longe do que um moderado centro esquerda. De resto, a “Direita” coimbrã, ou o que dela restava tinha registadodesde 1960 uma longa e ininterrupta série de derrotas eleitorais apenas mitigada por um decreto lei absurdo que dava à minoria vencida lugares na Direcção Geral da AAC. Tal minoria acabava por ser claramente boicotada e, na realidade, as suas opiniões pesavam pouco ou nada na tomada de decisão. O facto de a Direita ter sustentado as “comissões administrativas”, agindo claramente às ordens do Governo, do Reitor e do Ministro da Educação, também não a tornou atraente à grande massa dos eleitores estudantis. Por muito fraca que fosse a politização destes a simples ideia de que a direcção da AAC não passava de uma correia de transmissão das autoridades era mais do que suficiente para a tornar mal vista e até malquista numa juventude que bebia muito na tradição (e no folclore) académico, nos seus hábitos de desafio e de rebeldia, porventura pueris mas profundamente sentidas sobretudo, e curiosamente, nos meios mais conservadores. Aliás, a Direita mais politizada esta reduzida a um pequeno grupo órfão do movimento Jovem Portugal e de outras formações epigonais. A guerra colonial que já ia no seu nono ano também não ajudava. Morrer em África não era algo sentido mesmo entre os jovens mais tradicionalistas. A guerra, para estes, poderia não ser um crime, mas era, de certeza, uma inutilidade perigosa e indesejada. Se o resto do mundo abandonara as colónias e não perecera porque diabo de razão se ia para os sertões sofrer sem necessidade?

Coimbra, por excelência, um meio académico fechado de faculdades muito próximas, unificado há séculos, isolado da sociedade citadina (os “futricas”) dava espessura e identidade à “Academia”.

Foi isto que fez a força do “movimento”. Foi a ofensa a isto que gerou uma contestaçãoo genericamente sentida por todos e exacerbada pelas tolas declarações de um inepto Ministro da Educação que se formara noutro mio e nada percebia da idiossincrasia estudantil coimbrã. As “autoridades académicas” (Reitor, Senado, Directores de Faculdade), escolhidas a dedo, dependendo sempre do Poder não exerciam sequer uma autoridade moral que as predispusesse a ser ouvidas, quanto mais acatadas.

Não estou a afirmar que nas outras cidades universitárias não pudessem surgir circunstâncias semelhantes mas, e desde logo, a “unidade estudantil” era prejudicada pela dispersão das faculdades, pelo tamanho da cidade e plo facto de haver maior número de estudantes a morar com a respectiva família. Também o habitat estudantil era diferente. Em Coimbra concentrava-se nas repúblicas em casas com muitos estudantes hóspedes, situadas quase todas paredes meias com a Universidade ou, de todo o modo, dada a dimensão da cidade, próximas umas das outras. Além do forte convívio intra-faculdade era notório outro. Não havia estudante que não se relacionasse proximamente com elementos de outras faculdades (e, mesmo se anedótico, as faculdades de Direito e de Letras estavam lado a lado possibilitando ao universo quase exclusivamente masculino da primeira um encontro intenso com outro maioritariamente feminino...).

Finalmente, a crise de Coimbra foi despoletada pela luta contra as comissões administrativas, pela restauração da autonomia da AAC, entidade prestigiada e nunca posta em causa fosse por quem fosse. Atacar isto, menosprezar isto, era atacar a “Academia” que poderia não ser uma força ofensiva muito grande mas que o era seguramente enquanto elemento reactivo.

Vê-se, quero crer que naquele ano de 69 estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para, à mínima chispa, deflagrar um conflito.

Tenho por seguro que, nada teria acontecido, pelo menos naquele ano, se um Presidente da República autoritário, velho e mal aconselhado, tivesse dado ao Presidente da Associação Académica ocasião para falar. Não deu. As autoridades debandaram da sala onde se procedia à inauguração do edifício das Matemáticas, sem aviso nem explicação. A estudantada apupou-os dentro e fora da sala. Enquanto a comitiva oficial se escafedia, a “malta”, a “Academia” ria-se, divertia-se e celebrava aquela manifestação propiciada pela impudência, pela imprudência e pela estupidez.

Tudo poderia, ainda, ter ficado por aí, não fora a Polícia ter pela calada da noite, prendido o Presidente da AAC e num que noutro local sovado alguns escassos estudantes. Não foi preciso mais para uma assembleia (“Magna”) ser convocada. Para que a Academia se sentisse e declarasse ofendida. O que poderia ter sido uma manifestação sem grandes consequências tornou-se um turbilhão. O inábil, mas presunçoso, Ministro da Educação entendeu na hora nobre da televisão vir ameaçar os estudantes, comina-los ao regresso ao estudo, ao sossego e às aulas. E ameaçar os mais renitentes. O homem era um incendiário que se desconhecia!

A partir daqui, foi tudo a descer... Ninguém, nenhum de nós, ousara. Alguma vez pensar, que iríamos ser actores daquela tragicomédia. E muito menos vir a fazer a única greve académica vitoriosa. O que começara como um “venticello” acabou em três meses por ser um “colpo di canonne, un tremuoto... un tumulto generale”.

Acho, 49 anos depois, que ainda temos boas razões para comemorar a nossa “juventude divino tesoro”, os nossos amigos, os nossos (e já são muitos, demasiados) mortos.

Com os anos que levo e que me pesam, não me sinto particularmente vitorioso mesmo se nunca voltei a cara a um combate (e perdi tantos...). todavia, ao contrário do herói de John Osborne, não “olho para trás angustiadamente”.

 

Citando de memória (eventualmente traidora) uma frase de um personagem

do Falstaff (no genial filme de Orson Welles, Badaladas da meia noite):”Jesus, Jesus as coisas a que assistimos!”

* Vai este folhetim para os rapazes e raparigas do meu tempo, estejam onde estiverem, pensem o que pensarem. O que se fez em conjunto está feito e nada, agora, o pode modificar.