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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

25
Abr18

Au bonheur des dames 451

d'oliveira

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Tão novos que nós éramos...

 

 

mcr 25.4.18

Bem, novos, novos ,nem tanto. Eu já ia nos 33 mesmo se, em tempos de negrume e angustia, de solidão e prisões, a idade adulta tardasse (de certo modo) a chegar. O Estado Novo mantinha-nos a todos, portugueses, numa espécie de adolescência política retardada.

Por muito democratas que nos sentíssemos a falta real de democracia, ou mais simples e fortemente, de liberdade, não nos permitia senão uma nebulosa antevisão do que era a vida para lá dos Pirenéus ( e, já agora, para cá dos Urais que, no “paraíso” das “soberanias limitadas”, ser livre soava a sarcasmo da História).

Viver em liberdade, em democracia, exige também algum treino, alguma percepçãoo dos limites próprios, uma ideia clara de compromisso, pesar continuamente os avanços e recuos da nossa intervenção na vida da cidade e do país. E, em certos casos, como já sucedia na CEE, uma aproximação mais lata e mais integradora ao que se queria como destino comum.

De todo o modo, a sede de liberdade não passa nem com uma catarata inteira do Niagara, mas apenas com um simples fio de água livremente nascida, livremente bebida.

O 25 A é o corolário de uma série de acções que nos anos sessenta se foram sucedendo, acumulando, nem sempre no mesmo sentido . Não deixa de ser irónico que a mesma tropa que trouxera o 28 de Maio, uma passeata tranquila e festiva entre Braga e Lisboa (a que não eram estranhos os ecos de uma desastrosa guerra e de uma não menos desvairada 1ª República, dezasseis anos de permanente ruído e furor, viesse, na consequência de uma outra guerra de desgaste, a desaguar no Lrgo do Carmo. A “ordem” que os de Maio de 26 consideravam essencial não era exactamente a “desordem” que precipitadamente alguns pensaram depois de Abril.

Todavia, alguns paralelismos há na evolução dos regimes nascidos à sombra das armas. O Estado Novo só estabilizou verdadeiramente depois de 1933 e o regime democrático levou tantos ou mais anos a converter o país em algo de “normal” e vivível.

Andam por aí criaturas a bramir contra o que chamam de “esquecimento” das conquistas de Abril” enquanto outras, com menor acesso aos meios de comunicação social, relembram os “bons velhos tempos” de antes, a tranquilidade, a aparente falta de crimes públicos e de corrupção, a patriarcal mão do Poder a defender os incautos súbditos dos males de pensar pela própria cabeça.

Todavia, entre o “antes” e o “depois” uma pequena e vitl diferença existe. Agora, pense-se o que se pensar nada nos está proibido, ninguém nos persegue por discordar.

Só isso, na aparência tão insignificante, chega (e sobra) para festejarmos.

E para, no meu caso, lembrar com comoção e ternura, três testemunhas e companheiros da jornada 24/25 de Abril: Alcinda e Jorge Delgado e Rui Feijó. Eles acreditaram antes, arriscaram antes e viveram intensamente o dia para que, também, tinham, afinal, contribuído.

Esta é uma pequeníssima prova de que a Democracia e a Liberdade se fazem sobretudo do esforço de muitos, muitíssimos, anónimos.