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Incursões

Instância de Retemperação.

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23
Mai18

au bonheur des dames 453

d'oliveira

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Todos os dias alguém morre.

Todavia, há mortos e mortos.

mcr, 23.05.2018

 

Júlio Pomar, 92 anos, muito (e bem) vividos, é já uma imensa saudade. Eu, admirador confesso seu, passei anos, décadas, à espera de uma oportunidade para comprar uma peça que me agradasse e que estivesse ao alcance da minha minguada bolsa. Mesmo fazendo sacrifícios, claro, que foi o que fiz para quase todos os objectos de arte que me enchem a casa.

Porém, nunca lhe cheguei. Se fosse um desses colecionadores do costume, desses que só querem ter o artista lá em casa sem cuidarem do seu gosto pessoal mas apenas da perversa fama de amadores de pintura, poderia eventualmente ter comprado alguma peça, quanto mais não fosse um múltiplo. Mas nem isso. Devo ter gostos caros, pelo menos caros para os meus rendimentos. Vi muitos, óptimos quadros de Pomar mas, logo que os lobrigava, a dúvida instalava-se: será desta? Não era. Nunca foi.

Talvez por atávico horror a comprar a crédito, a prestações, nunca tive qualquer hipótese!

Certa vez, num regresso de Paris, tive como companheiro de viajem um “marchand” vagamente conhecido. A criatura trazia na mão um rolo enorme. Sabendo que eu, na época, trabalhava para o Secretaria de Estado da Cultura, confidenciou-me que vinha ali, cautelosamente enrolado um magote de “Pomares”. “E o preço?”, perguntei-lhe, prometendo com tal pergunta calar-me perante a alfândega que nos aguardava. “Ai vai ter de ser compatível com o risco que corro... mas a si, por consideração posso fazer um desconto...”

Não sei porquê, ou aliás sei, a coisa não me cheirou bem e nunca fui pelo negócio. Ou pela negociata. Trinta anos depois, não me arrependo. Ou arrependo-me durante cinco minutos e deixo de me arrepender por mais uma longa temporada. Trabalhar na SEC tinha, para mim, algumas limitações. Por exemplo, nunca comprei pintura no “atelier” do artista mas só na galeria que o expunha. Isso significava um acréscimo de preço na ordem dos 30% (Hoje é o dobro!!!). Custa muito manter a fama de honradez. Ou de estupidez, como várias vezes me disseram. Que querem? Burro velho não aprende línguas nem enriquece.

Com a morte, anunciada aliás, de Júlio Pomar fecha-se o último ciclo de alguma pintura aparentada, mesmo que só por um escasso período de tempo, com o neo-realismo. Pomar nunca se deixou aprisionar por escolas e menos ainda por ideologias. Reinventou-se constantemente mesmo se, com o tempo e com paciência, possamos descortinar um caminho claro na sua pintura. E uma enorme alegria, um amor pela vida e um conhecimento profundo pela história da pintura. Nunca envelheceu. Ou melhor: envelheceu como os bons vinhos.

 

* Na gravura: Pomar no "metro" de Lisboa. Ou a grande arte pública para todo o público.