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Incursões

Instância de Retemperação.

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13
Jun18

Au bonheur des dames 454

d'oliveira

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Lá se foi Bourdain...

mcr, 13, 6, 2018

A inesperada morte de Anthony Bourdain (aliás suicídio) causou uma certa comoçãoo por todo o lado. Estrela televisiva, enquanto crítico gastronómico, AB conseguia trazer para a ribalta do pequeno ecrã, as gentes simples, de todo o lado juntamente com grandes estrelas do Michein e análogas distinções.

Ao contrário de outros (e recordo uma série de franceses, sempre eles, que continuamente

Viajavam pela França em busca de uma receita, de um “chef” original, de agricultores conhecidos pelos seus produtos de excelência) AB privilegiava os encontros de acaso, aquilo que, agora (ai a moda...) se resolveu chamar “street food”, expressão que oculta realidades muito distintas desde a “petisqueira” até às habituais refeições rápidas que alimentam centenas de milhares de pessoas que por quase todo o lado trabalham arduamente sem tempo para ir a um restaurante, sequer a uma cantina.

A primeira vez que me deparei com esse tipo de alimentação foi (há quantos séculos?...) em Berlin (na altura Berlin Ocidental, com cheiro a revolução jovem, ecos de Rudy Dutschke e a sombra anunciada e paralela da imprensa “Springer” e da “Rote Armee Fraktion” (ou grupo Baader-Meinhof que mesmo sem qualquer verdadeiro entrosamento social, deixaram na Alemanha Federal um rasto sinistro): havia por todo o lado umas pequenas carrinhas que serviam uma salsicha com molho de caril (curry wurst) e batatas fritas. O nome dquelas pequenas geringonças era “schnell Imbiss”, na prática “comida rápida”. Mais tarde, deparei-me com coisas idênticas na Holanda onde o forte era o peixe ou na Itália onde , esquina sim, esquina não, se compravam fatias às vezes generosas de pizza.

No domínio da petisqueira, era a Espanha a campeã. Vezes sem conta em Madrid mas sobretudo em Salamanca (entre a plaza mayor e a do mercado) jantei ou almocei “tapas” variadas e maravilhosas por preço módico a que acrescia um copo de vinho ou uma cerveja bem tirada.

Claro que, em havendo tempo (e mais dinheiro) a minha preferência recaía num restaurante (como no?) coisa que nas terras espanholas há em abundância e a a todos os preços.

Talvez por isso, sempre fui bom espectador de programas culinários fosse em que língua fosse desde que eu, mesmo vagamente, a entendesse. A maior parte dos cozinheiros, curiosos, gastrónomos, que aparecia, conseguia criar empatia com os espectadores, ou então era eu que, comilão e guloso (bons tempos...) me satisfazia com pouco.

Todavia, e voltamos à “vaca fria”, o meu primeiro encontro com Bourdain não foi pela comida. De facto, o diabo do homem, tinha outros talentos escondidos, o menor dos quais não seria uma escrita desenvolta e imaginativa.

Realmente, ainda andarão por aí exemplares de dois romances policiais, curiosos, bem escritos e inteligentes, da autoria de AB. São eles “U osso na garganta” e “sarilhos nas Caraíbas” ambos de uma editora quase desaparecida, a “Ambar”. No primeiro ainda há um jovem cozinheiro, quase o herói da trama. Já no segundo, mesmo se o mesmo jovem ainda apareça, não é ele a principal personagem.

Bourdain escreveu também “memórias” e livros de cozinha, fruto da sua experiência como “chef” em alguns restaurantes de nomeada de Nova Iorque. Porém, quando tive a sorte de lá passar por essa fabulosa cidade, ainda não sabia dele. E, provavelmente, não teria dinheiro (e provavelmente oportunidade, dado o sistema de marcações complicado nos restaurantes de luxo ou simplesmente na moda) para provar algum dos seus cozinhados. De todo o modo, deixa um vazio, amargo e pouco explicado.

Não sei exactamente porquê, mas o acompanhamento dos seus programas permitiu-me conhecer um pouco melhor povos e culturas, cidades que nunca percorri. O homem tinha humor, elegância, saber, cultura e praguejava que nem um carroceiro. Mas até isso, nele, era simpático, pelo menos para um “pobre homem” de Buarcos, terra de pescadores, mar e bom peixe.

RIP

* na gravura "caldeirada à pescador" versão da Figueira da Foz