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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

17
Ago18

Au bonheur des dames 457

d'oliveira

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Agora é ainda uma lenda maior

mcr 17 agosto 2018

 

Num campo de golf, eventualmente em Lourenço Marques, anos 50, terei lido uma legenda que –se bem me lembro – dizia: “os velhos jogadores de golf não morrem. Simplesmente foram à procura de uma bola perdida.”

Aretha Franklin, essa mulher extraordinária, também não morreu. Mudou-se apenas para o coro de uma igreja maior onde o pai e o dr Luther King já estavam. Também já la estavam Mahalia a grande, Bssie, the Empress, ou Otis o criador de “Respect”. E muitos outros, tantos, tantos que é impossível enumerar. Mas que continuamos a ouvir maravilhados, graças aos LP ao CD às pen e a outros meios de reproduzir/ouvir música, a imortal música negra americana, honra e glória de um país que nem cem Trumps conseguem destruir.

Tenho ideia, remota é certo, mas muito precisa, de uma conversa em que, além da então minha namorada, Maria João, participava um querido amigo, José Quitério. A João cantava bem mas aldrabava as letras. De todo o modo, nós pedíamos-lhe sempre o “Amazing Grace” e ela risonha, generosa (e lindíssima!... ) lá desencantava a primeira estrofe antes de acabar rindo-se por não saber a continuação. Foi num desses dias (estaríamos em 65, 66 ou 67, sei lá...) ao falar-se de cantores que nos diziam qualquer coisa o Zé, na altura dirigente da secção de Jazz da AAC, nos largou: “Grande, extraordinária, é Aretha!” Esta Aretha ainda era por cá quase uma desconhecida mas o Zé já a tinha sintonizado, fina orelha que ele era. Eu calei-me por pura ignorância mas a João fez um quase esgar de desdém, ela era muito Pete Seeger, Joan Baez ou Nina Simone. Mas o Zé não se impressionou e decretou com o seu conhecido vozeirão e a sua cabeçuda convicção que era mesmo assim. Aretha era a rainha.

Resolvi começar a prestar-lhe atenção e agora, tantos anos passados, só de a lembrar, comovo-me. E comovo-me quando a oiço, trago-a numa pen no carro, aliás em várias pen. Em gostando de algo, encho as pen com isso, seja Mozart, Bach, Elligton, Dizzie, um par de franceses, outro tanto de espanhóis e por aí fora. Meto-me no carro, arranco e aí vai disto, a pen de serviço mais cedo ou mais tarde há de reproduzir um disco da Franklin.

Dizem, hoje, os jornais que ela faleceu. Morreu nada... Aquela voz, aquela maneira de cantar, aquelas canções não morrem nunca. É como o frére Jacques ou o “Barbeiro de Sevilha”: aquilo vive, respira e está cá para sempre. Como Bach ou Mozart.

A música é um pouco como a pintura: não conhece fronteiras, basta termos olhos ou ouvidos. Hokusai ou Fra Angelico, Vermeer ou Goya passam as fronteiras a salto nada os detém.

Nada deteve Aretha, mulher, negra, música, chama soul. Nada! Parece que Obama terá dito que quando ela canta a história americana jorra. Engano, ligeiro engano, querido Presidente: quando aretha canta é a história do mundo que jorra.