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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

07
Set18

au bonheur des dames 459

d'oliveira

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Cheira a eleições que tresanda!

mcr 7.9.18

Durante quatro penosos meses estive impedido de conduzir. Culpa minha, claro. Ia demasiado depressa numa auto-estrada demasiado vazia (A-17 e A-8, ou seja entre Aveiro e as Caldas da Rainha, um projecto mirabolante dos desvairados governos que tivemos de suportar: muito betão para quase nenhuma circulação). Paguei uma multa choruda, inibido de conduzir durante quatro meses e fiquei em “probation” durante cinco anos que provavelmente ainda não se concluíram.

Como vou todos os meses a Oeiras visitar a minha mãe e como a pena apanhou o mês de Agosto isso significou não só viagens de comboio Porto/Lisboa e Cais do Sodré/Oeiras. Nos dias de estadia lá fazia duas viagens Oeiras/ Lisboa e usava o metro lisboeta com bastante frequência.

Nesse tempo, as viagens entre o Porto e Lisboa no Alfa pendular ainda tinham ar condicionado, coisa que, pelos vistos, agora é ocasional. Também a linha de Cascais ainda tinha um número razoável de comboios, coisa que, entretanto se reduziu muito significativamente.

Nada disto continua hoje. Há menos e piores comboios quer nas linhas nacionais quer nas de proximidade. O conforto que nunca foi especialmente interessante nas segundas diminuiu drasticamente. Menos comboios suburbanos, significa mais comboios atulhados o que em percursos médios ou longos é penoso.

Números cada vez mais aterradores surgem diariamente: o Estado tem imperativamente de aplicar 1300 milhões de euros nos próximos dois ou três anos não só para pagar parte da dívida mas também para manutenção da frota ferroviária existente, para melhoramento de algumas linhas (a do Oeste está num estado comatoso, a do Sul e Sueste não parece especialmente melhor e o resto não parece gozar de grande saúde). Os leitores talvez não conheçam a linha do Oeste (Figueira - Leiria- Marinha Grande- Caldas da Rainha- Lisboa) mas a simples descrição do seu percurso mostra quão vital ela é. É ou era porque em certos troços raramente circulam comboios, a electrificção é mais que parcial, a via está num estado descoroçoante como se aquilo fosse interior profundo e desabitado. No Algarve, no Alentejo, no Douro, no Minho o retrato só peca por ser semelhante.

É neste cenário de vil tristeza que se ouve uma criatura da Administração da CP (algum afilhado?) dizer que as coisas não são assim tão más; que as cativações são de pouca monta ou insignificantes, que agora é que vai ser. Ao mesmo tempo anuncia o aluguer de comboios (provavelmente velhos e a necessitar de grandes reparações antes de serem usados nesta selva obscura e bananeira) e por aí fora. O espectáculo da sua audição no Parlamento foi tão penoso quanto o martírio de uma viagem Figueira Lisboa (se alguém a conseguir fazer em menos de cinco ou seis horas!...).

Ao mesmo tempo, o sr. presidente da C. M. Lisboa disparou um tiro de pólvora seca que, jura ele, não é eleitoralista: baixa generalizada dos preços dos passes na região. E também no Porto, já agora para ver se o dr. Rui Moreira não refilava. O sr. presidente da C. M. de Gaia veio pressuroso afirmar que o embaratecimento dos passes tinha inclusivamente vantagens ecológicas e que tal benefício superava financeiramente, e em muito, o custo acrescido para o Orçamento! Isto assim, a secas, sem um estudo, um calculozinho, mesmo mental, sobre a verdade de tal economia.

Em tempos, longínquos, li um romance romeno (falha-me de momento o autor) onde jovens pioneiros ouvem um responsável político falar-lhes de um futuro ridente de prodigioso sucesso ecológico, económico, humano ético de uma qualquer medida de um qualquer plano eventualmente quinquenal. Em Portugal, país notoriamente mais modesto mas igualmente propenso a ver futuros risonhos no meio de um espesso nevoeiro de onde emergirá D Sebastião, passa-se o mesmo.

Agora é que é/

ó louro dá cá o pé...

Arraial, arraial/

tudo por Portugal...

Obviamente o resto do país, mesmo abananado, uivou de indignação. Então nós, os Braga, de Viseu, de Coimbra, de Évora ou de Faro vamos pagar as passeatas dos de Lisboa e Porto?

Em poucas horas, quiçá um dia, um senhor ministro, mais avisado e prudente, veio deitar água na fervura: calma, malta, aguentem os cavalos! A medida sobre os passes já está a ser estudada e há muito (e nós que não sabíamos nada!!!) pelo carinhoso Governo que vos apascenta e a haver baixa de preços é para todos, mesmo para o povo de Barrancos. Claro que, agora já não são 65 milhões mas quase o dobro.

É bem verdade que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são as que registam maior deslocação de (e para ) o emprego. Mas também é verdade que é aqui que está a maior fatia de riqueza nacional, local e individual, a maior fatia de oportunidades, os melhores cuidados de saúde e os melhores estabelecimentos educativos. Razões mais que sobradas para não esquecer o resto da maralha, os pacóvios, os provincianos, o povinho...

Ocorre-me, porém, uma pergunta impertinente: será que mais transportes, e mais baratos, diminuirão significativamente o acesso de automóveis ao centro? Será que essas dezenas de milhares de viaturas normalmente com um único ocupante serão deixadas na garagem (onde a há...) e preteridas pelos transportes públicos?

Em Portugal, país notoriamente menos rico do que congéneres na Europa, há carros para quase toda a gente. Bons, medíocres, maus, usados, muito ou pouco, mas a verdade é que o parque automóvel é gigantesco. Passe-se por qualquer bairro social para se perceber que há, pelo menos, um carro por habitação. Como país pobre (repete-se) o carro é ainda uma marca de prestígio a que ninguém fica indiferente, mesmo se isso significa despesa incomportável ou, pelo menos, dispensável face a outras necessidades. Será que o autarca de Gaia ainda não percebeu esta realidade?

Sou favorável a uma melhoria no sistema de transportes públicos sejam eles a ferrovia, o metro ou os autocarros urbanos e intermunicipais. Há é que definir claramente prioridades e, em terra em que escasseia pão, talvez seja melhor atacar não o mais fácil mas exactamente o mais difícil, a ferrovia sobretudo se nos lembrarmos que o transporte de mercadorias é estratégico. E nisso há também que pensar na bitola de molde a não nos isolarmos ainda mais da Europa. Até a Espanha já o percebeu e agiu em conformidade. Todas as suas grandes linhas estão já com bitola europeia. E as restantes estão electrificadas. Por isso podem dar-se ao luxo (e apreciável ganho...) de nos alugar comboios que provavelmente já estavam a caminho da reforma...

Eu nada tenho contra o dr.. Medina, egrégio autarca de Lisboa e presumível candidato a um destino nacional. Ele pode pedir o que quiser depois a bola é dos outros (aliás dos pagantes, isto é nossa). Agora o cavalheiro de Gaia (uma galinha pedrês que sonha ser águia...) é que um caso de maior dificuldade interpretativa. Quererá passar a ponte, logo que o dr. Moreira deixe de poder candidatar-se? Não seria a primeira vez que se via um autarca da outra margem ser tentado pelo poleiro da “Invicta”.

De todo o modo, a procissão de promessas e propostas ainda vai no adro. Há que dar tempo ao tempo. E à fantasia mesmo se absolutamente tresloucada.

 

 

(em tempo: ainda estas linhas não tinham metaforicamente cegado e mais um ministro veio anunciar 168 milhões para a compra de 20 (?) comboios à Espanha. Comboios em 2ª mão, claro e não eléctricos. Parece que demorarão 5 anos a estarem operacionais! Forte consolo! Todavia, o anúncio serve para a época eleitoral. Está bem tudo o que acaba bem, afinal. E ponto final.)