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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 461

d'oliveira, 12.10.18

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No Chiado, pelo fim da manhã

(indignado...)

mcr 8-10-18

 

Venho da rua do Alecrim, melhor dizendo da livraria Trindade. A livreira gentil que me atendeu estava desolada. Acabara de receber uma notificação do senhorio: tem um ano (oh generosidade, e isto não é ironia, normalmente dão umas semanas, dois ou três meses para arrumar a trouxa e desandar) para procurar outro canto para viver.

Estava na casa que inda é dela há muitos anos. E pagava uma renda actualizada recentemente. Todavia, a pressão turística, a miragem de lucros “à- Robles” (esse mesmo, o defensor do direito à habitação, o cavalheiro que na ânsia de servir melhor os interesses dos munícipes comprara um prédio velho e o dividira em onze apartamentos T/0 para poder seguramente beneficiar onze famílias. Como não terão aparecido decidiu vender o imóvel por uns milhõezitos de euros, coisa pouca, para quem arriscara quase 300.000 euros...).

É verdade que o senhor Robles já não é vereador, eventualmente já não tem cargos dirigentes no grupo justiceiro de onde surdira, quiçá nem militante já é... , entretanto, o mesmíssimo grupo que assobiara para o lado durante as aventuras de compra e venda e restauro do imóvel, apareceu de novo com mais um projecto de taxar senhorios, vendedores e compradores (ou vice versa) para salvar a cidade do capitalismo turístico e invasor. Nisto de taxas, o BE não é peco. Digamos que leva a sério a herança do slogan “os ricos que paguem a crise”, o que só lhe fica bem: os bons filhos aos pais se assemelham.

 

No entanto, não posso deixar de me indignar com as tropelias que alguns (muitos, talvez, mas sempre uma minoria) senhorios actualmente cometem. E com a aparente bonomia de responsáveis, de autoridades que vêm o centro das cidades desertificar-se, perder as suas pequenas lojas tradicionais (exactamente na zona do Chiado já fecharam cinco livrarias, há mais três ameaçadas, isto sem contar com outros modestos negócios que davam carácter e verdade à zona.

Sei perfeitamente (também sou senhorio) que durante décadas, mais de meio século, os arrendamentos urbanos estiveram submetidos a regras rígidas que em boa verdade desgraçaram muitos proprietários e nem sempre ajudaram inquilinos necessitados. Nos anos setenta, era comum ver rendas inferiores ao que o inquilino gastava em telefone. Isso conduziu a distorções dramáticas que, em muitos casos tiveram um resultado péssimo. Uma vez desocupado o andar ou prédio, o senhorio não o voltava a alugar ou então pedia preços inacreditáveis. Paralelamente, o parque urbano habitacional degradou-se anormalmente e ainda hoje se verificam tais efeitos.

Com a rarefacção do mercado de arrendamento, verificou-se, em Portugal, uma corrida à compra de 1ª habitação e ao extraordinário endividamento das famílias (que ainda continua). Os inquilinos remanescentes perante o novo e alvoroçado afluxo de turistas e de alugueres de curta duração, estão sem defesa (ou com escassa defesa) contra os atropelos de proprietários.

Mesmo as regras que protegem inquilinoss idosos (mas que não protegem imuitos com vinte, trinta anos de aluguer caso não tenham 65 ou mais anos) atiram para os senhorios e não para o Estado (através de subsidiação das rendas aos cidadãos de baixos recursos) o ónus gravoso da propriedade sem (ou com escasso) rendimento.

Os “robles” & assimilados se na verdade quisessem proteger os cidadãos mais frágeis e o direito à habitação proporiam uma medida que de facto os protegesse e (pela concorrência) atenuasse a cupidez de senhorios. Os altos preços só são pedidos por o mercado do arrendamento estar rarefeito. Compete ao Estado criar habitação a preços controlados ou, na sua eventual falta, subsídios de habitação.

Tentar transferir para todos os senhorios (ricos ou pobres, individuais ou fundos de investimento) a responsabilidade social é um atropelo e nunca resolverá os problemas de quem é pobre e ignora os seus mais elementares direitos ou é frágil e não consegue defender-se das mil e uma formas de o desalojar.

Os auto-proclamados salvadores do povo não propõem soluções mas remendos. E estes, como é sabido, cedem pelas costuras...

 

Milhares de estudantes nas (provavelmente em todas) maiores cidades universitárias não conseguem alojamento digno, sequer sofrível, a preços justos ou, pelo menos não demasiado caros. Faltam residências universitárias e as promessas que vão sendo feitas atiram para daqui a três ou mais anos uma oferta de todos os modos escassa.

As Associações de Estudantes protestam, os senhores Reitores queixam-se, as famílias pagam e muitos estudantes desistem.

É evidente que a Universidade tem outros problemas igualmente importantes mas este atinge, como de costume, o elo mais fraco da cadeia de ensino.

Custa, pois, ver que numa gritante e estúpida maioria, se veja ruidosos cortejos de “estudantes” mascarados de capa e batina mal enjorcada, a passearem grupos de caloiros confusos, assustados, envergonhados ou desprotegidos que mais parecem rebanhos conduzidos por pastores brutos e imbecis (e brutos e imbecis são palavras meigas para aplicar aos cretinos e cretinas que por estarem na universidade há mais anos se arrogam o direito de dar este triste espectáculo).

A pontos de se poder dizer, quase sem receio de nos enganarmos, que qualquer estudante, macho ou fêmea de capa e batina, a ladrar ordens estúpidas ou insultos grosseiros a miúdos que acabam de chegar à universidade, que estamos perante uma demonstração de alarvidades, de canalhice e de proto-fascismo. Proto-fascismo, disse e repito. Mas isso incomoda pouco ou apenas ao de leve os profissionais da indignação que olham para o lado ou condenam com um leve sorriso. Ninguém quer pôr-se contra “ a Academia” nem ouvir as vaias de um grupo de raparigotas e rapazolas mal educados, mal formados mas perigosos.

Já não bastavam os tristíssimos cortejos das “queimas das fitas” que mal começam já trazem todos os festejantes bêbados como cachos, como se a regra de entrada na sociedade dos licenciados fosse a bebedeira, o alarido, o vómito avinhado e a graçola anormal.

O mais extraordinário é que tudo isto tenta imitar Coimbra sem sequer perceber que essa Coimbra, anulou em 1969, por “decretum” do Conselho de Veteranos todas as praxes de rua mormente as violentas (rapanço, unhas, etc...). Depois, e depois do 25 A, sublinhe-se, voltou a aparecer o imoderado uso da praxe mesmo se grande parte da violência física tenha definitivamente (e bem, muito bem) morrido. A igualdade de sexos trouxe as raparigas à praxe o que diz muito e mal da igualdade a custo conseguida. Agora “doutoras” e “caloiras” entram na roda da imbecilidade e do vexame sem perceberem o que isso tem de degradante.

Vi, há dias, nesse Chiado que evoco no título deste folhetim, uma matilha de estudantes “capa-abatinados” a conduzir um pobre grupo de caloiros e caloiras que cantavam uma qualquer burrice perante turistas espantados e portugueses eventualmente envergonhados.

Ora, em Lisboa e as restantes velhas e novas universidades, a capa e batina não se usava ou era motivo de espanto. Mesmo em Coimbra, a partir dos anos sessenta o uso do traje estudantil foi estiolando e só reaparecia com algum vigor durante a época da Queima ou das “latadas”. A própria batina (uma espécie de sobre-casaca) já era uma adaptação do antigo traje académico muito mais talar. O barrete caira em completo desuso e em toda a minha vida de estudante terei visto um, máxime dois. Quando me formei já era minoritário o costume de ir para o último exame de capa e batina. O “rasganço” era quase só uma vaga recordação. Mesmo na Faculdade de Direito bastião conservador e ninho de estudantes conservadores.

Agora, a capa e batina, o tal antigo “trajo democrático” que elidia as eventuais diferenças de berço e de fortuna do pequeno grupo que frequentava a Universidade (ideia ridícula pois todos vinham da elite...) é algo de caro enquanto os jeans e uma camisa ou camisola são, por excelência, elementos unificadores e muito mais baratos.

Ao alojamento caro, junta-se essa despesa quase sumptuária da capa e batina que, hoje só diferencia quem vai à Universidade de quem não vai (a elite, sempre ela...). E que, só se usa no início do ano escolar para chatear os caloiros e nas festas da queima. Como respeito pela inexistente tradição da esmagadora maioria das universidades é tão risível como a garraiada que pouco a pouco vai desaparecendo do programa da Queima.

Foi no Chiado, num dia de sol e calor, de turistas que nem sabem que contribuem para a rarefacção da habitação numa cidade barata para eles mas cara para estudantes e habitantes.

 

 * na gravura: estudante de Coimbra (sec XIX)