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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

16
Out18

au bonheur des dames 462

d'oliveira

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Evidências...

mcr 16.10.18 

O Sr. Professor Azeredo Lopes já era. Aqui, muito à puridade, há meses, desde o fatídico dia do roubo de Tancos, que o senhor deveria ter feito a trouxa e regressado a penates.

Todavia, S.ª Ex.ª nunca percebeu, apesar da fama de inteligência de que goza, o que é costume chamar-se “responsabilidade política”. Pior, mesmo inteligentíssimo, andou dias, semanas, meses, a bolsar tolices sobre o caso, a fugir com o dito cujo à seringa, tornando-se uma figura anedótica no Governo. Parece que nunca o percebeu e que o Sr. Primeiro Ministro também não. Bizarrias!...

Quem parece também não ter percebido nada disto foi o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros: o Sr. Professor Santos Silva acha que esta demissão, quando já tudo estava perdido, “enobrece” o seu amigo e colega. Das duas uma: ou o Sr. Ministro Silva não sabe o que significa a palavra nobre e o verbo dela derivado “enobrecer” ou anda a “chuchar com a maralha”. Será que pensa que somos uma caterva de idiotas, só úteis no momento do voto, ou julgará, do alto de uma incomensurável e deslocada prosápia, que nos atira areia para os olhos?

A esfarrapada desculpa do doutor Azeredo Lopes ( a defesa da dignidade das forças armadas) roça o insultuoso. Ainda por cima foram elementos das FA que traficaram a verdade, que esconderam a verdade (as altas chefias do Estado Maior, cujo actual vice-chefe foi chefe de gabinete, recebeu um memorando e o guardou até há dias quando foi obrigado a entrega-lo!...; os dirigentes da PJM que, mesmo sob a alçada do Ministro, não deixam de ser oficiais superiores, um coronel e um major...) Tudo isto é patético, pateta, supinamente estúpido. Basta este leque de ramalhudas personalidades para deitar abaixo qualquer prestígio que existisse. Vão ser precisos anos para se extinguir o riso (e a vergonha) que um caso ridículo como este suscita. Leiam, senhores leitores, o que a imprensa internacional relatou. Leiam e meditem. Não peço aos senhores generais, aos senhores que foram condecorados, aos senhores que esconderam este lixo debaixo do tapete, que leiam eles também. É que ponho em dúvida que saibam ler, ou sabendo-o, que saibam perceber a enormidade deste episódio de faca e alguidar.

A demissão nada teve de nobre, sequer de convincente, tratou-se de um naufrágio numa banheira de água doce sem qualquer laivo de história trágico-marítima. E veio com um atraso maior do que os actuais comboios da CP (isto quando circulam o que quase só é a excepção e não a regra).

 

O mundo cultural entrou em polvorosa com o “estranho caso de Serralves” (título que respigo hoje do jornal). Ninguém percebe como é que o sr. Ribas, curador da exposição Maplethorpe se demite. Eu ouvi o presidente da sociedade Maplethorpe, um cavalheiro inglês ou americano, dizer impavidamente que tudo se passara sem atritos nem censuras. Que haver uma sala “reservada” era já um hábito, que o programa de Ribas fora totalmente executado, que a Administração de Serralves agira correctamente sem impor o que quer que fosse. Ouvi os senhores representantes do Estado na Administração dizerem o mesmo. E note-se que os representantes do Estado são independentes do poder financeiro local que vai dando a os lugares a quem entende. Ainda não ouvi o sr. Ribas que mantém o seu surpreendente silêncio já lá vão quase duas semanas.

Isto não pode ser uma novela de Agatha Christie, sequer de Ross Pynn (que afinal era o portuguesíssimo Roussado Pinto, cavalheiro inteligente que percebera que só com nome anglo-saxónico – ainda não estavam na moda os autores do Norte europeu- é que os leitores compravam os livros). A sr.ª dr.ª Ana Pinho, que não conheço de lado nenhum, que porventura jamais conhecerei, já disse que em nada pressionara o sr. Ribas. Porém, alguns alegados “amigos da verdade” insistem em tornar pública a sua incredulidade e, indirectamente, em defender o sr. Ribas do qual, infelizmente, não temos novas nem mandados.

No rescaldo desta novela luso-portuense ficou a saber-se que Serralves recebeu dos cofres públicos no último ano, mais de quatro milhões de euros! E que isso é o normal!! O normal todos os anos!!!

Se nos lembrarmos que Serralves foi comprado pelo Estado, que as obras foram pagas pelo Estado, que grande parte da colecção residente pertence(u) ao Estado, Mirós incluídos, percebe-se porque é que o Estado nomeia dois administradores e, aliás, conviria perguntar qual é a percentagem das entregas do Estado nas receitas globais da Fundação. Eu tenho o maior dos apreços pelo esquema do mecenato privado, conheço inúmeros casos mormente americanos, ingleses e franceses, contribuo regularmente nas campanhas lançadas por museus estrangeiros e nacionais para a compra de peças importante e caras para as quais não há recursos públicos. Já tentei, até agora sem êxito, oferecer a minha biblioteca (mais de vinte mil livros, centenas de primeiras edições, algumas raridades, mais de mil títulos sobre “expansão portuguesa”) a uma Biblioteca. Nem sequer pedia que citassem o meu pobre nome, era o que faltava!, ou que não vendessem os títulos mais comuns e sobrantes para com isso fazer face às despesas de instalação dos restantes. Propus-me mesmo legar, do mesmo modo, cerca de 10.000 discos (LP e CD), uma dúzia de esculturas, quase um cento de pinturas, gravuras e múltiplos, para já não falar de uma colecção de máscaras africanas (e não há assim tantas no domínio público português). Nada! Muito entusiasmo mas nada. Não há espaço. As bibliotecas públicas estão atulhadas, tem pequeníssimos depósitos e, pelos vistos, cada vez menos leitores. De resto conheço várias, que tendo recebido belíssimas colecções as mantem nos caixotes originais sem sequer as classificarem. Bem me dizem os meus amigos alfarrabistas que o melhor será os meus herdeiros dispersarem uma biblioteca amorosamente reunida durante mais de cinquenta anos em leilão. O mesmo me diz o sr. .Keita, um cavalheiro do Mali, dono de uma galeria de arte africana e que está o organizar as colecções dos seus clientes num site e, posteriormente, caso estes queiram, colocá-las em mercados americanos e/ou mundiais. De resto, os americanos compram mensalmente dezenas de livros editados em Portugal desde que toquem expansão africana, colónias, mapas e atlas portugueses e por aí fora. O indigenato local e quem o representa não vê este êxodo de boas publicações só se lembra de obras de arte que muitas vezes nem na segunda divisão mundial alinham. Aí é um alarido de críticos, curadores, conservadores e outros falsos tenores que apontam os dedinhos acusadores ao Governo.

 

Em boa verdade, O Governo é , como sempre, quem tem todas as culpas. Ainda há uma semana umas centenas de artistas (ou de criaturas que se apresentam como tal...) apresentou ao sr. Primeiro Ministro um abaixo-assinado denunciando o facto nefando de o Estado, os Museus, as autarquias e o resto das entidades públicas, dependentes dos dinheiros públicos (que todos nós pagamos convém lembrar), não comprar ou não adquirir, na quantidade suficiente, os fulgurantes frutos do seu trabalho.

Note-se que nem sequer se dignaram passar pelo “Ministério” da Cultura onde pontificava até domingo um senhor embaixador e poeta (ou vice-versa) que – como a sua produção literária – obrava com a máxima discrição.

Eu não sei se o sr. ministro em causa se demitiu ou se o demitiram. Por mim, bastaria essa desatenção das massas supostamente artísticas e o seu recebimento por qualquer criatura da presidência do Conselho de Ministros para imediatamente fazer as malas e, sem olhar para traz, rumar aos antípodas. S.ª Excelência, porventura movido por um exagerado sentido de Estado calou, consentiu e esperou patrioticamente que o corressem do palácio da Ajuda. E jura que foi “muito feliz", naquele ministério ninho de víboras, desencontros, conspiratas e clãs inimigos que se degladiam.

Espero, sem especial fé, que não tenha sido a desfeita levada a cabo pelos vociferantes artistas pedinchões, que fizeram cair o ministro. Que ele não tinha vocação para tal cargo é um facto indesmentível mas isso notou-se logo no primeiro dia. Se culpado há, não é ele mas quem o escolheu. Bem sei que era para substituir um valentão de feira que queria esbofetear meio mundo (é certo de que da ameaça aos factos iria sempre um passo que era difícil de dar. Daí a incredulidade tranquila dos ameaçados e a inveja de muita gente que gostaria de dourar -mesmo vagamente- os seus pergaminhos com uma tão tonitruante como incongruente declaração de guerra).

Voltando à multidão de solicitantes do favor público (que pretenderiam juntar-se a outros ajuntamentos mormente os dos teatro e do cinema) seria bom recordar que a sorte ou o êxito dos artistas plásticos depende essencialmente do público privado, das galerias que os expõem e dos prémios com que brindam os melhores. Estou à vontade para o afirmar pois sempre (ou até me fartar) fui “habitué” de galerias e exposições e, durante anos, comprei arte nesses mesmos sítios. As paredes foram-se enchendo e os preços subiram graças a uma desenfreada especulação alimentada pelos anos de vacas gordas e pela gentinha que à falta de gosto queria comprar para depois vender. Muitas e importantes galerias dedicaram-se a solicitar essa fauna e o resultado viu-se: subiu artificialmente cotação de vários artistas (sem que estes protestassem ou sequer se dessem por achados) e quando a crise –ainda nos anos 90 – chegou tinham desaparecido os pequenos colecionadores enquanto os especuladores iam em busca de outros espólios. Disso ficou um rasto de galerias fechadas, de criadores desamparados, de cotações artísticas esvaziadas. E amargura, muita amargura.

Conviria dizer aos actuais protestários que quem deve ser convencido da sua excelência, do seu génio, da sua implacável novidade, somos nós, o público que durante séculos, aliás sempre, foi quem comprou pintura, fotografia, pequena escultura, livros, foi ao teatro, ópera ao bailado e ao cinema. Por muito que isto possa parecer filisteu...

O Estado e boa parte das instituições estabelecidas jamais apostam na aventura, na novidade, na iconoclastia. Bem pelo contrário: dão a primazia ao académico e ao consagrado. E por vezes ao mau gosto ou, na melhor hipótese, ao gosto requentado. Bater à porta dessa instituição é um exercício fútil. Ou uma íntima convicção de que a nossa obra (a deles...) é cediça. A menos que se pense que, em pré-época eleitoral, o partido no poder compre arte em troca de votos. Cruel engano: os governos querem grandes massas e não umas escassas centenas de “artistas”. Querem nomes consagrados e não génios em botão. Querem artilharia e não tiros de pólvora mais ou menos seca.

 

A semana que passou e que terminou ontem com uma tomada de posse foi, do ponto de vista político, isto. Com um furacão à mistura e a passagem do primeiro aniversário dos fogos de Outubro de 17. Ao que ouvi, não houve ainda uma verdadeira limpeza dos matos e, muito menos, dos rebentos infestantes de eucalipto. Irá haver enquanto é fácil e se vai a tempo? Quanto às empresas arruinadas está ainda muito por fazer ou refazer. E isso significa muitos postos de trabalho no interior. Também os criadores de gado, os donos de colmeias esperam por ajuda. Infelizmente são poucos milhares divididos por cinco distritos com poucos deputados, ou seja que não valem uma aposta. E não se juntam às portas de S Bento nem são notícia nos jornais.

* na gravura: máscara kanaga (povo dogon. Mali)