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Incursões

Instância de Retemperação.

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29
Nov18

Au bonheur des dames 465

d'oliveira

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Antes da revolução:

mcr 26 Nov 2018

1 Bertolucci, Bernardo Bertolucci

 

Vi grande parte dos filmes de Bertolucci com a enorme sorte de, por razões varias, os ter visto pouco depois de estrearem. Claro que isso ocorreu no estrangeiro. No “paraíso triste” a censura diligente impedia tudo e, em contrapartida, suscitava a nossa imensa curiosidade. Recordo, mesmo, que, em Paris, arrastei a minha excelente mãe a um cinema do Quartier Latin onde vimos o “ultimo tango...” A mãe não se mostrou especialmente agastada com as cenas “chocantes” da fita, antes comentou com sabedoria, intuição e inteligência aquela história de duas solidões. Tinha a seu favor décadas de assistência a filmes, muito livro lido, muita vida vivida, ela que nascera durante uma missão militar do meu avô no extremo sul de Angola (Dirico), no fim das “terras do fim do mundo” e que passara os primeiros doze anos da sua vida a correr de uma ponta à outra uma boa fatia do “Império”. Conseguimos, depois, ver uma reposição de “Antes da Revolução” que eu já conhecia. E de novo, declarou que se sentia na sua casa italiana do cinema e, a propósito recordou, num pequeno csalão de chá russo (rue de Buci?), uma série de filmes a começar por “Não há paz entre as oliveiras” e “Arroz Amargo”, dois notabilíssimos filmes e um excelente exemplo do famoso neo-realismo italiano. Ainda hoje, com 96 anos, recorda com precisão (e muitas queixas pela falta de visão e pela surdez) filmes dessas épocas.

Voltemos porém a Bertolucci, um cineasta dos verdadeiramente grandes que ontem morreu. Era da minha idade, colheita de 41 e deixa um rasto luminoso que, provavelmente as novas gerações de cinéfilos não perceberão por absoluta falta dos seus filmes. Um há (“A estratégia da Aranha”) de que só consegui uma cópia foleira via um editor americano Bati durante anos fnacs de vários países à procura de uma cópia decente e nada!

E, todavia, a “estratégia...” é um dos grandes filmes de BB e coloco-o a par de “antes da Revolução” ou de “1900” (“Novecento”). A minha gente, a malta da minha geração que traz as cicatrizes de muita “esperança desesperada”, de muitas lutas solitárias, de muitas desilusões, revia-se (revê-se?) muito naquele cinema alimentado por imperativos políticos e estéticos que se confundiam harmoniosamente e retratavam com ternura, alguma ironia e uma ansia de viver, os anos de brasa que nos foram dados aguentar.

2 Em Setúbal a greve da estiva alastra. E alastra porque cada vez mais parece insuportável (pelo menos para quem trabalha no porto) a infâmia de contratos precários de trabalho” em que mais de uma centena de trabalhadores vivem há anos e anos. Hoje chamam-nos, à tarde despedem-nos, amanhã logo se verá e assim sucessivamente. Os estivadores, infelizmente, não trabalham na funçanata pública nem são grande notícia. Pela primeira vez, nesta minha vida que vai longa, vi a polícia (o Estado) custodiar a preço de oiro, um autocarro cheio de amarelos fura-greves que fartamente pagos conseguiram em dois dias embarcar um quarto dos automóveis que os grevistas embarcariam num único dia. E pagos (os “furas”), diz-se, a peso de oiro! Em Setúbal, cidade icónica do PCP! Em Portugal com um governo dito à esquerda!

Sucedesse isto há quatro anos e Passos Coelho estaria crucificado durante meses..

3 Em Borba uma estrada municipal (desnacionalizada há um punhado de anos) ruiu. Morreram seguramente duas pessoas e não se sabe de mais três. A operação montada nas pedreiras já custou (em oito dias...) tanto ou mais do obras sérias de prevenção daquele estúpido acidente. O senhor dr Costa acha que, à partida, o Estado não tem ali responsabilidades. Aliás nem lá pôs o delicado pé. E as poucas e tardias referências ao acidente foram tragicamente secas. A criatura tem a sensibilidade de um rinoceronte velho.

4 E já que falamos de sensibilidade, a senhora ministra da Cultura andava por Guadalajara feliz e deslumbrada com a falta de jornais portugueses para ler. Resta saber, se acaso leu algum mexicano. Ou inglês, ou chinês ou da Transcaucásia... Ou, já agora, se lê. Livros, prospectos, revistas, porventura a revista “Maria”, porque não? A gente começa a ter saudades de Castro Mendes, e se isto, esta novela exótica, perdurar daqui a pouco está por aí meio mundo a gritar pelo regresso de João Soares o justiceiro dos bofetões.

A

Ah como a vida (e as pessoas) era interessante antes da revolução! (citação de memória do filme "prima della rivoluzione")

* a ilustração: este quadro serviu de ilustração ao filme 1900 e foi mesmo o seu cartaz