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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

12
Dez18

Au bonheur des dames 466

d'oliveira

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Não é com alegria que registo ter tido razão

 

Há um par de anos, escrevi aqui, que em Portugal havia a moda de erigir fundações sem dinheiro. Ou, de outra maneira: simplisticamente, uma fundação é um conjunto de bens auto-suficiente que se emprega ou que procura um fim (normalmente útil, moral, social ou economicamente).

Sem dinheiro, de preferência vivo e abundante não há fundação que resista.

Confiar na generosidade alheia, no mecenato de pessoas, instituições ou empresas para custear o funcionamento de uma fundação é mais do que uma imprudência, um erro que se revela trágico ao fim de algum tempo.

No campo da “cultura”, que venho frequentando há largas dezenas de anos, existe a ideia de que a simples vontade, algum talento, outro tanto de trabalho e muito entusiasmo, conseguem milagres. Falso!

Estou à vontade para o afirmar, tanto mais que participei numa boa dúzia de tentativas de criação de instituições culturais (revistas, livrarias, editoras, cine-clubes, etc.).

Em meu abono, apenas posso dizer que sempre puxei pela magra carteira e a abri mais do que podia e devia. Sempre prevenindo que aquilo que se estava a criar sofria de falha congénita (fundos suficientes e regulares). Numa determinada ocasião um amigo meu (Arnaldo Fleming, desaparecido demasiado cedo) solicitou-me para sócio de uma livraria “alternativa”: a “Erva Daninha”. E jurou-me que “aquilo” tinha pernas para andar. Respondi-lhe, aceitando o convite e desembolsando a soma devida, que não acreditava: “nem sequer ao pé coxinho lá vamos”.

Todavia, associei-me e fui um dos mais certos e maiores compradores de livros naquela pequena lojinha aninhada na rua da Conceição, Porto. “Estou nisto pela aventura, pelo risco, pelos nossos belos tempos de 68 mas isto vai dar raia”, expliquei ao sempre entusiástico Arnaldo.

Deu! Evidentemente! A Erva secou ao fim de um par de anos de vida vegetativa: faltavam clientes para o produto que se vendia, faltava dinheiro para aguentar a despesa corrente, para fornecer a livraria de livros que nem sempre se vendem à primeira. A “erva...” era um nicho perto da “Leitura” (paz à sua alma!) e da “Académica” uma grande livraria alfarrabista porventura a mais antiga do Porto.

No capítulo das revistas, a coisa foi ainda mais rápida: uma (Espaço) finou-se depois do número 1. Outra (uma nova versão de “o Tempo e o Modo”) nem chegou a aparecer. Para ambas tinha enviado textos que, também eles, nunca viram a pálida luz do dia. De resto, um deles morreu uma segunda vez num pequeno incêndio em minha casa.

Tudo isto para falar do eminente colapso da “Fundação Mário Soares”.

Ao que sei, além do enorme e importante arquivo do fundador, estavam lá depositados outros, igualmente interessantes e, em certos casos, de ímpar importância (basta referir o espólio de Amílcar Cabral que, suponho, vai muito além de Cabo Verde e Guiné Bissau. Cabral foi, é minha convicção, o mais importante político africano de expressão portuguesa, o mais bem preparado, o mais culto e o que maior influência teve em África.)

A FMS digitalizou milhões de documentos e pô-los à disposição de estudiosos e, eventualmente, do público em geral.

Li que também outorga prémios (com a inevitável contribuição mecenática de empresas) e está aberta a conferências, colóquios, sessões de toda a espécie.

Tudo isto exige uma intendência robusta, profissional e... cara. Isto tudo custa dinheiro. Dinheiro que ou não há ou só há dependendo da boa vontade de mecenas.

Enquanto Mário Soares foi vivo os apoios lá foram chegando e um dos mais importantes tinha a ver com o facto do ex-Presidente ter na sede da Fundação o seu gabinete, pago pelos cofres públicos o que (eventualmente) ajudaria a pagar parte das despesas de funcionamento daquela.

Todavia Soares morreu e, eventualmente (repito-me) os apoios financeiros diminuíram, ou simplesmente desapareceram. Porém a estrutura da fundação permaneceu dado que os objectivos fixados no seu estatuto continuavam a ser os mesmos.

Agora, anuncia-se a morte, ou quase, da fundação, a provável transferência de espólios para alguém que os consiga manter e tratar quando não a sua restituição aos legítimos proprietários que os tinham entregado em depósito.

Isto significará sempre uma perda. Perda relativa, avisa-se desde já, porquanto muitos dos que hoje choramingam este previsível desfecho nunca lá puseram o lépido pé, menos ainda contribuíram com um mero cêntimo para a prossecução das actividades da FMS.

Há nesta pátria antiga, que resmunga mas que não ajuda, o velho e pernicioso hábito de, boca afora, soltar trinados maviosos pela “cultura”. No entanto lê-se pouco, deserta-se o teatro, deixam-se as artes plásticas ao alvedrio de ricaços recentes que empregam alguns críticos e curadores como capatazes das suas colecções, exige-se em alta grita museus gratuitos e pejados de obras, permite-se a venda para o estrangeiro de bibliotecas inteiras coligidas com carinho e sacrifício por leitores entusiásticos mas que morrem.

Eu bem me lembro da gritaria pela colecção (de terceira ordem e sucessiva e rapidamente vendida várias vezes) dos Miró ou pelos uivos de pura e patriótica indignação por um quadro que por cá andou clandestino durante gerações e que o dono quis vender em Paris ou Londres. Não tenho a menor simpatia pelo vendedor português mas não duvido que nunca alguém, por cá, estivesse disposto a igualar a oferta de cinco milhões de euros de que se falava.

Também é verdade que poucos aborígenes do cantinho lusitano se oferecem para ajudar as compras do Museu Nacional de Arte Antiga. Vamos lá que nos dois casos que conheço (e para os quais contribuí) lá se arranjou o dinheiro para adquirir as peças que o Museu desejava. Todavia, seria de esperar uma muito maior afluência de donativos que pudessem constituir uma espécie de fundo para o museu poder continuar a tentar enriquecer as suas colecções.

Se, de facto, houvesse um sólido movimento de pessoas entristecidas com a desaparição da fundação Soares, poder-se-ia pensar numa grande subscrição nacional para socorre-la e, já agora, na criação de grupos de amigos que anualmente pagassem uma quota ligeira para suportar a instituição. Ou até, oh heresia capitalista e afrontosa, num sistema de quotas diferentes de, p.ex., cinco vinte, cem, mil cinco mil euros ou mais, atribuindo pequenas regalias claramente diferenciadas aos doadores. É o que faz o enorme “Metropolitan” de Nova Iorque (aliás julgo que todos os ricos museus americanos o fazem) e que começa timidamente a tentar fazer-se na Europa. A ideia tonta, e corrente entre nós, de que a democracia rasoira por baixo não faz sentido. Os museus americanos expõem pelo mesmíssimo e simbólico bilhete de entrada todo o seu espólio. A quem dá muito, as instituições garantem um simbólico reconhecimento que vai da pré-inauguração privada de uma exposição até uma placa numa sala com o nome do (muito, imensamente) generoso contribuinte.

Entretanto, a Torre do Tombo prontifica-se (pela voz de Silvestre Lacerda seu excelente director) a acolher os espólios que sairão da fundação caso sejam resolvidos os problemas jurídicos levantados pela propriedade dos mesmos. Creio, até, que aceitaria jubilosamente o espólio de Soares. Conheço o Arquivo Nacional desde que o frequentei para levantar cópia de catorze processos contra mim levantados pela PIDE e pela DGS. Verifiquei que naquela casa se trabalha com eficácia e que quem lá vai tem ao seu dispor salas confortáveis e um atendimento profissional. Há (ou havia) mesmo uma pequena livraria que vende a preços de saldo publicações da extinta comissão nacional para a comemoração dos descobrimentos.

O ANTT bem mereceria, como aliás a Biblioteca Nacional, que a lei ou um qualquer regulamento capaz, contemplasse a possibilidade de haver pequenos (e grandes, porque não?) mecenas regulares que, todos juntos, pudessem ajudar a salvar, comprar, restaurar documentos, arquivos, mapas e livros que actualmente necessitam de restauro e conservação.

Isto que daqui digo, aplica-se a outras instituições de enorme significado e interesse público desde o Instituto de Investigação Científica e Tropical, ao Jardim Colonial, ao Arquivo Histórico Ultramarino ou (declaração de interesses: sou o sócio 20692) a Sociedade de Geografia de Lisboa que, ao fim de mais de 140 anos, atravessa dificuldades várias. Ao menos visitem-na: é no Coliseu, tem, além do museu, uma biblioteca notabilíssima, um grande fundo de publicações de invulgar qualidade histórica e científica para venda e um restaurante/bar simpático. Quanto ao seu programa de actividades bastará dizer que mensalmente são numerosas as sessões e conferências abertas ao público em geral sobre os mais variados temas. Isto para não referir o “boletim” que é publicado desde 1875!

A “cultura” é, antes de tudo, uma questão de cidadania e quer-se absolutamente independente do “Poder” seja ele o do Estado ou o de empresas, grandes ou pequenas. As fundações culturais devem usar da mesma e útil prudência para não ter que alguma vez pagar muito por pequenas ajudas nem sempre desinteressadas. Ou de morrer quando os ajudadores não as consideram suficientemente gratas...

*Na gravura: a belíssima e riquíssima (culturalmente) Fundação Maeght em Saint Paul de Vence, cerca de Nice e de uma boa dúzia de bons museus que reunem muito do que é muito bom da arte moderna a partir dos anos 900. Aqui para nós, na região de Nice só as praias é que são fraquinhas.