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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Dez18

Au bonheur des dames 467

d'oliveira

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O direito à greve não é para todos

(ou do direito ao bom uso de “fake news”)

mcr 19.12.18

O país assiste, com a resignação que o caracteriza, a um mês de Natal em que se cumprirão 47 greves se a matemática não me falha. É verdade que alguns dos pr´-avisos de greve dizem respeito à mesma classe profissional que vai cirurgicamente marcando dia sobe dias e greve sempre perto de feriados ou fins de semana para tornar mais atrativas as faltas ao trabalho e mais difícil a vida a quem usa transportes públicos, tem ir a uma consulta médica, fazer uma operação viajar enfim tratar de assuntos burocráticos numa repartição. Boa parte e mais dramática destas paragens de trabalho e de serviços diz respeito a funções tuteladas pelo Estado como é habitual. No comércio, na indústria, no ensino e saúde privados, nos serviços igualmente privados parece que não existe a famosa “consciência de classe”. Os trabalhadores destes sectores devem ser todos “lumpen Proletariat”, uma gentuça sem princípios, sem coragem, sem consciência da “brutal exploração” a que o “capitalismo monopolista” os sujeita. Não leram Marx (aliás. do lado dos revolucionários grevistas também não consta leituras do mesmo sujeito. Demasiadas barbas, demasiada prosa difícil, conceitos obscenamente abstractos e desnecessários. Felizmente existiram Politzer e Marta Harneker primeiro simplificadores. Depois, vieram os jornais partidários, hoje uma sombra do risível que já foram, que ainda simplificaram mais. E inventou-se uma coisa chamada “marxismo-leninismo” que já teve uma fase marxismo-leninismo-stalinismo e uma outra ainda mais vermelha a que se acrescentava o maoísmo e que até tinha um caderninho vermelho de bolso recheado de deliciosos pensamentos da autoria de um “grande timoneiro” (em Portugal, pais sempre de vanguarda, tivemos o pensamento imortal de um rapazola chamado Arnaldo de Matos que modestamente era apelidado “grande educador da classe operária”).

Durante o PREC apareceram mais alguns profetas do mesmo género, mas menores, e mesmo um militar que se pensou uma espécie e Fidel de Castro sem barbas nem carisma.

Nesses conturbados tempos, a União Soviética era o sol da terra (e talvez também o sal) segundo o dr. Álvaro Cunhal falecido em estado de santidade marxista leninista. E havia uns pândegos que em nome da “revolução”, da “luta final”, se entretiveram durante um par de anos a assaltar bancos (perdão, a recuperar meios de financiar a justa luta) ou a abater uns tristes, vítimas colaterais da luta contra o imperialismo.

É destes anos que datam as duas centrais sindicais, a “boa”, a “verdadeira” e a amarela. Esta demorou a afirmar-se, foi acusada de criar sindicatos paralelos, de servir os interesses estratégicos do patronato. Hoje, se não reina propriamente a harmonia já são raras as acusações mais virulentas. Também é verdade que apareceram ainda mais sindicatos ditos independentes mesmo se, globalmente, tenha baixado fortemente a taxa de sindicalização.

De todo o modo, há sectores onde o peso dos sindicatos é visível. O caso do Estado e das empresas públicas é o mais notório. Se uma greve de funcionários públicos da Administração central pouco ou nada prejudica o público em geral, já certos corpos especiais conseguem grande impacto público devido ao facto das suas greves afectarem a vida dos cidadãos. Os casos mais evidentes são os dos transportes. Autocarros, eléctricos, metro, ferrovia barcos da travessia do Tejo transtornam dramaticamente a vida de quem a eles tem de recorrer. E são sempre os mais pobres, os mais fracos, evidentemente.

E, assim, chegamos à grande controvérsia do momento: a greve cirúrgica dos enfermeiros.

A primeira questão que se põe, e foi a ministra quem primeiro tentou desqualificar a greve falando de crueldade, é a que decorre dos efeitos doa adiamentos de cirurgias, de tratamentos que obviamente terão efeitos prolongados. Uma operação que se adia demorará sempre algum tempo a efectuar-se. Durante esse período é fácil imaginar, a angústia do paciente, dos seus familiares e mesmo, o risco de consequências dificilmente imagináveis para a saúde do “adiado”, morte incluída.

Claro que conviria lembrar que a recente redução do horário de trabalho da função pública (de 40 para 35 horas) que entusiasticamente, e sem medir consequências imediatas ou mediatas, o partido da mesmíssima ministra levou a cabo sem sem que tivesse havido um aumento dos quadros nos hospitais (que, de esto, já pareciam insuficientes) tornou a assistência hospitalar pública (SNS) mais precária e problemática.

(à margem: mesmo sabendo isto, grupos políticos há que propõem um ataque em regra à medicina e aos hospitais privados. Mesmo que a pretendida eliminação da concorrência privada e social não seja a curto prazo, subsistirão dois graves problemas. Uma súbita enchente afogará o SNS e mais se afirmará a diferença entre uma assistência para ricos (privada e rápida) e outra para pobres que já é de uma lentidão escandalosa).

Todavia, o problema suscitado por esta greve é (também) outro. A começar pelas vozes que insistem em tentar negar aos enfermeiros um direito inscrito na constituição. Isto no exacto momento em que o Ministério Público e os Juízes insistem em recorrer a ele.

Depois, o “escândalo”: os sindicatos enfermeiros lançaram uma inédita e pública recolha de fundos para sustentar a greve. Vozes indignadas vieram a terreiro avisar gravemente que esse não é um bom processo. Parece que um grevista português deve sofrer sede e fome até obter ganho de causa. Ora, sempre houve meios de ajudar os grevistas a começar pelos fundos de greve, oficiais ou não, dos sindicatos.

Porém, o pior estava para vir: o fundo de greve dos enfermeiros por subscrição pública pode “eventualmente” ser pago, no todo ou em parte, pelas empresas de saúde privadas com o sinistro fim de prejudicar o SNS. Isto saiu da pena de várias criaturas escreventes nos principais jornais e foi badalado nas televisões e nos facebook e twiter.

Note-se que ninguém identifica os grupos privados que manhosamente auxiliam os enfermeiros. Basta sugerir essa possibilidade, tanto mais que o fundo se alimenta de entregas voluntárias e “não transparentes”.

Eis que os enfermeiros “cruéis”, segundo a nova ministra da Saúde, que, pouco a pouco mas seguramente ,disputa a taça da tolice à sua colega da Cultura, andam afinal a reboque dos hospitais privados. E do mais hediondo “capital”! Aliás, acrescenta-se outra tremenda prova: a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, é uma militante do PSD ou pelo menos uma colaboradora de antigos dirigentes desse partido. Ora, é sabido, que o PSD – e já agora o CDS – sendo um partido “burguês” (ou quase “fascista” e sempre, sempre, “reaccionário”) não tem direito algum a ter peso sindical. Isso estaria reservado aos verdadeiros representantes dos trabalhadores ou seja, prima facie, ao PCP e, vá lá ao BE. A la rigueur, talvez o PS ainda caiba nesse exclusivo clube, mesmo se, e cito uma boa porção de porta vozes comunistas e bloquistas, o PS tenha sempre um fatacaz pela Direita e pela política anti-popular e anti-operária.

Aqui chegados, como diria o inefável dr. Marques Mendes, temos que a greve da enfermagem enferma de graves pecados, todos capitais: é cruel, é, ou pode ser, paga pelos inimigos do povo e é impulsionada por partidos que não devem, não podem e não merecem defender greves mas apenas “lock-outs”.

(declaração de interesses: não conheço nenhum dirigente da Ordem ou de qualquer sindicato de enfermeiros, por junto sou sobrinho por afinidade de uma enfermeira aposentadíssima e cunhado de outra que apenas dá aulas a futuras enfermeiras. Desconheço, de resto, o que é que ambas pensam da greve, coisa que pouco me importa. Estou solidário com todo e qualquer paciente que tem de recorrer aos hospitais públicos e vê as suas legítimas espectativas de ser bem atendido goradas. Sei, porém, igualmente, as razões de uma luta que vem de há anos e que começa no menosprezo do Poder pelos que trabalham na enfermagem, que continua na falta de pessoal, na dureza das horas extra, no desdém pela qualificação profissional de toda uma classe que é, a par dos médicos, a base do SNS.)