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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

27
Dez18

au bonheur des dames 468

d'oliveira

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Rui

mcr 27.12.2018

 

É a segunda vez que tenho o Natal ensombrado pela morte de alguém de quem gosto. Da primeira vez, foi a avó Aldina, a Velha Senhora, que os 97 morreu. Já esperávamos o desfecho mas não tão depressa e, sobretudo, nunca na véspera do Natal. A Velha Senhora, acamara um ano antes. De todo o modo, mantivera o sorriso e a boa disposiçãoo. Ela passara por tantas, em tantos remotos lugares, que estar de cama não a impressionava. Nem a ela nem à minha sobrinha Sara que ao ver a bisavó ali deitada à mercê de qualquer um, mesmo de uma catraia que lhe herdara o riso fácil e a alegria comunicativa, agarrou pela mão a Margarida, irmãzinha mais nova, e dirigindo-se à anciã disse-lhe mais ao menos isto: “Avó, antes que morras tens de contar à Margarida aquelas histórias que contaste a todos os netos e vários bisnetos...”

A Velha Senhora não se impressionou e apenas as mandou sentarem na borda da Cama e aí vai disto: duas ou três largas horas de histórias espantosas, contadas como só ela sabia contar. Morreu um ano depois, mergulhando-nos numa afliçãoo mesmo se sabíamos que ela estava por um fio. É que a Velha Senhora queria ainda conhecer uns trinetos nascidos longe e, se possível, vê-los crescer e vigiar naoros futuros, que ela também era muito casamenteira.

Desta feita, foi o Rui. O Rui Martiniano. Alfarrabista culto sempre com uma novidade escondida na banca que, jurava-me, estava guardada à minha espera! E apostrofava-me vigorosamente. “Você tem de ler este gajo que é dos melhores”. E, valha a verdade, quase sempre era. Mas eu resistia. Que o livro era grande e já não tinha pachorra, que cada vez – e é verdade – me interessava a ficção; que tinha um imensa pilha à espera de vez... E por aí fora. Só não repontava com o preço. Uma vez que o fiz, o Rui, truculento e generoso, disse-me: ofereço-lhe. E eu não tinha coragem para recusar e numa breve luta lá pagava o livro por um preço mais de saldo ainda.

Conheci o Rui Martiniano quando, graças ao meu tio Quim, companheiro de dezenas de anos de leituras e peregrinação por Lisboa, comecei a frequentar a feira dos alfarrabistas (todos os sábados, na rua Anchieta ali em pleno coração do Chiado). Na época, a feira ainda era no largo de S Carlos (suponho que é esse o nome) e, no Verão eu maldizia da calorina que ali se sofria. E lembrava o Eça, sempre ele, a afirmar diante do Fradique que o calor estava “de derreter os untos”.

Graças a Deus, a feira emigrou para o actual poiso, a poucos metros da Benard meu poiso para os cafés da manhã, e vagamente resguardado dos músicos de rua que exercem diante da Brasileira e, felizmente, longe da turistagem que se atravanca para a fotografia junto do Pessoa. Não que eles saibam quem é (como ainda menos saberão quem foi o Chiado ali recordado em estátua, ou sequer o Camões, também vizinho ou, ainda, o Eça um pouco mais abaixo na rua do Alecrim). Basta-lhes um cavalheiro sentado a uma mesa com uma cadeira disponível ao lado. E vá de se fotografarem impantes. Mais uma prova que passaram por ali onde, de resto, tiraram mais vinte ou trinta fotografias que, provavelmente nunca mais verão.

Mas eu falava do Rui. De um ex-editor que na “Hiena” (este nome só ele...) publicara umas dezenas de livros quase sempre imprescindíveis na biblioteca de quem gosta de ler e depois passara a vendedor de livros velhos. Foi, justamente, por reparar na pilha dos livrinhos da “Hiena” que chegamos à fala. A “Hiena” foi a editora de “A musa irregular”, do Fernando Assis Pacheco. Este livro, absolutamente essencial para quem queira saber da poesia portuguesa na segunda metade do século XX, deu azo a que nos descobríssemos editores ambos (eu através da Centelha) do FAP, que, por coincidência, também morreu de morte súbita vitimado por um aneurisma filho da puta. E também num Dezembro de má memória...

A partir desse dia, foi sempre a rolar. Nestes já largos anos em que por lá vou, sempre perto do fim do mês, a primeira visita era para Rui só para dizer bom dia. Depois, ia até ao princípio da fila das mesas e começava a explorar com cuidado, minúcia e alguma alegria as ofertas expostas. Em mais de uma centena de vezes, raramente saí da feira sem compras. Fiquei a estimar muitos daqueles alfarrabistas feirantes, sou mesmo amigo de alguns e, claro, amigo certo do Rui.

Conversávamos à rédea solta durante bastante tempo, ou seja até eu ter de arrancar para o almoço. Ajoujado de livros e com a carteira –sempre magra- bem mais leve. Partilhávamos um bom par de autores, lembro-me do Nicanor Parra que, agora descobri através da notícia necrológica de Luís Miguel Queirós (Público 23.12.18), ia directo ao coração de um misterioso Rui André Delídia, poeta com que nunca tropecei senão por via indirecta. Afinal era o pseudónimo do Rui. Irei procura-lo numa última homenagem ao amigo que, sexta passada, por volta do meio dia ainda me vendeu dois livros. Sábado, logo à chegada, um dos seus colegas, na primeira banca logo me deu a “triste notícia”. E a partir daí, todos os restantes colegas, de semblante carregado lamentavam aquele desaparecimento tão a destempo. Com eles, ficamos nós, os leitores e frequentadores da feira, mais sós, muito mais sós. Sessenta e quatro anos. Ao contrário da velha e belíssima canção dos Beatles, ninguém poderá contar com o Rui. O prazo dele esgotou-se.