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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 469

d'oliveira, 18.02.22

Práticas “culturais”

mcr, 18-2-22      

 

à falta de política que se vise, de guerra (felizmente),de escândalos sexuais ou desportivos, a semana acabou por ser marcada por um estudo sobre práticas culturais dos portugueses.

Convenhamos: nada do que lá vem me surpreende. Que a leitura seja algo de estranho a três quartos dos meus concidadãos que, não terão lido um único livro no ano que passou, ou que as bibliotecas sejam territóris desconhecidos de quatro quintos dos indígenas é algo que eu já sabia ou adivinhava.

E, no último caso, está por verificar se quem entrou numa biblioteca o fez para ir ler um livro do espólio da instituição ou apenas lá penetrou para estudar, prática que se usava muito nos meus tempos de faculdade. A Biblioteca Geral era confortável e, para além da maçada de ter de requisitar um livro que nem aberto era, ninguém perturbava o estudante aplicado que vivendo em maus quartos ou não gostando de estudar em cafés, procurava ali refúgio. Nem vou perder tempo a falar na frequentação de galerias de arte, museus ou exposições em geral. Não vale a pena.

Os meus amigos alfarrabistas queixam-se da falta de gerações intermédias (entre a minha que está de pés para a cova e  os maiores de 55/40 anos. Vivem ou sobrevivem desta velhada, cada vez mais rara mas, pelos vistos, ainda entusiasmada pelos livros.

Quando vou à feira do livro, é verdade que vejo gente e mesmo compradores de livros atraídos pelo desconto que nunca vai além dos 10/2o% em livros recentes.

(anda por aí um projecto de lei que para proteger as edições recentes proíbe descontos maiores por dois anos. Não lhe vejo utilidade, sequer perspectivas de melhoria para os títulos editados. E, pelos vistos, os editores também não )

Quanto a concertos, exceptuando os festivais de Verão e similares a novidade também não existe. A música clássica, a ópera os recitais vivem no seu pequeno nicho  coisa que piora se nos lembrarmos do teatro: um desastre. Eu confesso que ainda não percebi de que vivem os actores de teatro e as companhias ditas independentes.

(alguém, nos meus tempos de Ministério ou Secretaria de Estado da Cultura, afirmava que independente, independente só o escasso teatro comercial que ainda existia. O resto, os chamados independentes dependiam totalmente do Estado!...)

Não tenho números fiáveis sobre a compra de discos, de filmes, e menos ainda de suportes de actividades menos frequentes, bailado ou teatro, por exemplo. Todavia, oiço queixas de que cada vez vale menos a pena porque há plataformas que, de uma forma ou doutra, tornam a audição ou a visão de espectáculos mais barata.

Os jornais (com a excepção do Expresso, um jornal quase exclusivamente lido por uma elite cultural e económica) apresentam tiragens anormalmente baixas (incluindo os desportivos) quase todos com excepção dos periódicos dedicados à bisbilhotice e à descrição destemperada  da vida dos “famosos”.

Não vale a pena falar de revistas literárias ou genericamente culturais. O que subsiste (p.ex. a “Colóquio” paga pela Fundação Gulbenkian ) tem baixas tiragens. Há todavia um fenómeno curioso: vendem-se muitos títulos sobretudo de História, mesmo se eu ignoro  em que quantidade. Mas a verdade é que, nos quiosques e tabacarias se encontra uma boa dúzia de títulos diversos incluindo variadas edições em português (desde a “visão” à National Geographic).

A imprensa estrangeira pode encontrar-se escassamente em Lisboa ou Porto mas desde há uns anos é notório o desaparecimento de títulos (El País, la Republica,  ou a edição cultural do ABC... .)

 

Longe de mim, vir fazer a apologia do “antigamente” mesmo se recorde que havia várias revistas (Seara Nova, Vértice, Rumo, O tempo e o Modo) mensais que subsistiam unicamente com o apoio de leitores e assinantes. O mesmo se passava com os cineclubes (só no Porto existiam dois) com as sociedades de concertos (também no Porto duas, ou, e na mesma cidade, um círculo de cultura Teatral com companhia própria, o TEP sustentado apenas pelos sócios e espectadores.) Isto numa época de proventos magros, de forte analfabetismo, de repressão cultural e política, de censura.

O que aconteceu a essa pequena mas enérgica multidão que ia   às livrarias, ao teatro, aos concertos, à opera (no Porto bastante popular a pontos de encher uma das maiores salas existentes (Rivoli)? 

Não estou a tentar dizer que agora existam menos pessoas interessadas do que há cinquenta/setenta anos. Apenas me parece que o número não aumentou  e que toda uma comunidade cultural parece esperar que a cultura que quer consumir lhe seja oferecida de mão beijada pelo Estado.

Aliás, é verdade que actualmente há bibliotecas em muitos mais concelhos que houve uma tentativa de manter, conservar salas de espectáculos. Todavia, pelos números revelados, o resultado é dramático. Salas vazias, ausência de esprectáculos fora dos grandes circuitos (onde, de resto, sempre estiveram) e uma aposta perdida na leitura pública. As bibliotecas e os museus estão, o público, os usuários é que fazem falta.

Depois, há nos números globais umapequena possibilidade de erro. Para oa grandes festivais de música popular (e eles são em número apreciável) há público, publico jovem mas animado e em grande número. Para o resto é que falta.

Só mais um exemplo: há ainda cinemas e exibição comercial. Todavia, o público total é pouco superior a metade do que se registava entre os anos 50 e 60 do século passado. As salas em número poderão dar a imressão que aumentaram. São, todavia, pequenas salas com capacidades muitíssimo inferiores às antigas. É verdade que os horarios de projecção são mais mas há que convir que isso não traz à grande maioria dos espectadores grande benefício. As pessoas, lembremo-nos trabalham, não estão disponíveis senão à noite ou em feriados e fins de semana. E a televisão é um grande concorrente mesmo se, só com muito boa vontade, se possam considerar as novelas dadas em profusão como consumos culturais. E mesmo essas são batidas por programas de uma indigência indizível tais como “quem quer casar com o agricultor”, “big brother” e outros semelhantes. Chamar a estas torpes ofertas “cultura” só revela o que é que começa por estar errado quando se tentar falar de cultura.