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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

15
Mar19

Au bonheur des dames 475

d'oliveira

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Instantâneo na cafetaria

mcr (nos idos de Março)

 

Odeio a apalavra “cafetaria”: trata-se de um espanholismo mais do que dispensável mas que se impôs devido ao desuso de “café”. Hoje, os estabelecimentos do género foram desaparecendo ou transformaram-se em pastelarias-padarias, com um vago serviço de refeições que, elas mesmas, não são exactamente almoços e, muito menos, jantares, mas apenas um desafogo da fome que nos dá por volta do meio-dia, uma hora.

Eu, que já não me posso considerar uma novidade (eis outra palavra decaída: dantes novidade era bem mais do que uma notícia acabada de chegar. Significava também alimentos frescos, da estação, entre muitas outras coisas. Novidade era frescura, algo que, no capítulo da alimentação também já vai carecendo de sentido) ainda recordo os grandes cafés de antigamente, aqueles a que se era fiel toda uma vida, onde se podia até receber o correio e recados variados.

Havia cafés que além dos salões de jogo e dos bilhares ainda ofereciam outros serviços. O “Montecarlo” em Lisboa até tinha barbeiro, vejam lá. Para já não falar dos engraxadores, oficiais de ofício humilde mas útil que nos davam um ar novo e resplendente ao sapato. Hoje, também, os sapatos de couro vão desaparecendo, melhor dizendo, vão-se reduzindo a uma clientela rica, a única que pode dar-se ao luxo de comprar sapatos portugueses de grande qualidade e preço compatível.

Mas os cafés lá vão acabando, tornando-se mais pequenos, mais cafetarias, já quase não há bilhares e os que há são de snooker, ou melhor de uma variante do snooker que é bem distinta e mais fácil do que aquela modalidade que o Eurosport oferece amiúde e me põe doente só de ver como aqueles jogadores dominam a arte. Eu tenho cá por casa uma mesa de bilhar, bilhar francês , versão normal, nada daquelas grandes mesas onde se jogavam partidas “às três tabelas”. Mesmo assim, já não tenho parceiros e contento-me em jogar sozinho contra mim próprio o que, convenhamos, é pouco interessante.

 

Mas, como escrevia, estou na “cafetaria”. Contra o costume é agradável, o serviço é eficiente, há algumas ofertas originais para petiscar e, no inverno, há uma lareira enquanto que, no verão há ar condicionado. E fica mesmo em frente da porta da garagem...

 

Ao meu lado, uma senhora escreve com a mão esquerda. Canhota, portanto. Que inveja lhe tenho. Sou canhoto, canhotíssimo faço tudo com a esquerda, menos escrever. Naquele tempo, a escola primária (que alguém dizia que era “risonha e franca”) não estava preparada para meninos canhotos. Fui obrigado a aprender a escrever com a mão direita. Nem sequer me passou pela cabeça queixar-me em casa. Quando, muito mais tarde, falei disso, o meu pai perguntou-me porque é que eu calara aquela horrenda violência. Tarde piei...

Durante anos a minha caligrafia era mais indecifrável que o linear b. Tive de aprender a desenhar a letra. E tão bem o fiz que toda a gente ma gabava. Só eu me queixava de tantos anos de tentativas e de não ter aprendido a escrever com a mão que faz tudo.

Nem imaginam quanto me custa ver outros a usar a esquerda para escrever. E parece que se multiplicam esses canhotos felizes, raios os levem.

É verdade que (com grande dificuldade, há que dizê-lo) consigo escrever com a esquerda mas o que sai é uma caligrafia miseravelmente infantil, sinal indelével de um tempo outro em que, sob outro nome, já havia um politicamente correcto provavelmente menos perigoso e imbecil que o actual.

Vivemos, como afirmava o poeta, tempos realmente extraordinários, em que tudo parece possível e, ao mesmo tempo, extremamente perturbantes: há por aí alguém que seja capaz de me explicar o que se passa com os ingleses, melhor dizendo, os britânicos? Que é que aquela gente quer? Se é verdade que irlandeses e escoceses (e boa parte das classes mais educadas e jovens) votaram contra o Brexit, se como tudo parece indicar, a vida tornar-se-á mais complicada ecara para todos, como é que houve tanta gente a preferir sair da Europa?

O caso mais extraordinário é o do País de Gales grande beneficiário dos fundos europeus e maioritariamente contra a mão que trazia uma cornucópia de euros. Também não deixa de parecer extravagante que seja um pequeno partido do Ulster p principal apoio da senhora May uma fraca cópia de Margareth Tatcher, a dama de ferro. Uma fronteira a sério nessa ilha poderá trazer (ou trará inexoravelmente) a guerra civil larvar que ausou milhares de mortos e consequente miséria mesmo à minoria protestante irlandesa. Sobretudo, quando se vê actualmente uma República da Irlanda próspera e liberta da férula católica que a asfixiava. A Grécia, há pouco tão incensada, por alguns radicais portugueses (que entretanto já não podem ver o senhor Tsipras, herói decaído das senhoras mais representativas do BE (será que o substituíram pelo grande burguês Varufakis ou mais tolamente ainda pelo venezuelano Maduro ou pelos resquícios autoritários do sandinismo que atormentam a Nicarágua?)

E já que se mencionou a Venezuela, então o famoso apagão da semana passada é obra dos americanos? Isto quando se sabe que a principal central eléctrica (Guri) esta sem manutenção há mais de dez anos e reduzida a um terço ds suas possibilidades, como desde há dez anos já se afirmava. Se não foi o traiçoeiro Trump foi o senhor Guaidó... espantalho conveniente num país one há anos falta tudo excetpo a fome, as prisões políticas e os mortos em manifestações pacíficas.

Eu, que já não sou uma novidade, ainda me lembro de um famoso apagão em Nova Iorque que teve consequências tremendas. Olha se os americanos se tivessem lembrado dos mais recentes inimigos vietnamitas (a guerra durou até 1975) ou do “inimigo interno” (estudantes protestatários, black panthers ou outros grupos negros de direitos civis) o que não se teria então dito. Pelos vistos, agora, a versão de Maduro obtém o assentimento beatífico de meia dúzia de cidadãos portugueses, alguns dos quais piedosamente calados durante o Estado Novo. Naquela época o silêncio destes agora buliçosos indignados e venezuelófilos (o neologismo é da minha responsabilidade) permitia conservar os empregos na função pública e escapar ao serviço militar nas colónias, nas frentes de guerra activas e perigosas.

Raios me partam, canhoto que sou, não percebi que estar calado poderia ter-me evitado tantos dissabores e, ao mesmo tempo, permitiria apresentar-me, hoje, de cara lavada e impecável (mas imaginativa) folha de serviços anti-fascistas, anti-imperialistas e anti mais qualquer outra coisa que me viesse à ideia ou estivesse na moda.

Dia seguinte:

Entretanto, mudei de poiso matinal. Na esplanada de sempre com vista desafogada para o jardim. O sol (primavera antecipada que iremos pagar com uma valente seca lá mais para o verão) entra pela vidraça do teto e acerta-me em cheio na cabecinha pensadora. O sr. Luís, dono do pequeno local jura que já encomendou uns panejamentos de lona para proteger a clientela mais sensível a estes excessos luminosos. Só que... ”o sr. dr. Já sabe. Neste país tudo é para se ir fazendo e nada para se fazer já. A encomenda foi feita no ano passado e já vamos em Março...”, lamenta-se.

É bem verdade. Vivemos de projectos, de promessas, de antecipar o futuro para melhor prolongar o passado pegajoso, lento e ineficaz que trazemos no ADN.

Veja-se, para não ir mais longe, o triunfo daquela triste criatura que comanda a lista do PS às europeias. No seu mandato, as promessas acumularam-se. No que toca à ferrovia foi o que se viu. A realidade, sempre essa miserável que só faz desfeitas aos políticos, é menos buliçosa: faltam comboios, falta pessoal de manutenção, as linhas do Oeste (Figueira da Foz –Lisboa), do Algarve e do Sueste funcionam ao pé coxinho, melhor dizendo com os dois pés coxinhos. Em todas as circulações eliminaram-se comboios e, mesmo assim, o atraso é a regra. As linhas de Sintra e de Cascais que carreiam para Lisboa, centenas de milhares de trabalhadores, tem horários rarefeitos tem menos composições, e as que ainda circulam já deveriam estar retiradas por terem ultrapassado há anos o prazo de validade. Um dia destes há uma desgraça e vai-se a ver nunca aparecerão responsáveis. Ou aparecem os do costume, uns desgraçados que não mandam nada, que ganham uma miséria e que são obrigados a conduzir aquilo, aquelas latas de sardinha sobrecarregadas sob pena de, se o não fizerem, se reclamarem, se denunciarem o previsível naufrágio, serem despedidos.

Os polícias manifestaram-se: parece que no que toca a aos de serviço perdidos ainda estão pior que os professores. Parece também que não há subsídio de risco, que não lhes é reconhecido o estatuto de profissão de desgaste rápido, que as esquadras (ou uma significativa parte delas continuam a ter deploráveis condições, para já não falar na falta de viaturas e de outros meios. Felizmente que os criminosos indígenas são mansos e, muito portuguesmente, pouco activos. A apregoada segurança dos cidadãos deve-se não à capacidade policial mas apenas à frouxidão endémica do crime local de baixa produtividade o que, aliás, está de acordo com as mais recentes estatísticas sobre o trabalho nacional. Há males que vem por bem!

* a ilustração: acidente de comboios em Alfarelos. 

 

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