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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

20
Mar19

Au bonheur des dames 476

d'oliveira

No século passado

mcr 19.3.19

 

 

O dr Pedro Nuno Santos já se tinha distinguido em 2011 quando, sem pestanejar e, muito menos sorrir, assegurou que, no que tocava à dívida pública indígena, Portugal possuía a bomba atómica. Bastava dizer que não se pagava e as pernas dos banqueiros alemães começariam a tremer.

Era um delírio, provavelmente devido à mocidade da criatura e, sobretudo à sua falta de experiência de vida, de vida vivida, de vida a sério. PNS foi sempre político desde a sua filiação na Jota socialista até aos dias de hoje. Vê o mundo pelos óculos bem escurecidos, dos cargos políticos e duvida-se que saiba, mesmo vagamente, o que é trabalhar no duro para um qualquer patrão ou o que é andar na profissão liberal a começar a tentar obter nome e clientes.

Depois, também se viu que não sabia o que era a Alemanha, os alemães, banqueiros ou não (por favor mandem-no para lá três mesitos que ele talvez comece a perceber. Aliás, poderá mesmo ir para qualquer outro destino europeu para ver como as coisas acontecem. Poupo-o a uma ida a África pois aí seria bem mais penosa a aprendizagem do mundo.

Agora, volta à ribalta noticiosa por via de um fait-divers. A sua mulher foi nomeada chefe de gabinete de um senhor Secretário de Estado. Parece que ambos, a senhora e o secretariante cavalheiro se conheciam desde a Câmara Municipal de Lisboa e, provavelmente, dos labirínticos corredores do aparelho partidário.

Reinava nessa pouco longínqua época a confiança política e pessoal de um na outra e por isso, só por isso, o primeiro logo que se viu membro do Governo entendeu a que devia entregar a chefia do seu gabinete à senhora em questão.

 

A justificar a decisão estava o facto de a senhora em questão ser eficiente e de merecer toda a confiança do nomeante.

PNS veio a terreiro afirmar que a sua cônjuge merece ser tratada como qualquer outro cidadão/ã e não pode ser menorizada por ser casada com ele.

É comovente este apelo aos direitos humanos, mormente da mulher mas esbarra num escolho difícil de ignorar e que desde a antiguidade tem assombrado os políticos. A famosa frase À mulher de César não basta ser honesta, tem de parece-lo” atribuída a César para justificar o divórcio de Pompeia. De facto, diz a história que Pompeia organizara uma festa exclusivamente reservada a mulheres mas que um seu suposto apaixonado tentara itrodir-se no ágape disfarçado de tocadora de lira. Não conseguiu sequer aproximar-se da anfitriã pois foi rapidamente descoberto e expulso da casa de César. Todavia, este, quis o divórcio e justificando-o com a famosa frase.

A senhora Gamboa pode ser um génio, uma criatura leal, e uma trabalhadora incansável. Merece ter umacarreira política autónoma do marido. Porém, estando ele no Governo, poderá, com ou sem razão, ficar na opinião pública a ideia que só vai para “chefe de gabinete” (de outro membro do Governo) por ser cada com é.

A este propósito relembro uma história antiga muito glosada por um PS também antigo. Num governo PPD houve duas cônjuges de responsáveis ministeriais que também foram para “chefe de gabinete”. Uma das senhoras em causa foi para a Secretaria de Estado da Cultura e era casada com um ministro importante (eventualmente Dias Loureiro). Da outra perdi-lhe o rasto que isto ocorreu no século passado lá pelos anos 80/90. Durante um par de meses foi uma festa de ditos, de piadas, de acusações, enfim o costume.

Mais recentemente, e num exemplo “a contrario” temos que um cavalheiro de seu nome Jorge Simões, presidente do Conselho Nacional de Saúde, se demitiu logo que a mulher, Marta Temido foi indicada para Ministra da tutela.

Relembra-se que Jorge Simões já estava no cargo, que anteriormente passara, como presidente, pela entidade Reguladora da Saúde. Ou seja este professor prestigiado de Higiene e Medicina Tropical há muito que andava nestes domínios (inclusivamente durante o anterior Governo) e era reconhecido como uma autoridade na matéria.

Todavia, entendeu que mesmo estando há tempos no cargo não devia continuar porque sua mulher ia ser Ministra. Bem sei que no mesmo ramo mas o simples facto de já lá estar não poderia ser usado contra ele ou contra a Ministra.

Não vou afirmar que o Professor Doutor Jorge Simões merecia “não ser menorizado por ser casado com é” mas o pudor e o bom senso e uma certa ideia de sentido de Estado levaram aquele profissional reputado a optar por se retirar, reafirmando assim que é honesto e que parece ser honesto.

Este pequeno exemplo deveria servir para o senhor dr Pedro Nuno Santos estar caladinho e não vir para cá para fora a justificar algo que mesmo legal é dificilmente entendido pela opinião.

Ma ao cavalheiro que não percebe os alemães este género de argumentos não convence, se é que sequer os percebe.

Asim Deus (ou o diabo, a escolha é dele) o ajude, se bem que para isso tem ele, primeiro, que se ajudar.

(em tempos que já lá vão, fui convidado - e aceitei - para ser presidente de uma instituição pública. Tive, imediatamente, o cuidado de solicitar à Ordem dos Advogados a suspensão do meu mandato para não poder ser acusado de servir a dois senhores ou de confundir os interesses da instituiçõ com os do meu ofício de advogado. Já nessa altura, uma estadual e secretariante criatura me mostrou o seu espanto porque "nada me obrigava a tal decisão. Tive de lhe explicar com fria cortezia que uma coisa era a lei outra a ética e a vontade de estar em paz com a consciência. Claro que perdi dinheiro que me fartei. Mas dormi sempre bem...)

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