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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 483

d'oliveira, 15.05.19

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Eppur si muove

mcr 15.Maio.2019

 

Ver o grotesco espectáculo de um tal Joe Berardo a tentar graçolas no Parlamento diz tudo sobre esse “augusto” órgão e nada sobre o cavalheiro que a si próprio se denomina Joe, à boa moda de uma certa América dos anos 20/30.

Eu não sei de onde lhe vem a fortuna mesmo se esta está a bom recato, como a bom recato está a famosa colecção que, convenhamos, não é assim tão extraordinária quanto se pinta. Há ali muito “ar do tempo”, muita moda, e muita disparidade (graças provavelmente aos rapazes e raparigas que, com tabuleta de críticos de arte, à porta, foram indicando as peças a adquirir). Ver o dito senhor Berardo a falar de arte é ainda menos estimulante do que um copo de óleo de fígado de bacalhau bem cheio.

É que não basta vestir-se todo de preto paras se poder entrar no mundo dos connaisseurs de arte. De preto andam os gatos pingados e preta é a cor do urubu e não se lhes conhece nenhum entusiasmo por Van Gogh ou Vieira da Silva. Os únicos homens que se vestem muito de preto e nem por isso perdem um certo ar de senhores são (ou eram) os ciganos e nem todos. E há (ou havia) nesses homens um sentido inato da dignidade, da honra e da palavra dada. Uma dívida era uma dívida e não havia subterfúgios (tão pouco advogados ao lado) para iludir esse facto.

Parece que o mister Berardo não tem de seu um cêntimo. Viverá de quê? Quem lhe paga a renda da casa, aliás luxuosa que, pelos vistos, não é dele mas de uma sociedade de que a criatura nem accionista directo é? Quem lhe paga a farrapada preta com que se adorna? E as jataradas e almoçaradas? E o carro? E a quinta da Bacalhoa? E, e, e?

Ver esta abencerragem na televisão dá-me a volta à tripa e faz-me pensar em fugir para muito longe, a ter um estatuto de apatridia para não me confundir com os cidadãos do país de que ele eventualmente se reclama. Será este desgraçado Portugal uma república bananeira, um imenso pinhal da Azambuja, onde cavalheiros de trabuco à ilharga fazem pela vida à custa dos passantes indefesos e inseguros?

 

2 Deixemos este tema inóspito e lavemo-nos mãos e mente com a lembrança dessa grande cantora e atriz (mal aproveitada) que foi Doris Day. Eu sou, pela idade e porque, muito pequeno, ia com a minha excelente Mãe ao cinema Peninsular todos os domingos à tarde, um do felizardos que viram muitas das fitas protagonizadas por D. D.

E, mais ainda, ouvi um ror de canções (muitas delas suavemente jazzy) que valiam cem vezes o “Que será, será?” com que os ignorantes a recordam. Não que seja algo de mau, mas é tão redutor!...

Sobretudo quando se sabe que ela interpretou (e brilhantemente!...) o “song book” de Rodgers & Hart, que cantou em dueto com Sinatra ou que tem uma colectânea de músicas de cinema de grande qualidade. Isto entre quase uma centena de discos onde é raro descer ao sofrível.

 

Curiosamente, ontem (terça feira) vi na 2 um longo documentário sobre Heddy Lamarr, actriz bem mais antiga do que DD e que teve, ainda na Alemanha, uma estreia fulgurante com o filma “Êxtase”, o primeiro a mostrar um nu impressionante. Da europa partiu para Hollywood onde sob a férula de Louis B Meyer teve uma carreira excepcional que culminou (que bem que me lembro, ai quão velho estou!) com “Sansão e Dalila”(real: Cecil B de Mille), em que contracenava com Victor Mature, um actor que tinha grande saída entre o público feminino 2 que trabalhou com John Ford, entre outros,

Além de bonita e boa actriz, Hedy era um inventora de qualidade mesmo se muitas das suas criações neste campo tenham sido esquecidas. Na sua Alemanha natal o dia do seu aniversário foi instituído como “dia do inventor” – bonita e justa homenagem E era, honra lhe seja, uma feroz adversária do nazismo e, em Hollywood, pertenceu a todos os grupos de actores que contribuíram para o esforço de guerra.

 

O jornal “Le Monde”, que devotamente acompanho desde o princípio dos anos 60 (uma vida!) entendeu, e bem, muito bem, republicar todos os livros de Julio Verne numa edição fac-similada da maravilhosa edição Hetzel. Em boa hora o faz, dado que os exemplares dessa edição atingem valores astronómicos que vão das largas centenas de euros até a alguns milhares. Esta ediçãoo anuncia-se barata mas há um horrendo defeito: não se consegue adquiri-la em Portugal, Já escrevi o raio do jornal mas nem resposta. É de uma criatura ficar com os dentes como ossos!

Todavia, pesquisei tanto quanto pude, ou, melhor, tanto quanto sei, e em breve me hegaão outos fac-similes de algumas das principais obras desse autor que já chegou (oh la la!) à colecção “Pleiade”. Uma das características mais interessantes da edição agora em fac-simile é a de apresentar todas as gravuras originais, coisa que nunca (que eu saiba) ocorreu nas edições portuguesas da Aillaud, da Bertrand ou Companhia Nacional Editora (edições ainda do fim do século XIX) que se limitavam a duas magras gravuras.

É curioso como Verne (e também Emílio Salgari) quase desapareceram da actividade editorial nacional. Nos seus países respectivos gozam ainda hoje de grande respeito e afeição de leitores de todas as idades (e não só os mais jovens) e, no dizer de Umberto Eco ou de Fernando Savater, tão ou mais devotos quanto eu, ainda hoje se podem ler com muito maior proveito do que os Harry Potter. Em Itália, nas redes sociais aparecem inúmeros grupos de leitores de Salgari que tentam porfiadamente descobrir a mítica ilha de Mompracem, praça forte de Sandokan, um inimigo jurado dos ingleses à imagem do Capitão Nemo das “vinte mil léguas submarinas” e também da parte final da “ilha misteriosa”.   Provavelmente, isto não passa de uma mania de velho mas antes isso do que perder tempo a ouvir os dislates de boa parte dos candidatos ao parlamento europeu e, entre eles, dquele pobre diabo que dá por qualquer coisa Marques e que o PS numa hora de pesadelo preferiu a Maria Mauel Leitão Marques que sabe mais a dormir do que o cabeça de lista acordado e cheio de vitaminas. Pelo menos, aqui, o PS poderia ter marcado a diferença e apresentado uma grande cabeça de lista, num universo masculino de onde se salva Marisa Matias que, todavia, sucede (pela 3ª vez a si própria) o que não lhe retira o mérito que a sua inteligência, o seu zelo e a sua simpatia mais que justificam. Não é que vá vá votar nela  mas Marisa merece o destaque que tem tido.

*na gravura : um urubu, bicho feio e preto mas apesar disso bem menos medonho que alguns bípedes que por aí se mostram sem vergonha nem pudor

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