Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

04
Jun19

Au bonheur des dames 486

d'oliveira

erico_verissimo_todos_nos_somos_um_misterio_para_o

Ah, se isto fosse um romance policial...

mcr 4.06.19

 

Mas não é. É apenas Portugal, minhoto, bisonho e metido nas negociatas. Vejo no jornal (eu faço parte da minoria que lê e compra jornais. Vários e de papel. Para ver se não desaparecem de vez!) que o senhor Joaquim Couto já não fica em prisão preventiva como se anunciava e, com toda a probabilidade, se previa.

E não vai porquê?

Não vai porque o o juiz entendeu que ao renunciar a todos os cargos públicos e partidários a prisão não se justificava. De todo o modo o acusado terá de pagar uma caução de quarenta mil euros o que sempre é um dinheirinho respeitável.

A renúncia fora anunciada domingo e, à cautela, os documentos comprovativos foram entregues ao Tribunal mesmo que isso não fosse exigido. Na altura, um dos advogados do ex-autarca veio dizer que “a renúncia não significava uma confissão” mas apenas se destinava a salvaguardar o prestígio da Câmara e do Partido Socialista fortemente beliscado pelo que consta da acusação.

Na altura ninguém percebeu tão pronta e (para uma minoria) louvável actuação. Agora percebe-se. O sr. Couto não bate com os costados na cadeia o que seria, mais do que um desconforto, um aborrecimento em véspera de férias de Verão.

Criaturas perversas e de má índole tentaram já afirmar que isto cheira a negociata. Duvido, não tanto ao nível das intenções do demissionário mas antes da análise do Tribunal e do Juiz de Instrução. Este acautela-se com a caução e com as restantes medidas já tomadas ao mesmo tempo que aceita parte das explicações da defesa (custos de uma viajem pela Austrália no seguimento de uma ida oficial a Timor. O que é que Santo Tirso tem a ver com Timor é outro mistério digno de Agatha Christie mas já se viram coincidências mais surpreendentes.

Aliás, neste imbroglio nortenho tudo sucede. O director do IPO pediu a reforma. Também escapa às grades. Mais notícias deste folhetim só para semana.

 

O 2º mistério desta trilogia é a resposta do sr Carlos César ao sr Marques Mendes. Este deixou no ar a ideia de que o primeiro gostaria de ser Presidente da Assembleia da República mesmo que isso fosse ofensivo para Ferro Rodrigues. Eu pessoalmente só acho extraordinário o facto de César ter chegado onde chegou e de uma forte maioria de cidadãos açorianos o ter eleito várias vezes para Presidente da Região. Desde a sua primeira aparição fiquei esclarecido quanto às suas capacidades oratórias (exíguas) e à sua argumentação política (medíocre).

Entretanto o sr César mesmo chamando “comerciante político” ao sr Mendes não exclui a sua candidatura. Apenas diz que o futuro só ao futuro pertence. Está-se mesmo a ver que se está a pôr a jeito para o que der e vier. Por pouco que se aprecie a actual estrutura do Parlamento convenhamos que César na presidência dele não ajuda em nada o prestígio daquela assembleia onde deputados eleitos à molhada e na generalidade desconhecidos dos desgraçados eleitores sentam o dito cujo ou levantam-no à ordem dos respectivos cabos eleitorais. Volta Júlio Dinis e traz contigo o Joãozinho das perdizes. Por onde andas, Eça e as tuas magníficas descrições das sessões parlamentares?

O Sr. Presidente da República, travestido de 2professor Marcelo, comentador político, entendeu anunciar uma “crise da Direita”. O principal visado, dr. Rui Rio não o nega mas prefere o termo “crise do regime”. O dr. Centeno acha que não e dispara uma resposta ao lado que não aquenta nem arrefenta. (o dr Centeno é mais para números do que para análise política e gosta de baralhar o jogo. É contra a austeridade em abstacto e usa-a – e de que maneira!- na prática).

Este modesto folhetinista acha que a crise vem de longe e que, sem reformas drásticas, as coisas não melhorarão. A começar por uma que belisca todos os poderes instalados: acabar com as listas de deputados ao magote e tornar fácil e claro para cada eleitor saber em quem realmente vota. É assim que se faz nos países civilizados e até à data a coisa não tem corrido mal. E os deputados preguiçosos ou subservientes não duram muito.

Será que algum dos leitores conhece já não digo todos os candidatos mas apenas metade dos que se propõem no seu círculo? O lisboeta conhecerá ao menos dez dos candidatos? O do Porto oito, os de Coimbra Braga, Aveiro ou Setúbal, seis? Já nem falo dos substitutos e nem sequer refiro o facto de alguns dos felizes eleitos deslizarem mansamente para outros cargos.

E, muito menos, falo da possibilidade de escolha dos deputados de um partido mas de todos os eventualmente elegíveis no círculo (e já excluo os dos pequenos partidos, por vezes bem mais visíveis do que terceiras e quartas figuras dos partidos tradicionalmente assentados no hemiciclo.

De todo o modo, que é que deu ao Sr. Presidente? É que para falar da Direita que, sem dúvida, conhece e que muito frequentou, poderia, já agora, estender a sua lição ao que se passa na Esquerda, quanto mais não seja ao Partidão que anda na mó de baixo roído pelo BE e pelo envelhecimento natural da sua base eleitoral.

É que assim, só dando pela Direita, poderá parecer, Deus nos livre, Santa Bárbara nos acuda, que S.ª Ex.ª se está a posicionar para a corrida a um novo mandato. Credo!, Jesus, Maria José, va de retro Satanás...

 

* A gravura: ao procurar uma ilustração para mistério deparei-me com Erico Veríssimo, escritor notabilíssimo, um dos grandes, muito grandes, do Brasil.

Leitor(a)  ler "O Tempo e o Vento", uma trilogia extraordinária situada no Sul do Brasil é uma obrigação. E um gosto, um prazer, um divertimento. Veríssimo é um escritor de mão cheia e. quando se chega ao fim desta trilogia, só nos apetece outra de igual tamanho ou maior.  

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.