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Incursões

Instância de Retemperação.

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au bonheur des dames 494

d'oliveira, 12.05.22

O cumpridor e promessas

mcr, 12 de Maio de 2022

 

escrevi aqui que se da Azofstal (Mariupol) saíssem os civis graças ao tardio esforço do sr. engenheiro Gutterres, o acompanharia a Fátima. 

Eu não acreditava que a coisa tivesse êxito mas na verdade saíram quase quinhentas pessoas mesmo se haja notícias de outro tanto que lá ficou (doentes, feridos quase todos homens, eventualmente soldados também feridos). De todo o modo, como há muito deixei de ser radical, entendi que a promessa deveria ser meio cumprida, mesmo sem a beatíssima companhia do Secretário Geral da ONU. 

Aproveitei o facto de ter de vir para Lisboa para ver a mater augusta que vai briosamente nos seus cem anos e fiz um desvio até  Fátima. Dispensei-me de entrar no santuário que nesta época está que ferve de peregrinos e dei por cumprida a minha promessa. E regressei logo que pude à A17 para continuar a fazer uma viagem razoavelmente solitária.

Verifiquei, assim que entrei em estradas normais que eram muitos os peregrinos, a guarda republicana a avisar os automobilistas e os grupos de voluntários que ajudam as pessoas que vem de longada e de longe a pé- Até vi uns peregrinos com uma bandeira ucraniana!...

Cumprido o meu dever, laico e automobilístico, desacompanhado de Guterres , entendi trazer (ou voltar a trazer) uma crónica com trinta e muitos anos sobre uma promessa de ida a Fátima que se gorou pelas razões que no texto se expõem. 

Aqui vai:

 

 

Figueira-Fátima só ida

Se os meus parcos leitores  permitem tenho uma confissão a fazer: não sou nem nunca fui pessoa dada aos mistérios da fé. Aquilo passa-me ao lado como se fosse água pelas penas de um pato. E não é que não me tenha esforçado: foi há quase meio século que num verão mimoso desfilei com outros meninos e meninas na procissão dos primeiro-comungantes. Há disso uma fotografia delida pelo tempo: eu e o meu irmão, de casaco e calção cinzentos, fitinha larga e benzida num dos braços e mãos juntas atadas por um terço.

 

Lembro-me  que, nesse dia inesquecível, lavado de todos os pecados, o meu maior desejo era pertencer `a "Cruzada Eucarística" cujos elementos abriam a procissão ostentando a tiracolo uma banda branca com uma cruz azul. O quadro ficará mais completo ( e ligeiramente menos inocente) se acrescentar que nesse grupo se incluía uma menina de loiros e longos cabelos anelados...

 

Todavia nunca cheguei a ingressar nessa piedosa agremiação. Havia muitas missas e novenas a cumprir que os caminhos do Senhor não são pera doce. Tanto mais que, durante o longo período de catequese me fartara de faltar às aulas de doutrina, salvando-me de denúncia da catequista apenas porque com a memória forte da infância decorava e papagueava, sem erros, orações, mistérios, listas dos pecados capitais, das virtudes teologais, hinos sagrados incluindo, oh maravilha!, o inteiro  "tantum ergo sacramentum..." e a Salvé Rainha, toda em latim de igreja (bem melhor e mais bonito do que esse arremedo que ora se usa sob o nome de pronúncia restaurada).

 

Depois as missas eram insuportavelmente longas, sobretudo a das onze, a melhor e a de mais escolhida freguesia. Com o meu irmão e um comum amigo de nome Bartolomeu, fintávamos as famílias e metíamo-nos no museu a ver armaduras japonesas, cacos romanos e outros objectos fascinantes, enquanto na igreja cheia o monsenhor Palrinhas dava início a uma longa cabotagem de ladaínhas, sermão, cânticos enfim o que se chama uma missa bem medida. Normalmente chegávamos quase no "ite.." para saber, não fosse alguém perguntar, qual a cor dos paramentos. Depois sorrateiramente seguíamos os cardumes de raparigas até ao bairro novo onde se passeava uma meia hora antes de recolher toda a gente a casa para o almoço dominical.

 

Convenhamos porem que não éramos só nós a fazer gazeta ao "santo sacrifício": as esplanadas dos cafés estavam desde cedo cheias de cavalheiros  que aproveitavam a ausência das  famílias na missa para tomar uma descansada bica, ler o jornal e falar com amigos. Provavelmente pensavam que a mulher e a filharada rezariam o quantum satis para absolver toda a tribo...

 

Não se pense contudo que esta mansa falta à prática dominical fosse sinal de  laicismo radical. Nada disso: era apenas preguiça, despreocupação e vontade de aproveitar a manhã luminosa depois de uma semana de duras penas. Os figueirenses quando era necessário frequentavam a casa de Deus com aplicada devoção e era lá que se casavam, baptizavam a prole e enterravam os seus.

 

Todavia, de longe em longe, a cidade era percorrida por um frémito religioso de maior alcance e rivalizava com Buarcos onde era conhecida a devoção por S Pedro e pela Senhora a Encarnação. Os pescadores, sobretudo aqueles que se perdiam meio ano pelos mares do bacalhau em dóris frágeis no meio do nevoeiro encaram a religião como um assunto sério e vivem-na como um perpétuo seguro de vida que eles contratam com um par de santos que consideram mais influentes e próximos de Deus. 

 

Terá sido pois num desses momentos de arrependimento colectivo e exacerbada introspecção que um grupo de cidadãos proeminentes e amplamente conhecidos nos meios boémios da terra entendeu ir, de longada e a pé, até Fátima, coisa que nesses anos longínquos deveria significar oitenta quilómetros bem medidos.

 

Os cavalheiros em causa além de pertencerem a algumas das mais conhecidas famílias tradicionais gozavam da fama (e proveito) de bebedores inveterados coisa que dava muito (e ainda dá, penso...) nas terras pequenas. Nesses tempos benditos em que beber vinho era, sic, dar de comer a um milhão de portugueses a embriaguez só assumia foros de escândalo quando atingia indivíduos socialmente desqualificados que, na via pública, vomitavam com o vinho um rol de palavrões. Isso, vestirem andrajos e cheirarem mal atirava-os para a categoria de bêbados sem préstimo ao passos que os señoritos de que falo frequentavam o Tennis  ou a Assembleia e sabiam qual era a diferença entre o garfo de peixe e o da carne.

 

Foi pois dentre o selecto meio dos que se embebedavam na "Agostinha" e no "Casino Peninsular", que se projectou a piedosa excursão à terra dos três pastorinhos. Os penitentes prepararam com esmero e unção a viagem, munindo-se de uma muda de sapatos meias q.b., bordões peregrinantes e demais impedimenta. Para comer socorrer-se-iam dos estabelecimentos do caminho mas à cautela levavam alguns mimos caseiros num cesto de vime. No que respeita à sede resolveram depois de breve debate que se desalterariam em todas as locandas do caminho. Andar cansa e torna a goela sequiosa de modo que o melhor seria parar sempre que, nessa via crucis, se mostrasse restaurante, venda, taberna ou casa de pasto. 

 

E que beber perguntará algum leitor cuja coragem o fez chegar até aqui. Pois para beber eliminou-se desde logo qualquer bebida gasosa (laranjada ou pirolito) por efeminadas e pouco adequadas a uma jornada sacrificial. O leite foi vetado por não oferecer confiança o que se vendia por aqueles pinhais imensos. Alguém terá mesmo falado dos perigos da febre de Malta e de outras maleitas igualmente perigosas. A cerveja foi cortada por duas razões essenciais: no caminho não deveria haver quem decentemente soubesse tirar uma caneca á pressão (e a cerveja mal tirada é pior que mijo de burra...)  e tendo um efeito diurético forte poderia obrigar algum dos caminhantes a verter águas na via pública com notório escândalo de quem visse.

 

Resta a água arguirá de novo o mesmo e já citado leitor generoso mas inocente. Alto aí e para o baile!  A água fora as propriedades higiénicas que ninguém nega, a utilidade para o regadio ou para a culinária, só é bonita na forma de mar, rio ou lago. Aceita-se no estado sólido se servir para temperar o whisky e no gasoso para saunas. Fora isso, que já é muito esgota-se, aqui o parágrafo água que mesmo em religião apenas serve para baptismos.

 

Há que recorrer ao vinho, maxime a algum dos seus derivados ou destilados se tal for necessário. O vinho está consagrado desde as bodas de Caná, pertence à herança greco-latina, é um genuíno produto português além do que tem efeitos vaso-dilatadores unanimemente reconhecidos.

 

Não posso precisar o dia e a hora em que a comitiva  iniciou a sacra caminhada. Sei apenas que foi a pastelaria Caravela o local de reunião. Aí os peregrinos tomaram uma bica e um cálice de "Carvalho, Ribeiro & Ferreira" na altura a melhor aguardente velha do mercado. Um minuto depois paravam no Nicola para um licor beirão, e logo em frente no "Oceano" para um bagaço. Nos restantes trinta e oito metros parou-se na "Império", no "Astória", na "Peninsular"  e no Arnaldo, cortando-se aí para esquerda, com o fim de atingir o jardim municipal, tomar a marginal do rio até à ponte para a margem direita do Mondego. 

 

Parece, ou pelo menos tudo o leva a crer, que ninguém se terá apercebido aquando da elaboração do roteiro que a R.ª Dr. António Dinis, além do Mercado, do cinema Parque Cine era praticamente ocupada no seu lado esquerdo descendente por pequenas casas de pasto (hoje 40 anos passados muito snakebarizadas e hamburguerizadas, infelizmente). 

 

 A penosa caminhada e as libações sacrificiais a que ia dando azo fizeram com que a marcha penitencial tenha acabado  antes do jardim. Um dos caminheiros teve mesmo que ser socorrido no hospital com coramina, dois outros foram levados a casa por um talhante solícito, um quarto ferrou-se a dormir numa das tascas mais consagradas e como era assíduo só foi acordado onze horas depois a pedido de uma esposa aflita mas conhecedora dos seus hábitos. O quinto vomitou, discretamente, nos lavabos do cinema "Parque cine" e saiu pelo portão da Rª Cândido dos Reis,  subiu, foi comer na "Lagosta Vermelha" tendo-se posteriormente emborrachado de cerveja no mesmo e mal afamado local em companhia de um croupier do Casino. 

 

O último entrou no mercado comprou vários produtos com os quais fabricou um coktail de ovo que ofereceu a vários vendedores. Com eles e numa marcha titubeante ( o licor de ovo é fatal...) saiu da praça pela porta oeste, atravessou a rua e foi encontrado nos baloiços do parque infantil a cantar para um grupo de meninos a imortal modinha

  " Mamã eu quero

    Mamã eu quero mamar

  Dá chupeta, dá chupeta

  pro bebé não chorar..." 

 

 

 

Vai esta para António Pinguel, Ana Leal de Oliveira, os 2 manos Esteves, Mário Vieira de Carvalho, Octávio Correia Ribeiro, Luisinha Novais e Rosa Carlos núcleo duro de um grupo de amigos que começou na praia de Palheiros, entre Figueira e Buarcos, à sombra  do parque Sotomayor. E com uma comovida lembrança do Luís Neves nosso amigo. E à Teresa  Estrela Esteves, idem

 

 

 

 

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