Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 496

d'oliveira, 16.05.22

 

Unknown.jpeg

Um presente do passado tão presente

mcr, 16-5-22

 

acabo de regressar a casa depois de 2 horas que correram velozes, mais depressa do que alguma vez terão corrido.

A culpa desta insólita aceleração do tempo cabe por inteiro a três mulheres a quem me ligam fortíssimos laços de amizade, de ternura, de cumplicidade. 

Subitamente, enquanto conversávamos, assaltavam-me memórias fragmentadas de há mais de cinquenta anos, a bem dizer quase sessenta para ser mais verdadeiro.

Com elas partilhei muito, esperanças, certezas, dúvidas gargalhadas e desgostos. E amigos também, nem todos vivos, nem todos bem mas sempre gente a que confiaria a minha pobre e já longa vida.

É que, nestas celebrações (e o que é um encontro de amigos senão uma celebração?) amontoam-se passado e presente, este visto à dupla luz do que alguma vez sucedeu e do que os nossos olhos actuais mas cansados recordam com maior nitidez.

E, como não podia deixar de ser, atravessa-se, pungente e cruel a sombra da morte. Quando se avança na idade, a morte vai cercando os sobreviventes, carrega-nos de cicatrizes mesmo se, de algum modo, a força da vida manter quem recorda. Há, contudo, alguma urgência nesse exercício, nessa “revisão da matéria dada”, que isto é como o rio do filósofo: nunca mais nos banharemos nas mesmas águas em que mergulhámos.

Não vou dizer, oh estultícia!, que subitamente regressei aos meus vinte anos. Todavia, a ternura, a alegria do reencontro, um indizível conforto, esses estão todos lá.

Também estão as rugas, os sinais claros da idade que não apagam os traços juvenis dos jovens que fomos, antes se sobrepõem de tal modo que, em certos momentos, não temos a inteira certeza do momento em que estamos a viver.

Ganhei o dia, a semana, o mês. Mesmo se ao ver um par de fotografias tivesse de lamentar a falta da minha lupa para reconhecer-me e reconhecer outros que estes olhos já não são o que foram.

A CG diz-me que estou com um sorriso vago mesmo se a máscara (ele está de covid aceso...) me oculte meia cara. Porventura são os olhos de que me queixo que, apesar de tudo, sorriem embevecidos.

Ou então é ela, que já leva quase três décadas a aturar-me, que me tira a bissectriz: as mulheres sabem coisas que qualquer homem nunca alcançará, acocorado a sua fanfarronice e na sua incapacidade de ver, antever, o mundo que o cerca.

O passado, o meu, pelo menos trouxe-me imprevistamente um presente que adoça, ilumina, este presente que vai escorrendo.

Oh que belo dia!

 

 What a beautiful day (hey hey)
I'm the king of all time
And nothing is impossible
In my all powerful mind

 

( eu terminei o texto com uma canção bem mais recente do que uma antiga banda rock, dos idos de 60 cantava. O grupo chamava-se “It´s a beautiful day” e obviamente não é o autor da canção “what a beautiful day” que já é deste século. Porém, sei lá que razões, associo-as sempre. Como se vê, o passado e o presente (enfim um presente também já com um par de anos, teimam em misturar-se. Com esta idade também já vou tendo direito a associações inesperadas) E a vinheta além de uma homenagem ao grupo é um vero retrato daquele nosso tempo.