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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 497

d'oliveira, 19.05.22

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Faltam-me palavras

Mcr, 19-5.22

 

Parece que o PS “está perplexo” com o anúncio feito pelo Sr. Presidente da República sobre a data da visita do Primeiro Ministro a Zelensky.

Perplexo é uma palavra diplomática neste caso. Eu, pelo menos, estou bem mais que perplexo. E por várias razões. A primeira é esta: a que título o sr Presidente entendeu anunciar a data que, convenhamos, deveria ser algo de sigiloso, dada a natureza da visita e as possíveis ou meramente eventuais consequências do anuncio.

A Ucrânia está sobe intenso ataque russo e, no caso em concreto, um avião ou um míssil podem sempre atingir os dois estadistas que se reúnem.

Não que a presença do dr. António Costa constitua um perigo para Rússia pois Portugal, no cenário europeu é irrelevante militarmente. Todavia, neste tipo de situações e a exemplo do que ocorreu com todas as visitas anteriores ao presidente ucraniano, é de bom tom e claramente prudente, noticiar a posteriori o que ocorreu.

Vai nisto, também a segurança de Costa que irá visitar ainda a Roménia e que pode ser monitorizado desde esse país.

Depois, a que título um presidente de uma república se arma em porta voz do Governo e dos passos que este entende dar? É verdade que o dr. Marcelo Rebelo de Sousa foi jornalista mas é suposto que deixou essa nobre actividade há muitos anos e que a comunicação social actual dispensa o seu precioso concurso ou concorrência.

De resto a notícia em si mesma é irrelevante sobre qualquer ponto de vista. A ida de Costa à Ucrânia é meramente simbólica, implica apenas o Governo de Portugal e não necessita de arauto mesmo de um arauto tão altamente colocado. Há neste frenesi do Sr Presidente da República algo de estranho, mesmo de cómico e seguramente de ridículo.

Sª Ex.ª parece sentir a necessidade de constantemente se pôr em bicos de pés ou, pior, de desvalorizar as acções de outrem anunciando-as com antecipação como se as pretendesse desvalorizar.

Eu percebo que ir a Timor para assistir a uma tomada de posse interesse pouco ou nada a imensa maioria dos portugueses, para já não fala do resto do mundo que seguramente não dará qualquer espécie de relevo a esta viagem presidencial.

Provavelmente nem sequer os cidadãos timorenses se sentirão impressionados com a visita do mandatário português. Um Presidente de República, tirando o cargo altissonante, tem pouca ou nenhuma importância para a relação entre Timor e Portugal. Não decide, não pode prometer, qualquer ajuda substancial ou não. Poderá sempre dizer “duas a abater” mas não é um jogador, quanto muito é um “mirone”. E o mirone, sabe-se desde sempre, pelo menos nos jogos de mesa, “está calado e fornece tabaco”. Ou nem isso...

Porém, a perplexidade do PS não é assim tão natural. Será que não conhecem o homem que ajudaram a eleger para o cargo que hoje ocupa? Não recordam a sua voracidade em estar sempre no olho da fotografia, da notícia, mesmo quando, como antigamente, ele entendia criar o facto político e a  respectiva notícia?

Eu, pecador me confesso, não faço, não fiz e duvido de que alguma vez o faça, parto dos eleitores e admiradores do actual inquilino do palácio cor de rosa.

Não lhe nego a inteligência, a capacidade de trabalho ou a loquacidade comunicativa, bem pelo contrário. Mas, mesmo partilhando o mesmo nome (no meu caso já herdado de meu pai por vontade de uma avó demasiado culta para o seu tempo que versejava em várias línguas e lia Espronceda e Vitor Hugo) nunca senti o apelo da simpatia política e, menos ainda, ideológica.

E, como bom leitor do “Expresso” desde o primeiríssimo número, recordo o ataque gratuito a Balsemão a quem Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto jovem falcão jornalista, chamou em momento absolutamente desisnspirado “lélé da cuca”.

Não irei tão longe (eu respeito as instituições republicanas e não uso esses processos e menos ainda esse género de expressões) mas não condenarei quem aproveite a boleia e o brinde da mesma maneira.

Apenas lembraria em latim, que é mais curial entre juristas que usam o nome do famoso sobrinho:

Est modus in rebus.

(para bom entendedor...)

na vinheta: tu Marcellus eris, pintura de Ingres onde se vê Virgílio lendo o seu poema diante de Augusto, sua irmã Octávia e Lívia e celebrando o malogrado jovem que era uma das grandes esperanças do Império e presumível sucessor do imperador.(para os mais curiosos cfr “Eneida”, VI, 863)