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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 505

d'oliveira, 24.06.22

 

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Terna foi a noite

(ou assim o espero...)

mcr, 24, 6,22

 

 

Já não tenho idade, vontade e possibilidade para os folguedos de S João mas tal não me impede de desejar aos outros, aos que ainda tem pernas para andar, cabeça para sonhar, e vontade de ver nascer o sol na praia junto com quem quiserem, que tenham tido uma boa noite de S João.

E que tenham acordado cansados mas maravilhados com a aventura.E com a vida!  Amanhã ou na próxima semana há que voltar à vida de todos os dias, enfrentar as agruras da época que vivemos mesmo que o Verão já nos acene com o sol o mar e o sal.

Que o austero Baptista, transformado num jovial protector de amores efémeros,  é santo milagreiro disso não tenho duvidas pese embora o mei conhecido cepticismo religioso. Mas nasci aqui, noutra terra que festeja com força dois dos santos (Pedro e João) populares, e isso torna-me sobretudo meio pagão e propenso a acreditar em prodígios de toda a ordem.

E ontem não foi excepção. O dia amanheceu carregado de nuvens, a chuva deu-lhe forte e feio pela manhã e fez-nos a todos  os que estávamos a salvo da inclemência, protegidos na esplanada , temer o pior. Mas não! Por obra da natureza gentil ou do santo protector da cidade, o tempo mudou, a chuva partiu para outros sítios, a tarde prometeu uma noite de milagres, as esplanadas encheram-se de festeiros os grelhadores a carvão surgiram por todo o lado, as sardinhas ainda pequenas mas já apetitosas douraram como se devida. Com uma boa salada de pimentos, broa, vinho em abundância , a noite trouxe a acalmia que permite as rusgas, os bailaricos, os derriços, a noite que oferece tudo e a cumplicidade para os amorios. Que Deus, ou apenas S João, seja louvado!

E que para a semana  as gentes de muitas comunidades piscatórias sintam igualmente a benevolência de Pedro para outra noite festiva. Havemos de ver boa parte do Porto deslocar-se para a margem esquerda do rio, para a Afurada, para continuar os folguedos. As gentes desse bairro ribeirinho de Gaia merecem essa pequena bênção.

E nessa população atrevida, marítima e bem disposta, estará de certeza a D. Rosa, peixeira e amiga, bonita e alegre, que sempre me serviu bem e me tratou melhor. Bem se vi que éramos os dois da orla marinha, mais mar e areia que terra boa.

E lá mais para sul, os filhos e netos dos meus companheiros de escola, e eles mesmos se ainda vivos. Que S Pedro vos abençoe a todos é o recado deste exilado numa cidade generosa que só tem um defeito: não é a sua!

 

(os leitores e leitoras repararão que utilizo o plural masculino normal do português com que nasci, cresci e escrevo. É que agora andam por aí uns imbecis, entusiastas da última novidade e da última moda, que (política e imbecilmente correctíssimos), a propósito  de uma coisa chamada, e mal, não binário, querem mudar a língua e a ortografia com acrescentos grotescos e sem futuro. Arre!) 

 

*o título é pilhado a Scott a Fitzgerald não vá alguém pensar que aqui usamos os outros sem cerimónias de qualquer espécie. “Terna é a noite” é um grande, genial romance. A ler urgentemente.