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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 506

d'oliveira, 27.06.22

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Geopolítica a la carte

mcr, 27-8-22

 

 

Sou a favor de liberdade de escrita o mesmo é dizer da liberdade de pensar e dizer o que se pensa.

Conviria, porém, acrescentar que essa liberdade não se deve basear na completa distorção dos factos, na invenção dos mesmos  ou na sua pura e simples falsificação.

Vem isto a propósito de um texto com apelativo título de “A contracção do Ocidente” surgido hoje num jornal de referência.

E só se recorre a essa página bacoca e falsa porque o texto joga (e abusa) com a eventual (e até natural) ignorância de alguns leitores menos versados em História.

A noção geopolítica de Ocidente é relativamente recente e adquiriu alguma solidez no fim da 2ª Guerra  ou melhor, com o início da guerra fria e o consequente estabelecimento da “cortina de ferro”.

Afirmar que a noção de “Ocidente” teria começado durante a época da expansão europeia e consequente colonização efectiva de quase toda a África e boa parte da Ásia (não se inclui as Américas do Sul e Central pela simples razão de que o auge da colonização asiática e africana (2ª e 3ª metades do sec XIX) é relativamente posterior à onde de independências latino-americanas, mesmo se essas independências fossem fortemente condicionadas pela política dos EUA) não tem pés nem cabeça.

Nem os EUAse sentiam especialmente parte de uma comunidade de países europeus de que o mar e a recente independência duramente conseguida os separava, nem a Europa do século XIX se considerava a si própria como um todo. A simples presença da Turquia e do seu Império (que alcançava o mar Adriático) tornava a noçao de Ocidente (tal como a consideramos ) inoperante. É verdade que, em contrapartida o império russo estava fortemente ligado às monarquias europeias mas nessa época a noção de Rússia era ,ainda, mesmo que erradamente , a de um país para cá dos Urais.

Por outro lado, mesmo excluindo, os conflitos nascidos com as ambições coloniais (e foram muitos, relembremos o mapa cor de rosa...) as guerras intra-europeias que culminaram em 1914-18 não são mais do que uma prova que se de ocidente se falava não se tiravam daí quaisquer consequências práticas.

É desta guerra que começa a ser visível a ideia que, mesmo “isolacionista” havia uma potência (de novo os EUA) que mostraria possuir grandes afinidades com alguns países europeus pela língua, pela religião e sobretudo pelo acolhimento de milhões de emigrantes que transformam a ex-colónia inglesa, protestante num melting pot em que se começam a notar as presenças de fortes contingentes católicos (irlandeses, italianos e polacos) de judeus em fuga dos contínuos pogroms de leste bem como de uma cada vez mais significativa presença de imigrantes escandinavos.

De facto, foi a 2ª guerra e, de novo, a intervenção decisiva dos americanos que  deu origem (inclusivamente politico militar, NATO) a uma ideia de Ocidente tal qual (ou pelo menos bastante próxima)  como hoje o pensamos.

Todavia, este Ocidente estava irremediável e dramaticamente marcado por um “Leste europeu constituído pelos países do Pacto de Varsóvia, herdeiros da libertação/ocupação soviética.

É verdade que o comunismo suscitou na Europa ainda em guerra uma preocupação duradoura; que provocou uma muito limitada intervenção anglo-francesa a favor dos russos brancos; que marcou pela desconfiança uma forte animosidade recíproca de que a existência do Komintern não é absolutamente inocente.

É também verdade que as tentações nacionalistas que em certos casos desembocaram no fascismo e no nazismo 8que não são exactamente a mesma coisa) ocorreram em variados países do futuro “ocidente” desde o rexismo belga aos nacionalismos polaco e grego à ameaça de uma virulenta direita francesa (que durante a ocupação teve uma breve aparição graças ao governo de Vichy  e ao idoso mas providencial marechal Petain)  para só referir os de maior impacto. Isto sem falar em regimes nacionalistas Espanha puros e duros como Portugal que subsistiram mais um par de décadas e vieram a engrossar o “ocidente” graças à NATO e ao efectivo receio que o bloco de leste suscitava.

Mesmo aceitando que algumas ex-colónias britânicas mormente a Austrália, a Nova Zelândia (e o Canadá) pudessem em certos momentos ser considerados extensões do “ocidente”  dada a população branca e anglo-saxónica, a submissão à coroa britânica e o regime parlamentar, seria importante salientar que pouco a pouco esses países criaram políticas autónomas e relações particulares com as nações mais próximas

Todavia, nem a China, mesmo quando ocupada parcialmente por potências europeias, o Japão e a Índia que “pertenceu” ao Império britânico até 1948, puderam alguma vez ser consideradas  “ocidente”. O mesmo ocorreu com o Médio Oriente post-império turco ou o Magrebe francês.

E muito menos África que só alcançará a soberania (em territórios criados a régua e esquadro pelas potências colonizadoras) nos anos sessenta foi alguma vez tida ou achada neste xadrez geo-político. Aliás, e a exemplo dos países da Indochina, se alguma influência houve na imediata época post colonial essa influência foi soviética.

A noção de Terceiro Mundo, de países não alinhados  (em cuja criação a China já República Popular teve alguma intervenção ) também não decorre de uma reacção contra o imperialismo mas tão somente de uma tentativa de viver sem especiais problemas com os dois blocos que a partir de 1945 se desenhavam e defrontavam. É bom lembrar que mesmo no bloco de leste houve um país (a Jugoslávia) que tentou – e decerto modo conseguiu- encontrar fortes pontes de entendimento e cumplicidade com os “não alinhados”.

Portanto e para resumir-

O Ocidente nasceu de facto (que não de direito) no fim da guerra com o despontar da guerra fria

Creceu e tornou-se forte e próspero graças ao plano Marshall, aos trinta glorioos anos, as primeiras tentativas comunitárias europeias e à incapacidade do bloco leste levar a cabo uma política que garantisse aos seus cidadãos uma mínimo razoável de prosperidade, liberdade  e felicidade. Tudo veio abaixo com a queda do muro e a implosão da URSS. Porém tudo estava anunciado desde o 17 Junho de Berlin, o levantamento húngaro, a primavera de Praga e o solidarnosc polaco.

Sempre que podiam, multidões do leste debandavam para a Europa capitalista arriscando inclusive a vida. Não houve jamais um movimento em sentido contrário, sequer uma pálida amostra.

Caída a URSS, o que se verificou foi uma irreversível aposta dos países ex-socialistas de se adaptar política, económica e socialmente aos padrões ocidentais dos seus vizinhos. Todos sem excepção ou, caso queiram, com a excepção da Bielorússia.

Em suma: não só o Ocidente parece real mas a sua contracção não existe para já. Diria mesmo que nos planos político e militar o “ocidente” cresce não apenas na Escandinávia  mas também no Mar Negro (a Geórgia também já bate à porta da UE, escaldada que está com a ocupação da Abcásia e da Ossétia do Sul. Pela Rússia evidentemente. Pela Rússia que, neste momento mendiga, solicita a benevolência da China que, tudo indica quer continuar a ser oriental.

E nesse oriente cobiçado pela China, os casos de Taiwan, directamente ameaçada, da Coreia do Sul, da Tailândia ou do Japão, permitem pensar que mesmo não pertencendo ao “ocidente” (a Geografia tem destas coisas!...) há neles uma clara predisposição para se entenderem cada vez mais com o Ocidente que se contrai (provavelmente contai a barriga de riso com a tese da contracção.)

 

 

(os leitores terão reparado que deixei de lado a África e a América Latina. No caso desta última se é visível o declínio da influencia norte-americana – basta lembrar os tiranetes da Venezuela ou da Nicarágua que há quarenta anos teriam sido convenientemente defenestrados por movimentos “populares” soprados de fora, continuam a desgraças os respectivos países e os seus cidadãos cada vez mais súbditos que engrossam as imparáveis correntes de imigrantes que rumam a norte.

Em África, para além da forte corrente migratória para a Europa ex-colonizadora, a hora é, ainda, a de um frágil e túmido estabelecimento das regras da democracia parlamentar, do abandono lento dos regimes de partido único, da criação de uma consciência nacional e do fim, espera-se, dos conflitos étnicos e religiosos qua assolam violentamente um boa dúzia  de países.