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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 507

d'oliveira, 29.06.22

Quando toca a todos, morre solteira

mcr, 30-6-22

 

Refiro-me à culpa como, seguramente, terão adivinhado. E se falo em culpa é porque, nos últimos dias, e a propósito de situações diferentes, alguns articulistas e comentadores vem anunciando culpas colectivas seja a propósito de imigrantes que morrem antes de chegar à terra prometida, seja porque crianças em risco são assassinadas. 

Segundo estas respeitáveis criaturas quando acontece algum desastre e à falta de culpados facilmente identificáveis e identificados, a culpa é de todos.

Uma espécie de “Fuenteovejuna”, versão século XX e despida de tudo o que fazia o fulgor dramático dessa peça de Lope de Vega. Recordemos, uma jovem virgem é  vítima do senhor local. Este será assassinado pelos aldeãos . À  pergunta dos juízes chamados para averiguar os factos, a resposta é unânime: “Fuenteovejuna lo mato”. E, na impossibilidade de castigar toda a gente, o Rei acaba poe mandar arquivar o caso pois não é  ou são identificado(s) o(s) matador(es)  (cito de memória mas suponho que ainda me lembro suficientemente desta peça do genial Lope de Vega.

Na tragédia portuguesa da morte de uma menina de três anos, identificada desde cedo como possível criança em risco e posterior arquivamento do processo, fala-se em culpa colectiva  que vai desde os progenitores, à família alargada, e destes à comunidade próxima, depois ao resto das pessoas sem esquecer uma série de instituições de vária ordem. Falhou tudo porque, eventualmente, um terceiro elemento, outra família   dada como raptora acabou por, à força de maus tratos, de matar a criança.

Um juiz, inteligente e respeitável, digno de consideração pelo bom senso dos seus textos, acaba por alargar tanto o conceito de culpa que se torna impossível ou quase determinar a quem cabe a responsabilidade da tragédia meso se haja, culpados evidentes que terão agido com liberdade e que obviamente estão justamente arguidos. 

No caso das sucessivas levas de imigrantes africanos que morrem na travessia do Mediterrâneo (ou mesmo do Atlântico) devido à fragilidade dos barcos que os transportam e à insensibilidade das mafias que lhes cobram fortes somas pela viajem, também se apontam culpas a demasiados actores. E, no caso, são mais as vozes que acusam os países de destino (na Europa) do que os governos, os regimes dos lugares de onde partem. Depois, há ainda as secas, a falta de emprego, de futuro, de esperança que faz as pessoas lançarem-se  à aventura de procurar, longe e na incerteza, o que lhes falta ali mesmo onde nasceram se criaram e tentam criar os filhos .

Todos, seguramente, recordarão as reportagens de barcos à beira do naufrágio, carregados do dobro ou do triplo da lotação prevista. Ou para passar à América das multidões em fuga de países problemáticos no fim da América central que atravessam a pé todos os países até à fronteira da Terra prometida, os Estados Unidos. O espectáculo seria épico se não fora aterrador: homens, mulheres e crianças caminhando centenas de quilómetros sem quase bagagem, animados apenas pelo sonho americano e esporeados pela fome, pela injustiça e pelo terror. E vítimas, também eles, de máfias locais que os espoliam do pouco dinheiro que tem e que os abandonam logo que os põem do outro lado da fronteira. 

Ainda ontem ou anteontem vimos um camião abandonado, numa estrada secundaria do Texas, verdadeiro caixão rolante onde já se contavam cinquenta mortos e mais umas dezenas de sobreviventes em miserável estado. 

Fora a habitual culpa do imperialismo e aliados, dos americanos em especial, lá vem de novo a teoria da responsabilidade colectiva, máxime de todos. 

E assim, um pacífico cidadão americano ou europeu que se indigna, que é favorável à recepção ou à protecção dos mais fracos fica envolvido pela teia gigantesca  da culpa colectiva. De nada lhe vale o facto de, nas suas parcas capacidades, ter protestado, votado contra leis injustas contra um estado de coisas de que, individualmente não é responsável. 

Eu recuso-me a ser metido no grupo dos executores directos, indirectos ou afins da pequena Jéssica. Recuso-me a ser culpado pelo que em Odemira se faz ou se fez aos trabalhadores indianos e nepaleses que se amontoam em casassem condições mas a preços elevados. Menos ainda aceito ser responsabilizado pelos maus tratos da polícia, da guarda republicana, pela indiferença da câmara municipal  ou pela velhacaria de algum patrão. 

A menos que achem que, sozinho, poderia pegar numa bomba e ir por aqueles sertões liquidar os maus da fita. 

Portanto vamos destrinçar as coisas e as responsabilidades. Que há situações infames ninguém duvida. Que se deve, a todo o momento, tentar solucionar o problema é óbvio. Que os culpados, uma vez encontrados devam ser punidos também não merece grande reflexão. Porém, convirá não perder de vista as árvores e muito menos confundi-las inocentemente ou não, com a floresta. 

Para a culpa não morrer, outra vez, solteira...