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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 519

d'oliveira, 04.08.22

 

 

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Cerejas em Agosto

mcr, 4-8-22

 

 

Adoro cerejas, quase tanto quanto laranjas que são,desde há dezenas de anos, desde sempre, quase, a minha companhia ao pequeno almoço e quase sempre que como fora (tenho uma atévica desconfiança quanto às sobremesas nos restaurantes pelo que aproveito e peço uma laranja que tem a vantagem de já vir descascada.

Todavia, laranjas há quase todo o ano enquanto as cerejas (pelo menos as nossas do Fundão ou de Rezende) tem data marcada e prazo limitado, Maio e com sorte uma ou duas semanas de Junho.

Porém, desta vez ainda cá em casa há cerejas. A culpa é da pandemia. Habituamo-nos a encomendar boa parte dos vegetais e a fruta de uma mercearia que, ainda por cima, nos traz as compras a casa. Com isso, folgo eu que sou o criado das compras que a CG não está para esses trabalhos e ainda bem.  Quando “generosa mas raramente, se oferece para ir comigo ao supermercado é uma via crucis. Ela vem armada de lista de compras mas, uma vez chegada ao local, começa por declarar que tem de ver tudo “pois desconhece” aquela loja. Isto quando é sempre a mesma. Depois de examinar minuciosamente prateleira após prateleira vai enchendo o carrinho de uma quantidade ameaçadora de artigos que não constavam da lista. Tudo isto leva um tempo tremendo e esgota-me a pobre paciência. Ao fim da provação lá terei de carregar tudo mesmo antes de ter tomado o segundo e merecido café da manhã. Portanto a triunfal chegda do moço da mercearia cá a casa é celebrada efusivamente por mim. Os preços, na generalidade, segundo a CG e a nossa amável, alegre e excelente empregada não excedem os do super. Claro que a senhora da mercearia entende sempe mandar mais do que foi encomendado mas isso não me afecta. Ao fim e ao cabo, as coisas comem-se.

E entretanto as cerejas: estamos na primeira semana de Agosto e, à vista desarmada prevejo que teremos cerejas pelo menos mais uma semana!

Que é que se passa com a frutinha vermelha?  Não creio que venha de longes partes pois o preço está dentro dos parâmetros cerejais. Será que há cerejeiras a dar fruto pelo Verão adentro?

Mas, deixemo-nos de perguntas ociosas e passemos ao dia a dia. É a notícia do barco carregado de cerais que, eventualmente, inaugurou duas coisas importantíssimas: um paliativo à fome no mundo graças o cereal finalmente chegado a toda uma série de destinos onde faz falta  e a interrupção do criminoso bloqueio dos portos ucranianos. E, já agora, a possibilidade desse país agredido por uma horda de soldados indisciplinados e ladrões  (sobre isto os “nossos russistas” moita carrasco! Assobiam para o lado...) esta saída de produtos ucranianos traz ao país um pequeno alento económico. E isto, esta breve mas esperançosa novidade é uma cereja de Verão.

E faz-me lembrar outros e velhos (oh quão antigos) tempos em que, também nós, a geração do fim da guerra, cantava, desafiadora

Quem te pôs na orelha

Essas  cerejas, pastor?

São de cor vermelha

Vai pintá-las de outra cor!

Trata-se de um poema de José Gomes Ferreira e a música, julgo, será de Fernando Lopes Graça. Não garanto que esta canção de combate com tantas outras, tenha sido fruto de uma estadia de vários neo-realistas numa propriedade de João José Cochofel, no Senhor da Serra.  Era também essa, uma época de esperança que levou trinta anos a concretizar. Também nesse tempo, as probabilidades eram contra a frágil “Resistência” portuguesa.

O regime do Estado Novo gozava dos favores populares graças à neutralidade durante a guerra,  uma censura eficiente, à lembrança dos desastrosos dias da 1ª República. A população suportava a ditadura e as caóticas sublevações do “reviralho” pouca mossa faziam. Era “pronunciamentos” militares mal organizados, com fraca ou nula base popular que morriam na praia ingloriamente. E a cada derrota, somavam-se mais e mais amarguras, mais e mais desconfiança nos restos dos partidos republicanos, melhor dizendo no partido “democrático” que não soube ou não foi capaz de exercer o poder quase absoluto de que usufruiu ( e que muitas, demasiadas, vezes exerceu com violência  através de milícias – “formiga branca” que aterrorizavam adversários e vagos aliados. Convenhamos que 51 governos em 16 anos é um sinal  de que algo não funcionava.

Mas nós, estudantes e arrebatados pela esperança e pelo desafio, cantávamos as velhas cantigas do MUD Juvenil e um farto número de modas populares

A beira do rio nascem

qioletas ao comprido

Já me vieram dizer

        que queres casar comigo

 

Casar contigo sim

Mas por ora ainda não

Amanhã por esta hora

Te direi se sim ou não

.................................

 

a imagem do barco a cruzar o Bósforo levou-me sei lá por que ínvios caminhos a recordar outro tempo é certo mas a mesma incansável esperança, o mesmo enternecido entusiasmo. E recordar, já agora, três amigos  dessa época que puseram em música muito, tudo o que sonhávamos: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e José Mário Branco. E ainda um quarto, também amigo de tantas noites alvoroçadas e coimbrãs: António Portugal, um prodigioso guitarrista, modesto mas convictamente democrata e resistente.

E, já agora, outro, também companheiro das mesmas lides, José Niza. Nenhum deles por cá anda mas a dívida da música portuguesa a estes  e outro meus amigos é imensa. E a dívida dos democratas portugueses também não é menor

 

Na gravura: Casa do Senhor da Serra agora a ser recuperada pelo musicólogo António Cardo.