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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 532

d'oliveira, 27.09.22

Uns perderam-se no labirinto, 

outros aguardaram a sua vez 

à sombra do passado

ou a Direita tem memória e à 

Esquerda sonha com um futuro incerto

 

mcr, 27-09-22

 

Italia bella mostrati gentile

ed i figli tuoi non li abandonnare...

(canção tradicional utaliana)

Isto até poderia chamar-se “tanto se esganiçaram a berrar que aí vinha o lobo que, quando este apareceu, não o reconheceram.

Em se tratando de política italiana, terra com notáveis pensadores políticos e plena de experiências de toda a sorte durante séculos de repúblicas, reinos, ducados e grão-ducados, condottieri   sempre prontos, anarquistas e revolucionários, fica-se com a impressão de que no país que viu nascer a ópera tudo é possível. 

Provavelmente nem sequer é uma impressão mas a simples verdade. O resultado das últimas eleições  não é um acontecimento imprevisível mesmo se, desta vez, três distintas e irreconciliáveis Direitas apareçam momentaneamente unidas e prontas (?!) a governar. 

Com uma surpresa: desta vez há uma mulher pronta a comandar os destinos de um país onde, com raras excepções, as mulheres pouco ou nada tiveram a ver com a política. 

Sei que alguém, que alguma vez perdeu o seu tempo a ler-me, me apontará dois ou três textos em que referi, com amizade e admiração,  Rossana Rossanda e Luciana Castellina duas grandes senhoras da esquerda italiana no terceiro quartel do século passado. Ou mais efemeramente uma senhora Virginia Raggi que foi presidente da Camara de Roma ou as duas netas de Mussolini, Alessandra e Rachelle.

Todavia, em Itália, mesmo agora, há uma cultura anti feminil que atira com as mulheres para muitos lugares (o cinema, a escrita) mas raramente para a política. Que, num país em que vigora, mesmo que actualmente subterraneamente, a ideia de que só há duas mulheres a respeitar, la mamma e a irmã (e ocasionalmente a esposa), ideia que os italianos mais pruentes atribuem à mesmíssimas mães dos cavalheiros que põem e dispõem no pais, apareça uma mulher a reclamar o lugar de primeira ministra mais do que uma novidade é um prodígio, um milagre. Meloni,a conservadora, a senhora do “Deus Patria e Família, vive maritalmente com o pai d sua filha mas, espantem-se, não é casada com ele. Jura por Reagan e João Paulo II  oque não a coloca tão à direita como se pretende mas é contra toda uma série de “conquistas” sociais,  que ela considera imorais e “não italianas (no que talvez não esteja tão enganada como se poderia pensar). É verdade que nasceu para a política nas hostes das juventudes da extrema direita (MSI e vizinhanças) mas recusa quaisquer conotações anti semitas, está contra Putin econtra a invasão ao mesmo tempo que reclama para a Itália maior independência económica e financeira da UE.

Em suma, é claramente de Direita mas está por provar (e só a prática o demonstrará) que se posicione na Extrema Direita como Salvini. 

O grande problema italiano, para quem seguiu entusiasmado o percurso do país a desde os anos sessenta é que não parece ser a Direita que se levanta mas a Esquerda que se foi destroçando com uma rara eficácia e constancia. 

Em traço grosso os últimos anos cinquenta os sessenta e os setenta, os anos do “miracolo italiano”, da afirmação da Itália na Europa e no mundo,  os anos da lambreta e do fiat 500, da grande emigração do sul para o norte (e para a Europa), mostram um país governado por uma poderosa (e legitimada pela Resistencia) Democracia Cristã que sempre percebeu a vantagem de se apoiar nos pequenos partidos à sua Ddireita e à sua esquerda, combatendo com grande eficácia o poderoso Partido Comunista Italiano (também ele uma excepção no movimento comunista internacional graças à independência “possível mas real” dos seus líderes desde Togliatti a Berlinguer) e divertindo-se (é o termo justo) com as desventuras do movimento socialista italiano. Por alto e sem fazer o esforço de noticiar as tropelias tácticas, estratégicas, as luttas de personalidades, as alianças e as traições, as fusões e as (muito mais numerosas) cisões, o panorama do socialismo italiano apresentou no mínimo três partidos todos socialistas todos irreconciliáveis: o PSI, o PSDI e o PSIUP (2ª fase) que a primeira é que foi a antepassada do PSI que aliás também se chamou Partido Socialista dos Trabalhadores Italianos. Note-se que nestes diferentes partidos havia um conjunto de personalidades notabilíssimas desde Pietro Nenni a Saragat, desde Emilio Lussu a Ignazio Silone,  até Sandro Pertini o mais amado dos presidentes da república italianos. Homens com notável passado político, revolucionaio e resistente; políticos com ideias excelentes e inovadoras; democratas convictos e generosos. Mas incapazes de se juntar entre si, bem pelo contrário. 

Em boa verdade também os pequenos partidos italianos, o Radical, o Liberal e o Republicano viram sempre os seus percursos unterrompidos no exacto momento wm que os acasos d política e das eleições os beneficiavam. As vitórias sempre precárias davam origem a toda a espécie de cisões que tornam quase impensável fazer a história sucinta destes 30 anos que referi. 

Também é verdade que a omnipresente e quase omnipotente Democracia Cristã foi alvo de lutas intestinas graves mas, nisso a Direita sabe-a toda, sem pôr em causa o controlo do partido sobre o país. Mais, quando foi preciso, a DC pôs em prática políticas de aliança de centro esquerda como meio de conter alguma duvidosa aliança dos socialistas , fossem eles quais fossem, todos ou só um, com o influente PC. (que também tinha as suas correntes internas como é obrigatório em Itália. A começar pelos emilianos, de forte tradição católica. (Valeria a pena aqui, citar, Giovanni Guareschi o autor das aventuras de D Camilo e Pepone que, mesmo sendo um jocoso ataque aos comunistas tem um fundo de verdade notável. E mais: não é odioso para os comunistas antes os apresenta com bonomia).

O fim dos anos sessenta e sobretudo a primeira metade de setenta viu como este mundo ruia. O assassinato de  Aldo Moro, a morte de Berlinguer  a temível rede negra dos fascistas bombistas, a conspiração maçónica  (melhor dizendo de uma rede que usando a loja P2 como centro de direcção clandestina)  na DC a par com a violência policial repressiva deu “direito de nação” a diferentes grupúsculos de extrema esquerda  que, muito italianamente se criavam como cogumelos e multiplicavam como coelhos. Os índices de violência política, os atentados, os tiros na perna, os assassinatos  mergulharam todo o nore e centro da Itália num medonho ajuste de contas que não diferenciava os inimigos: morreram sindicalistas, militantes socialistas, demo-cristãos e comunistas sempre em nome de uma, aliás várias, linha revolucionaria a que as massas italianas e sobretudo os trabalhadores (em nome dos quais se combatia) assistiam horrorizados.

Ainda hoje, há processos pendentes, prisioneiros a cumprir pena, pedidos de extradição vindos desses anos violentos.

Junte-se a isto que não era pouco, bem pelo contrário, a lenta decomposição dso partidos tradicionais todos eles desaparecidos , desde os socialistas cujo último dirigente conhecido (Betino Craxi) acusado de corrupção optou por fugir e morreu no exílio, até à DC e ao PC  de onde alguns não demasiados militantes conseguiram sair e formar um novo partido (PD) que mesmo central na Esquerda nunca conseguiu obter a popularidade e a massa militante semelhantes ao antigo partido.  

Em números claros, a Esquerda italiana é hoje menos de metade do que era nos anos que referi. 

A direita (DC) caiu por esgotamento (entre outras problemas e sempre pela corrupção) mas a Esquerda soçobrou  por incapacidade estratégica e por uma desenfreada violência política que, mesmo marginal e em certo modo limitada horrorizou a sociedade. E claro, a corrupção...

Não é um caso singular. O mesmo se passa em França onde os partidos comunista e socialista quase se evaporaram enquanto a extrema Direita foi gradualmente conquistando terreno (na maior parte nas zonas ex-comunistas) provando que o cordão sanitário teve poucos anos de êxito. Em boa verdade, convirá lembrar que o afundamento do PC foi-se tornando evidente devido ao crescimento de um PS que Miterrand criou a partir de uma SFIO  que também ia desaparecendo. E o Centro-Direita francês também está em forte crise como se viu na última campanha eleitoral. 

Ora julgo, mas teremos tempo para voltar a este apaixonante tema, que as raízes desta crise que assume foros de escândalo com Giorgia Meloni, deve ser procurada na grande crise dos finais do século passado. Para além, evidentemente, dos novos dados e dos novos desafios a que se assiste. E de uma constatação simples: a Esquerda soube sempre dividir-se, mas foi igualmente incapaz de encontrar as pontes mínimas para criar uma política que suscitasse o entusiasmo dos eleitores. Não é por acaso que esta eleição italiana registou um número recorde de abstenção.

 

Em aparte:

Talvez conviesse, em Portugal, pensar nisto...

Eu não temo o Ventura mas apenas a desilusão e a indignação dos eleitores. Não é o “sistema” que está em causa. É que est

ão a fazer com o “sistema”!

Segundo aparte: mesmo sem ser italiano, eu perdi as eleições italianas. Começo a habituar-me pois também perdi as francesas e as suecas... Eis-me de volta aos velhos anos mas sem o viço da juventude. 

Arre!