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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 533

d'oliveira, 02.10.22

In a dubious battle

mcr, 2-10-22

 

Socorro-me de um título de Steinbeck, autor que merece ser mais recordado do que actualmente é e que nos deixou uma boa dúzia de excelentes romances, além de um livro de viagens (“viagens com o Charley” que era apenas um cão) por uma América que ele conhecia bem e um de crónicas de guerra sobe o tempo que passou como jornalista na URSS.

Neste momento há várias batalhas de resultado mais que incerto e desde logo a da Ucrânia que, contra ventos e marés e o inconfessado desejo de russistas, nostálgicos da URSS e aliados nacionais, “nossos”, vai empurrando a horda invasora e rapinante para o buraco de onde surdiu. (note-se, para evitar os habituais truques, que eu não nego que no Donbass e na Crimeia não houvesse importantes minorias rrussófonas e com uma impetuosa mas irracional de se juntar ao quebra-cabeças da federação russa. Todavia, todos os resultados eleitorais anteriores à invasão davam claro sinal que essas minorias eram só isso, minorias e não representavam a vontade global dos habitantes das regiões onde, agora, decorreu o referendo fantoche.

E, antes que me esqueça, convirá relembrar para as orelhinhas moucas que os êxitos ucranianos recentes não se devem apenas às armas recebidas que, no entanto, foram importantíssimas. 

As guerras também se perdem se um dos lados estiver desmoralizado. E mesmo num regime autocrático como o actal, na Rússia (e sobretudo nas repúblicas muçulmanas e limítrofes, todas pobres, paupérrimas) é pouca a vontade de morrer em nome do russo branco, eslavo, ortodoxo e colonizador. E isso vai-se vendo na desenfreada e precipitada fuga de russos para países vizinhos com o fito único de escapar à mobilização.

A segunda e preocupante batalha a que se assiste passa-se nos confins do Burkina Faso, república africana, pobre mas rica em militares ambiciosos que por dá cá aquela palha tentam o seu golpe de Estado. Não é que seja caso único mas, desde há uns tempos é um caso recorrente. Não vale a pena perder tempo em saber o nome do actual oficial golpista pois ele será em breve substituído por outro e assim sucessivamente. Estaria aqui um forte tema para as nossas cronistas anti-racistas e “afro-descendentes” que vivem no quentinho europeu long da balbúrdia, das eventuais origens, dos povos que precisam de elites e de professores, educadores, cientistas e tudo o resto. Nada feito: quem pode foge, deserta e vem pregar para a terra dos “racistas” dos colonialistas e dos imperialistas...

A terceira batalha diz-nos mais respeito porque é no Brasil. Relembremos que este país é independene há dois séculos o que torna qualquer acusação contra o antigo colonizador um tanto ou quanto disparatada. Sobretudo quando se conhece a real e escassa apreciação dos brasileiros por Portugal e pelos também cada vez menos portugueses que para lá emigram. 

No caso emm apreço, já aqui citei o único slogan razoável da campanha: “Vote num e livre-se de dpos”, era a palavra de ordem do terceiro candidato. Homem com programa e sem o peso tremendo de um passado. De todo o modo, os campos que estão em confronto mostram um Lula envelhecido e um Bolsonaro boçal até dizer basta, autoritário e com fama de ter usado a presidência para se favorecer a si mesmo, à família e a um círculo próximo de amigalhaços.

Também já aqui deixei dito, e não me arrependo, que a escolha está entre a sertã e o lume vivo. 

Mesmo aliviado de um par de acusações por falta de prova, Lula não foge a tudo o resto, ao mensalão e a uma desenfreada corrupção que envolveu, também ela, amigos, conhecidos e protegidos. Ou seja, o caso Lula é uma prova de que um passado militante, lutador e operário não previne um futuro duvidoso . É que os operários são feitos rigorosamente da mesm massa dos restantes membros da nação, militares, empresários, negociantes, canalhas ou povo ignorante e analfabeto. 

Só nos romances stalino-jdanovistas de saudosa memória é que uns são intrinsecamente bons, angélicos, perfeitos e justos e os outros uma seita de bandidos saídos das profundas do inferno e do (já cá faltava) imperialismo.

A eleição deve estar prestes a começar e há a indicação de que Lula ( candidato mau mas menos mau) pode ganhar à primeira volta. Depois, o que acontecerá depois é uma incerteza absoluta. Bolsonaro, os capangas armados, os evangélicos a tropa, os motards e muita gentinha da “alta” aceitarão placidamente o resultado ou virão para a rua? 

De certo modo esta hipótese tem pés para andar, dadas as ameaças claras feitas pelo capitãozeco que a loucura e os desastres de Dilma levaram ao palácio do Planalto.

Quem estas vai escrevendo ainda se lembra de Getúlio Vargas, de Kubitscheck, de João Goulart, de Jânio quadros, o “vassourinha” e dos generais que o correram não à vassourada mas apoiados em tanques e metralhadoras.  

Por pouco que o Brasil me diga, malgrado os familiares distantes que por lá tenho, malgrado os grandes enormes escritores que no Brrasil florescem mais depressa do que os capangas, malgrado os artistas, os arquitectos, muitos jornalistas e gente de bem, ainda há o factor de uma língua vagamente comum enlameada por um acordo imbecil que no Brasil não é respeitado (enquanto cá os deputados parecem acocorados diante de uma radiosa visão que só eles enxergam...), acaba (tudo isto) por me fazer alguma espécie. 

Uma tira de banda desenhada diária no Público adverte que esta eleição pode correr mal ou muito mal.  Dando-lhe o devido crédito não me conformo que apenas corra mal. Lamento muito mas, se fosse brasileiro, o meu voto ia para Ciro Gomes o terceiro candidato. 

Há derrotas decentes melhores do que vitória não recomendáveis.