au bonheur des dames 540



O africano que se orgulha de África
mcr, 28-10-22
por razões de vária ordem fiquei preso a África desde os meus longínquos 13 anos, altura em que a família foi para Lourenço Marques.
A ideia de abandonar a minha terra, os meus amigos, a paisagem familiar começou por me aterrorizar e, sobretudo, entristecer- Porém, bastou-me a primeira visão da baía enorme e das margens e ilhas que a fechavam bem como a visão da cidade para depressa me converter aos trópicos.
E, durante os três anos do 2º ciclo dos liceustive a oportunidade de viajar um pouco e de conhecer o Norte, mais propriamente o chamado distriyo de Moçambique para onde fomos, estava eu já no quinto ano. Não posso dizer que tivesse ficado a conhecer todo o enorme território mas como o meu pai tinha amigos e conhecidos em várias, muitas, circunscrições tenho ideia que me falya pouco para ter viajado por todo o distrito que, por comodidade, chamávamos de Nampula, incluindo a costa e particularmente a belíssima ilha de Moçambique, na altura quase um museu vivo da primitiva ocupação portuguesa.
Entretanyo, depois de fazer o 5º ano, foi decidido que regressasse a Portugal (à “metrópole”) em vez de voltar a Lourenço Marques para terminar o liceu. Os meus pais lá desconfiavam, e bem, que um rapazola sozinho naquela cidade pintaria a manta.
Voltei pois aos cinzentos dias (para quem estava habituado ao sol africano) portugueses e só por altura de férias (e nem sempre) voltei a pisar solo africano.
Todavia, nunca esqueci àfrica, os cheiros africanos, s cores, o Índico e a vida diferente que um jovem “colono” lá levava. Para os brancos, a vida era fácil mesmo se as pessoas trabalhassem como em qualquer outro lado. Mas o regime colonial tinha obviamente facilidades que noutro lugar na “metrópole” precisamente, não existiam. Uma imensa população negra encarregava-se (melhor: era encarregada, forçada, obrigada) dos trabalhos pesados e mal pagos. Não eram cidadãos mas mera paisagem. Não iam à escola muito menos frequentavam o ensino secundário, a menos que fizessem parte do pequeníssimo grupo de “assimilados” que, mesmo assim não tinham um estatuto que, mesmo com generosidade e ingenuidade, se pudesse qualificar de decente.
Por acaso, porventura por não ter disso criado na colónia, ou por eventual virtude própria, não só nunca me considerei superior a qualquer outra pessoa fosse qual fosse a sua cor, a sua língua ou a sua religião mas, bem pelo contrário sempre me fui interessando por aquele estranho, obscuro, misterioso mundo. Tentava aprender o máximo de palavras nos dialectos e línguas que nos cercavam, perceber a realidade que quase toda a gente desprezava.
Não se pode dizer que tenha ido muito longe nessa pesquisa adolescente mas alguma coisa cá ficou. É dessa altura que me vem à lembrança certos poetas africanos que timidamente se acolhiam aos jornais em circulação (Craveirinha, Noémia de Sousa e mais alguns outros quase sempre brancos mas tocados pela magia do trópico – e nesse grupo incluo Fernando Couto, pai do Mia que mesmo não sendo um poeta excepcional escreveu o belo poema “o medo e a esperança” de que dou os primeiros versos
Tranquilo e devagar entro na aldeia
de mão ao alto aberta em sinal de paz
Desertas e contudo palpitantes
se encontram ainda as palhotas
E nessas primeiras leituras coloniais fui-me apercebendo da ferida aberta,na altura ainda invisível para um rapaz recém-chegado.
Foi apenas quando cheguei à Universidade que, mais apetrechado de leituras sobre África , que comecei a perceber e toda a sua extensão o temível “fardo” de vergonha “do homem branco” moçambicano. E o meu interesse sobre África redobrou muito para além da guerra que se aproximava.
Ao longo dos anos fui reunindo uma biblioteca sobre temas africanos que andará já nos 50 metros lineares de estantes(quem quiser perder tempo que calcule o número de livros que aí cabem).Uma boa parte diz respeito à “expansão portuguesa” (venerável e falsa palavra que só uso por comodidade ) dividindo-se o resto em textos de História, de Arte, ficção e poesia. Pelo caminho, graças aos cuidados da PIDE & correlativas forças de “segurança” terá desaparecido mais uma centena de obras das mais diversas.
Nos últimos anos, devido ao aparecimento de uma galeria de arte africana no Porto fui constituindo uma pequena colecção de máscaras e estátuas africanas que agora está a ser devidamente fotografada e preparada para um site na internet, quiçá um livro e um álbum. A colecção foi sendo feita sem critério de qualquer espécie ou com um: se a peça me agradva e estava dentro de um preço razoável, era adquirida. O que significa que, pelo caminho, ficaram muitas e belíssimas obras que a prudência e o bom senso (e a falta de cacauzinho) desaconselhavam.
Muitas dessas peças comprei-as na “African Art” uma galeria situada no Porto e competentemente dirigida por S M Keita, um cavalheiro do Mali, sabedor, simpático e entusiasta.
Está por cá ha mais de vinte anos, granjeou uma freguesia interessada e obviamente vende de tudo um pouco , desde pças de colecção até outras menos interessantes mesmo se normalmente genuínas.
Agora deu-lhe para organizar as colecções dos clientes e eventualmente organizar álbuns com copiosa informação e identificação das peças e da sua origem étnica e geográfica. Hoje, ao passar por lá para entregar uma peça que não fora fotografada, mais precisamente uma estatueta Yombé (Cabinda ou RDA). E deu-me para fazer um par de fotografias com o telemóvel apenas para dar uma ideia da loja.
nas vinhetas, de alto para baixo:parede com máscaras variadas; grande fetiche (+ ~1,5 m) parede das marionrtas Bozo (peixes epássaros)