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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 552

d'oliveira, 08.12.22

 

 

 

 

Do uso imoderado do protesto juvenil

mcr, 8-12-22

Como observava um velho amigo de outras e duras guerras que olhava os jovens ambientalistas de Lisboa: “olha-lhe para os ténis e pergunta-lhes de que matéria fóssil são feitos!

Os doentes infantis que nunca leram Lenin e menos ainda (e pior) Marx, voltam às velhas receitas ou então: deixam tudo a flutuar num nevoeiro ideológico que nem sequer é sebastiânico. 

Ao contrário do ye presunçosamente alguns médios e pequenos comentadores avançaram,  os pequenos episódios de algumas dezenas de estudantes dos ensinos secundário e universitário a ocupar escolas demoraram escassos dias  nem sequer todo o tempo da Conferência dobre o clima que ocorria no Egipto. De certo modo, compreende-se a curta duraçãoo do movimento: à uma (e infelizmente) aquela luta não é d da juventude, sequer de uma significativa parte dela. Depois, percebe-se mal o porquê da ocupação de espaços escolares. Pior: verifica-se que tal acção, mesmo com o apoio babado de um par de directores de estabelecimentos, não tocava a comunidade atingida nem sequer o acto era percebido como algo intrínseco à escola e aos problemas (e são muitos, basta lembrar a questão das residências estudantis) da comunidade discente. 

E veja-se qu e nem sequer o apelo às forças policiais no caso da Faculdade de Letras suscitou uma significativa indignação estudantil. A polícia entrou, agarrou em meia  dúzia de mais teimosos e evacuou a faculdade sem que daí se tivesse seguido um protesto claro.

Não se põe em questão a legítima preocupação com o clima, a necessidade de mudar as regras do jogo. Todavia, verificou-se uma absoluta ignorância no que toca ao modo e aos prazos do abandono dos produtos fósseis. Nem sequer se viu alguma mesmo ténue discussãoo sobre o momento actual, as consequências da invasão da Ucrânia, o corte do petróleo e do gás russos e os problemas que isso poderá acarretar durante o inverno que se aproxima.

Também foi notória a absoluta ignorância acerca das medidas a adoptar no momento actual e nos próximos tempos porquanto sabe-se perfeitamente que o recurso às energias oriundas do sector fóssil ainda tem longos anos pela frente. É preciso resolver toda uma série de problemas no que toca ao uso continuado e único das energias “limpas” mais ainda do hidrogénio verde. Também, e concomitantemente, não se ouviu uma palavra sobre a reciclagem do plástico e a consequente despoluição dos mares.

Aliás, nem sequer se ouviu  uma simples alusão à problemática da energia atómica  (não se está aqui a fazer a apologia dessa energia, fique claro. Apenas se pergunta qual o “estado da arte” e se recorda que em vários países europeus a crise energética é abrandada pelas centrais nucleares para não falar na reabertura de centrais a carvão. De outro modo o inverno seria temível).

Finalmente, uma das mais patuscas (e esparvoadas) reivindicações de alguns ocupantes estudantis  consistiu na exigência de demissão do Ministro da Economia que, para além d muitas outras tarefes (incluindo a de professor universitário)esteve ligado ao sector petrolífero da Gulbenkian. Só admira que esta instituição não tenha sido ocupada ou, pelo menos, algumas peças do seu museu bombardeadas com sopas Knorr...

Os estudantes que o Ministro recebeu nada tinham a dizer-lhe senão a palavra “Rua!” Convenhamos que é pouco, muito pouco  e, sobretudo, patético.

Não tendo nada contra as preocupações juvenis pelo clima mas fico um pouco espantado pela ausência de significativas manifestações sobre a Ucrânia, o Irão ou a China no que toca à repressão em Hong Kong ou contra o povo uigure.

Como afirma  o amigo citado no início, “estas lutas não são exactamente as que mais convirão  a certas franjas da esquerda radical, sequer do PC. Daqui até aceitar que estas movimentações climáticas sejam apenas fruto da jota do BE ou de grupos vindos do Livre e de alguma outra organização. semelhante vai um passo que não darei-

Quem teve oportunidade de assistir às reportagens televisivas desse breve interlúdio contestatário, seguramente que se deu conta de um outro facto curioso. O constante recuso aos telemóveis que como se sabe dependem de baterias de lítio contra cjua extração se mobilizam populares das futuras áreas de mineração de tal minério.

Enquanto modesto, modestíssimo, usuário de telemóvel  não serei eu quem condene o silêncio da juventude quanto a isso mas que o objecto é fonte de uma medonha corrida anti ambiental não há dúvidas. Simplifiquemos com o velho nariz de cera: tudo isto são contradições do capitalismo... e passam com o tempo e o fim da puberdade. 

Todavia, como também já assinalei , não é contra essas dezenas ou centenas de jovens que me insurjo, É verdade que deram mostras de uma forte incultura política, manifestaram uma indesculpável impreparação, erraram o alvo da movimentação e das ocupações. Mas se culpas se podem apontar elas devem ser dirigidas na totalidade às máquinas partidárias que os mobilizaram, à incapacidade destes grupos políticos darem uma qualquer, mesmo que ligeira, preparação política e cidadã aos jovens que mobilizam e que usam com uma desfaçatez gritante.