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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 609

mcr, 06.12.23

 Arre que está frio

mcr, 6-12-23

 

Hoje na esplanada toda a gente dizia que o frio era de rachar. Em boa verdade, não se enganavam. Às primeiras horas da manhã, leia-se das dez para as onze,  os telemóveis andavam entre os 9 e os 10 graus.  Havia um aquecedor pequeno e a funcionar no nível mais baixo  ou seja, para aquecer  as 10/!2 mesas ainda era preciso esperar mais uma ou duas horas.

Eu, friorento, me confesso: estava bem artilhado de roupa ( o adjectivo foi-me fornecido por um cavalheiro militar, major reformado, que pela manhã faz as palavras cruzadas do jornal mesmo antes de o ler. No resto é uma excelente criatura e, cereja no bolo, um bom jogador de bridge... coisa que era comum entre os oficiais de antigamente).

Com a idade a resistência ao frio diminuiu. Felizmente posso dar-me ao luxo de comprar roupa quente e suficiente para enfrentar o "briol" que, ao que dizem vem da Sibéria. Bem se vê que dali nem bom vento nem bom casamento...mesmo que isso dantes se aplicava a Espanha.

De todo o modo, os restantes paroquianos das manhãs estavam todos bem agasalhados inclusive os mais novos e os empregados que nos iam deixando cafés e demais bebidas quentes. 

Isto, no dizer, de um artista plástico também já bem entrado em anos, era Portugal por uma pena. Verões abrasadores e agora quase sem se dar por isso frios invernos mesmo se para o inverno ainda faltem quinze dias.

Do resto do mundo chegam imagens tremendas: cheias nas Filipinas e no sul d Índia, nevões homéricos por essa Europa fora. Lembrei-me logo do primeiro nevão que passei em Berlin no longínquo ano de setenta. A João, minha mulher nessa época enlouqueceu e saiu para o pátio da residência estudantil com um casacão vermelho e até se rebolou na neve. Eu, mais fleumático e sem casaco de qualquer cor limitei-me a ver os flocos caírem enquanto fumava um par de cigarros. Depois, retirei-me pra sítio menos refrescante abandonando a legítima  à neve que caía ininterrupta

Ou snt les neiges d'antan?  

(e onde estará a muito casta Heloísa por causa da qual Pierre Esbaillart foi castrado?)

Como é que me fui lembrar de Villon, esse poeta três vezes maldito e mil outras glorificado por inteiras gerações de amadores da poesia e estúrdios rapazolas que devotaram parte da sua oisive jeunesse à gaudriole tão propícia a quem só tem pela frente o futuro e a aventura?

O que faz o inverno antecipado a quem já entrado no inverno da sua vida relembra alvoroçado  uma mocidade longínqua mesmo se balizada pelos tempos escuros 

(e aqui poderia citar-se Brecht que roga aos humanos que depois dele vierem alguma piedosa compreensão pela sua sacrificada geração)?

Aqui chegados (cite-se por uma e única vez o dr Marques Mendes) leitoras haverá que desconfiam (e com que razão!...) do cronista que se deixa levar por uma qualquer secreta volúpia invernal e desata a tentar perder-se nos poetas perdidos no frio dos tempos e na desatenção das gentes como é o caso de Augusto Gil, presença constante nos manuais de leitura de antigamente e que, hoje, só se encontra em raros alfarrabistas...

Aprendia-se de cor a balada da neve que é, digam lá o que disserem, um belo poema solidamente construído mesmo, se eventualmente, aquela oficina literária fosse, também ela "branca e leve, branca e fria"...

Já nem sei se a li e ouvi na escola de Buarcos  ou só depois no pequeno liceu da Figueira. O que tenho por vividamente certo e recordado é que ao irmos para a escola havia no inverno uma finíssima camada de gelo nas poças de água da chuva naqueles caminhos citadinos mas maltratados pela incúria municipal.

Leitoras e leitores o frio ataca-me os humores e as meninges. Há que fazer boa cara ao inverno que entra de rompante, seguir o antigo conselho "abifa-te, abafa-te e avinha-te" que os tempos estão difíceis como também outro poeta, desta vez o Ferré cantava. 

Vejo na televisão terras alemãs cobertas de neve, entre elas Berlin ou Munique onde passei tempos amáveis e recordo que na Baviera, ou pelo menos em Murnau, quando alguém desatava num discurso descosido como este, logo se comentava que o Fohn, um vento do sul, tinha feito mais uma vítima.

Pelos vistos, neste caso, bastou ver a cidade coberta de neve