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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 610

mcr, 26.01.24

 

 

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noutra esplanada, o mesmo sol de inverno e os anos 60 a insistirem 

mcr. 26-1-24

 

Faço parte da minoria que ainda lê jornais pelo que as culpas da crise da imprensa escrita não me atingem se bem que me preocupem e aflijam  mais do que as peripécias da vida política nacional que, justamente, vegeta por falta de leitores atentos e capazes de se indignar.

O "Público" de hoje (26 de Janeiro) ataca em várias frentes um caudal de recordações  que me remete para os anos da minha inquieta juventude, essa década que persiste  como se verá na  continuação deste arrazoado.

Comecemos, fugindo a qualquer cronologia, com a notícia da morte de Melanie, uma cantora que hoje estará, por cá, terra desmemoriada, esquecida mas que brilhou intensamente nesses sessentas e culminou no Woodstock de 69, num dia de chuva à luz de milhares de velas de resistentes ao tempo que fazia. Melanie cantava "Lay down" que mais tarde terá passado a "lay down, canfles in the air)" devido justamente a esse dia glorioso no festival dos festivais cuja música ainda hoje é ouvida em múltiplas rádios.

Longe de casa, é-me impossível verificar se os seus LP ainda constam da minha discoteca ou se,  por razões alheias à minha vontade, habitam outros imerecidos lares. 

E já que me dá vontade de saber por onde andam peças que, por vezes com sacrifício,  comprei deu-me para  ir por um grande livro de James Baldwin, cuja leitura devo à Maria João Delgado,  "The fire next time" ou, agora, em recentíssima tradução, "Da próxima vez o fogo"  (Alfaguuara). Não foi o primeiro livro sobre a questão negra americana que li  (lembro-me do grande enorme, Richard Wrigh, "Os filhos do pai Tomás", "Filho nativo;  de Ralph Ellison, "O homem invisível" e de Landgston Hughes de que li uma antologia de poemas e a versão francesa do "Simple" que é simplesmente admirável. E para terminar um autor branco: Erskine Caldwell e o poderoso "Motim em Julho". Tudo isto porque o livro de Baldwin é agora traduzido para português.

Outra tradução: "Dersu  Usala" de Vladimir Arseniev. Foi no Festival de Cinema da Figueira que tive a sorte de ver o filme de Kurosawa com o mesmo título. Neste festival que revelou grandes cineastas e deu oportunidade a muitos realizadores portugueses,  conheci um bom par de amigos de que destaco o Francisco  Belard, fino conhecedor da melhor literatura  e cinema do nosso comum tempo e que bem poderia publicar uma antologia dos seus mais significativos textos aparecidos no "Expresso"

Foi por essa altura, início de 70 que, neste festival. tive  oportunidade de conhecer o Zé Fonseca e Costa,  o Lauro António (que com o Eduardo Prado Coelho, outro excelente amigo) já por cá não estão. 

Vivos que eu saiba ainda por aí andam o Eduardo Geada e o Luís Filipe Rocha mas há muito que os não vejo. Como também não verei a Marguerite Duras que também esteve na Figueira e de quem guardo uma imagem estranha e fortemente alcoolizada.  Por isso tardei bastante tempo em me aproximar do seu universo literário que agora tenho em muito boa conta. 

Ainda no mesmo "Público" deparei-me com mais um belo texto de Ana Cristina Leonardo que refere dois outros autores que comecei a ler nesses sessentas: Borges e Mrguerite Yourcenar. Para não variar, agora apenas vivem pelos extraordinários livros que nos deixaram.

Porém, deixei para o fim deste desfiar de memórias de descobertas a razão que tudo isto une. Uma leitora que, pelos vistos se dedica à escavação arqueológica, escreve-me sobre um texto meu publicado em 2006 (e não em 2005 como ela refere) e que tem por base mesmo que o não refira o "When I'm sixty four" e que se chamou "carta a um amigo que entra  na 3ª idade, Diário Político  33, 30 de  novembro de 2006

 A dita entrada  como se sabe ocorria aos 65 e não aos 64 como os Beatles eventualmente anunciavam. Ora este fraco rosário de lembranças literárias, musicais e cinéfilas tem por base o , para mim, ano de todos os assombros, 1960 altura em que, carregado de ilusões e ingenuidade cheguei à Faculdade de Direito de Coimbra.

 Há exactamente 64 anos...

 

vai esta em memória da prima Maria Manuel Viana, e do filho,  Manuel Viana Abrunhosa., 

E com um abraço, ao felizmente vivo, Francisco Bélard, amigo há mais de cinquenta anos e que muita falta  faz ao jornalismo cultural e de opinião.

 

 

na vinheta: Langston Hugres, um grande escritor, um lutador pelos direitos civis e um grande americano. Para quando uma edição portuguesa do  "The best of Simple" ?