Au bonheur des dames 625

Guida
(Maria Margarida Cabral Lucas de Almeida. RIP)
mcr, 9-9-25
Foi há 65 anos mas parece que foi ontem...
A Guida Lucas era um azougue, uma mulher inteligente, uma militante associativa destemida e uma excelente actriz. Do TEUC e do CITAC que ela não fazia destrinça entre os dois grupos. Acho que a primeira vez que a vi em palco foi interpretando "A sapateira prodigiosa". Se bem recordo, foi o Fernando Assis Pacheco neto de galegos, poeta de mão mais que cheia, quem de certo modo a ensaiou para que ela dissesse quaisquer coisas em espanhol com "salero e espampanante.
Em 1962 a Guida estava na direcção da Associação Académica e, ,corajosa como sempre, fez parte do grupo que em Maio reocupou a sede da AAC. Foi presa, claro e mandada para Caxias. Éramos ao todo quarenta e quatro os escolhidos para a visita de estudo que a PIDE nos ofereceu em tal miserável prisão (40 rapazes e 4 raparigas, Com ela estava a Irene Namorado que também, e há muito tempo, já por cá não anda, Dos rapazes também há já uma longa lista de desaparecidos (aliás não tenho a certeza de saber de todos mas o último que recordo foi o Rui Namorado, primo da Irene, acima referida). Na fotografia que ilustra este tristíssimo post estão também outros desaparecidos, o Zé Barros Moura (que foi marido da Guida) o João Amaral e a Laura Barros Moura (irmã do Zé e primeira mulher do João) e o doutor Orlando de Carvalho.
A Guida fez também parte do numeroso grupo de estudantes de Coimbra castigado e expulsos da universidade por períodos que iam de 1 a 2 anos. Contra ela militava a acusação de ter sido dirigente, da AAC. Mal eu sabia que, anos depoi,s e também eleito para a Direcção Geral da mesma AAC também teria direito a voltar a Caxias para mais um perído de descanso e reflexão sempre proporcionado pela PIDE, aliás DGS Foi a minha terceira detenção que durou alguns meses que acabaram com as minhas escassas veleidades de fazer o 6ª ano de Direito mas que me proporcionaram a leitura do Proust e sobretudo do Joyce (Ulisses).
Durante anos, a Guida foi uma presença habitual na minha mesa de café (ou eu na dela juntamente com a irmã Lena (2`fila da fotografia) r com a abençoada Maria L Assis de que já não tenho notícias há mais de um ano.
A vida política da Guida culminou como já disse com a sua expulsão de todas as universidades por um período de 2 anos, mais uma das infâmias do Estado Novo nesses temíveis, iniciais e violentos anos 60
Todavia, ela voltou a Coimbra, aos mesmos amigos, aos mesmos amores pelo teatro e formou-se em Direito. Pelo caminho conheceu o Zé e com ele se casou.
Voltámo-nos a encontrar muitos anos depois na sessão solene e final dos Estados Gerais do PS que antecederam o Governo de Guterres. E nunca mais nos vimos mesmo se, de longe em longe, eu tivesse notícias dela.
Talvez por isso, a recorde fresca, alegre, menina e moça sem o peso das rugas, da velhice dos desgostos e das ilusões perdidas.
De todo o modo, esta morte é mais um dos muitos sinais do desaparecimento acelerado da nossa geração. Na fotografia ninguém (ou só o Paulo Santiago...) estará, se vivo, abaixo dos oitenta anos.
Parafraseando um excelente amigo aqui já ninguém "outonece". Já estamos todos a invernar.
(na fotografia
de pé da esqª p/ dirª) Guida Lucas, João Amaral, Paulo Santiago, antónio Avelãs Nunes, Lena Lucas, Orlando de Carvalho, Zé Barros Moura e António Lopes Dias
em baixo mcr, Mª João Delgado, Joaquim Pais de Brito e Helena Lopes Dias)