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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dates 408

d'oliveira, 02.01.20

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De olhos no teto com a “nona” a entrar-nos na alma

 

mcr 2-01-20

 

Em que ano foi ? Seguramente quando os anos cinquenta já estavam perto do fim. Eu teria 16, 17 anos?

De todo o modo era um miúdo ignorante com um escasso horizonte musical, se é que posso falar de horizonte. O meu avô paterno, já entrado nos sessenta, exportador de vinho do Porto (como o pai e os irmãos), vivera na Alemanha um par de anos entre Hamburgo, Heidelberg e Wurzburg aprendendo enologia, química do vinho e sobretudo vida, muita vida (descobri nos seus papéis uma correspondência com três amigos que também tinham tido a sorte e os meios – avultados – para depois do liceu irem fazer o “grand tour” e algum curso – onde é referida insistentemente uma certa Fraulein Ilse a quem os amigos mandam cumprimentos respeitosos com algum comentário brejeiro pelo meio, o que me faz desconfiar que o velho senhor não fora sempre aquele pilar de virtudes que aparentava er e qu me moíam o juízo (escasso juízo e muita sede de aventura)).

Dessa estadia de alguns anos no estrangeiro o avô trouxe sólidos conhecimentos de alemão (e de holandês!) que se juntaram à sua extrema facilidade para línguas desde o latim e o grego até ao francês, espanhol e italiano, sem falar no inglês que ele utilizou muito nos anos em que viveu em Inglaterra. Depois das línguas, do conhecimento bíblico de Eva, no caso Ilse, adquiriru uma sólida cultura musical forjada em inúmeras salas de concerto e de ópera de que foi assíduo frequentador. Aliás foi na Ópera do Rio de Janeiro que conheceu a sua primeira mulher, a avó Dora Heinzelmann, leitora de Espronceda e dos clássicos espanhóis e ibero-americanos e amante da pintura em particular e das artes plásticas em geral. Nos curtos anos da sua breve vida em Portugal, a casa do “Torne” em Gaia era frequentada por Diogo de Macedo, Teixeira Lopes, os Carneiro, pai e filho e vários amigos destes. Desse grupo conservo um belíssimo guache que constava do álbum da avó.

Havia, pois, na casa deste esclarecido homem dos vinhos do Porto, um ambiente cultural muito habitual, aliás, noutras casas da alta burguesia portuense.

Não admira, portanto, que, quando começaram a aparecer gira-discos mais ou menos portáteis de qualidade, o velho senhor encomendasse um na Alemanha que apareceu na companhia de uma edição completa das Sinfonias de Beethoven (uma edição em 33 rotações recheada de nomes de maestros conhecidos.

O dia da chegada dessa encomenda volumosa foi uma festa. Desembrulhar aquela maravilhosas novidades, admirar as capas dos discos e escolher o local para colocar o gira-discos foi uma tarefa árdua que nos ocupou a manhã inteira. Depois do almoço, partimos, o avô e eu, para a sala e sob as instrucções dele deitei-me a seu lado no chão daquela bonita sala forrada a tapeçarias antigos com um belo teto trabalhado e um lustre que aliás herdei.

E começamos, não pela 1ª sinfonia mas pela 6ª. O meu avô explicava cada andamento enquanto ia mudar o disco (eu não tinha permissão para tal, coisa que muito me vexava), referia a época da estreia, os comentários e traduzia com uma facilidade que ainda hoje lhe invejo (mesmo sabendo algum alemão adquirido em duas incursões pelos Goethe Institut de Berlin e de Murnau). As notas que acompanhavam os discos e, sobretudo um longuíssimo artigo retirado do “der Spiegel” (suponho) que motivara aquela sumptuosa compra. Tudo isto, deitado a meu lado no chão protegidos apenas pela espessura do tapete que nos protegia do soalho. E todos os dias repetíamos o mesmo ritual, uma sinfonia por dia em ordem dispersa, acho que a 5ª foi a penúltima, até ao grande dia em que me foi apresentada, depois de traduzida a ode de Schiller de um velho e bonito livro com marcas de muita e constante leitura e pétalas secas sinal de que também a avó Dora o explorara.

Mais de sessenta anos depois, eu gostaria de vos descrever os sentimentos de um rapazola ignorante ao ouvir aquela peça que, continua a comover-me até às lágrimas cada vez (e são muitas pois além dos discos consta em todas as “pen” que trago no carro e que estão sempre em actividade.

A única coisa que recordo bem é que tomei a resolução de me inscrever na “Juventude Musical” e passar a assistir a todos os concertos que, nessa época, ocorriam no cinema Trindade pela tarde. E era da minha mesada que eu pagava a quota. Com os livros que começava a comprar sobrava-me o dinheiro certo para, aos domingos, ir ao cinema. Felizmente ainda não fumava nem tomava café...

Mas a que vem este relambório todo?

Pois ao facto de ter lido no Público de hoje que este vai ser o ano “Beethoven”, celebrando assim a data redonda dos 250 anos do seu nascimento. Devo ao eminente Carlos Fiolhais, um professor coimbrão, a notícia. Fiolhais é um desses cientistas que aliam um saber quase enciclopédico a uma impressionante folha de serviços na Universidade de Coimbra tendo mesmo sido director da prestigiosa Biblioteca da Universidade. Escreve com frequência nos jornais e fá-lo com inteligência, elegância e humor. Neste texto em apreço cita a tríade Haydn/Mozart/Beethoven, três monstros sagrados onde, a meus olhos –e ouvidos! – avulta o segundo de que sou fanático a ponto de ter duas edições completas da sua obra para já não falar dos cd, lp e dvd diversos que fui juntando e de que não consigo (oh egoísmo absurdo!) separar-me.

Ao contrário do avô materno Manuel, oficial do exército, o avô Alcino nunca foi uma pessoa fácil e não primava pela ternura para com os netos. Por isso conservo tão vívida a imagem de alguns momentos de intimidade à sombra de Beethoven. O velho génio surdo fazia milagres a começar pela música que já não ouvia. E esses dias a travar conhecimento com as sinfonias a que seguiriam depois, as sonatas, adoçam a imagem antiga e severa de m velho senhor que uma vez se deitou no chão para ouvir e explicar a um neto, que agora se recorda dele enternecido, o milagre absoluto da música imortal – duzentos e cinquenta anos depois e toda ela soa tão fresca e natural como no dia em que foi pensada.

Bom ano Beethoven para todos vocês!

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