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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

12
Abr14

diário Político 196

mcr

 

 

 

 

 

Falta de tacto ou de chá ?

 

As duas coisas!

 

 

 

 

 

Eu não queria ter de me debruçar, mesmo que por breves minutos, sobre a Senhora Presidente da Assembleia da República.  Não por ser mulher, mas também por isso. Não por ser uma senhora reformada, mas também por isso. Não por usar um português  um pouco primário, mas também por isso.

 

É que ainda recordo que esta senhora, licenciada em Direito, eventualmente doutorada na mesma aguada ciência, ex-juíza do Tribunal Constitucional, ao fim de cujo mandato se terá reformado, foi uma segunda escolha. De facto era aquele patético senhor Nobre o candidato escolhido por Passos Coelho. Convenhamos que se tal eleição tivesse vingado, não nos restava senão fugir desesperados do país. Nobre, por muito médico, por muito solidário, por muito não sei quê, parecia em calao, sublinhe-se, o “Último Carnaval de Veneza”, disfarçado, para o efeito, de “Fantasma da Ópera”... Um horror medonho!...

 

Quando, para sua extrema surpresa, Passos percebeu que a criatura não passava nem a ferros, lá encontrou a milagrosa solução da senhora drª Assunção Esteves que, mesmo reformada, como já salientei, fazia uma perninha no Parlamento. A comunicação social rejubilou, a classe política encheu o peito e todos ou quase juraram que sim, sim senhor, finalmente, em boa hora, uma mulher no segundo mais alto cargo da Nação e outros narizes de cera de circunstância e muito apropriados ao momento. Era também uma espécie de resposta, se não erro, ao facto de o PS ter uma mulher como Presidente, mesmo se não reformada (ou será?...)

 

Mulheres ao poder, mesmo que seja apenas este e que todos se estejam nas tintas.

 

O povo nem pestanejou. Duvido que isso tenha sequer incomodado ou entusiasmado qualquer brioso elemento dessa coisa que todos reclamam e que até já é personagem mesmo que colectiva de um desastrado livrinho de história que por corre muito afirmativo. Mas deixemos este vago feito literário e continuemos com a senhora Presidente.

 

Lá se sentou no cadeirão que lhe destinaram e, durante, algum tempo, pareceu ser o que efectivamente sempre achei que ela era: uma menina de províncias, estudiosa, ambiciosa e com cabelo de um loiro toscamente loiro, loiríssimo.

 

 (e digo toscamente porque nem sequer a favorece, mas isso é o meu habitual machismo lusitano a borbotar por entre as teclas deste antigo computador, um excelente iMac dos de bola, o chamado ícone dos desvairados que só juram pela Apple e pelo falecido Steve Jobs que Deus tenha em eterno e merecido descanso.)

 

O Parlamento, conduzido pela mão firme da senhora lá foi seguindo o seu letárgico caminho, só interrompido aqui e ali, pelo charivari dos assistentes que lá apareceram para cantar, desafinados, o Grândola, vila morena e para chamar alguns nomes aos deputados de que não gostavam, sempre os mesmos, diga-se de passagem, mas isso só se deve à falta de combatividade e de fervor musical-revolucionário dos amigos da maioria. Lá terão as suas razões para estar calados e em casa. Por mim, isso  deve-se a um elementar sentido de vergonha doseado por uma aflitiva falta de ouvido. Aquela gente não canta não só por que não atina com o ré maior mas sobretudo porque tem mais que fazer nem que seja a inventar bancos que depois caem na fossa e nós temos de pagar.

 

Lá me perdi, outra vez. Voltemos à senhora Presidente da AR.

 

Logo que se sentiu mais cómoda, eis que desatou a comentar, mais do que devia e seria sensato, os  actos dos perturbadores parlamentares. Aliás, extra-parlamentares.

 

Uma vez houve que até resolveu, se não erro, falar no fascismo, ou no nazismo para comentar uma qualquer manifestação das galerias. Admitamos que meteu o mimoso pé na sempre difícil argola da História. Não se deve tomar o gato por lebre e mesmo que isso nos incomode, não devemos, mesmo num arrebatamento, qualificar de fascista o que não é. Para isso já há o PCP, ou alguns dos seus próceres, que ainda não terão digerido o famoso pacto Molotov-Ribbentrop  que permitiu a Hitler e aos verdadeiros fascistas ocupar a Polónia, a Noruega, a França, a Bélgica e a Holanda e quase ganhar a guerra.

 

Ninguém pede à senhora Presidente da AR que seja uma ideóloga, uma estudiosa do marxismo ou de qualquer outra coisa. Basta-lhe ser responsável pelos trabalhos dentro daquele areópago.

 

Por várias vezes, a drª Assunção Esteves permitiu-se usar um português  um pouco rebarbativo, alguns adjectivos mais cortantes mesmo que não graves.

 

Desta feita, porém, exagerou. Não em adjectivos que eu saiba mas sim em deselegância.

 

Como se sabe, a propósito da chatíssima sessão parlamentar que anualmente comemora o 25 A, correu a ideia de um militar de Abril (e de Novembro, é bom não esquecer) usar da palavra no Parlamento.

 

Desconheço se tal faculdade está prevista no Regimento e pouco me incomodo com isso. Por mim, se fosse militar de Abril não perderia o meu tempo e muito menos o meu latim naquele anfiteatro. Enquanto aquelas criaturas discursam, o povo via à praia se estiver bom tempo, fica em casa a ver a TV mas não naquele canal ou dá uma voltinha higiénica pelos shopping centers. Numa palavra, a malta, está-se nas tintas pelas discursatas comemorativas, tanto mais que sabe que irá ser massacrada durante dias nos telejornais e nas primeiras páginas dos jornais.

 

Aceito que no Regimento da Assembleia não conste o direito de um não parlamentar, mesmo herói ou quase, falar para os parlamentares e demais comitiva. Mesmo assim, não me caiu bem que a senhora Presidente, num tom de rebitesa, tivesse retorquido quando interrogada por um jornalista “O problema é deles!

 

O problema, depois desta resposta, passou a ser Dela. E passou porque de todas as respostas possíveis esta era a do milhão de dólares. A impossível! A senhora jurista Assunção Esteves poderia ter dito com um imperceptível sorriso que a coisa não tinha qualquer hipótese legal, que no Parlamentam parlam os parlamentares, que mesmo com um número semi-redondo (quarenta anos) não podia ser enfim, um ror de coisas. Com aquela frase curta (apetecia-me dizer “e grossa”), com aquele tom exaltado quase gritado, a coisa caiu na ofensa desnecessária, na falta de chá, de cortesia, de equilíbrio, coisas que se esperam de qualquer um, mesmo de um parlamentar, maxime da Presidente da Mesa do Parlamento.

 

Este texto já vai longo, ai meu Deus, mas gostaria de acrescentar dois pontos. O primeiro refere-se à declaração de uma ilustre e antiga figura pública que já declarou enfaticamente que “assim, sem militares, não vai lá" (ao Parlamento). Isto é pôr-se em bicos de pés e sobretudo já não incomoda ninguém. Depois, o que me admira é os militares, ou alguns deles, entenderem que devem ser obsequiosamente ouvidos na AR. Conviria lembrar-lhes que ainda não está definida uma espécie de estatuto de heróis, depois que não fizeram a coisa sozinhos, em terceiro lugar nem todos o fizeram pelas mais nobres razões mas apenas como resposta a problemas corporativos e finalmente urge reconhecer que o Abril de 74 é apenas uma muito tardia reparação do Maio de 26, para já não referir que desde os inícios do liberalismo os militares usaram e abusaram de revoltas, revoluções, pronunciamentos, quarteladas e outras manobras que são exactamente o contrário da prática da Democracia. E isto tanto se aplica aos senhores coronéis reformados como aos que ainda não estão nessa posição. 

 

E já agora, se falarem, falem como cidadãos que são e não como detentores das espingardas como por vezes parece ser pecha de alguns.

A bom entendedor...

 

d'Oliveira fecit, 12.04.14