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Incursões

Instância de Retemperação.

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20
Set14

Diário Político 202

mcr

 

 

 

 

 

 

Quem perde ganha ou as ironias da História

Agora que mais de 10 pontos separam os adeptos do Não e do Sim na Escócia convém relembrar o que  se dizia em cada campo.

É fácil perceber que os independentistas queriam sol na eira e chuva no nabal. A começar juravam que o país, graças ao petróleo, iria ficar rico e distribuir um maná absoluto pelo povo. Não é bem assim, nunca foi bem assim, como largamente se sabe. Por outro lado os independentistas juravam que a libra permaneceria, bem como a monarquia (?) actual. Obviamente, a libra (como aliás alguns dos principais bancos que, rapidamente o anunciaram), várias grandes empresas geradoras de emprego, desapareceriam da Escócia.

Conviria dar um salto atrás no tempo e relembrar o que era a Escócia independente, melhor dizendo o protectorado escocês. A independência não só dependia da boa vontade inglesa (inglesa e não britânica, fique claro) como também e sobretudo da errática política dos mais poderosos clãs. Os ingleses (outra vez, os ingleses) tiveram sempre para lá do Clyde os seus agentes e os seus numerosos aliados.

Por muitos e maus filmes que correram nos nossos cinemas (no tempo em que os havia...) que se tenham produzido, a verdade é que nunca houve uma vitória estratégica das tropas escocesas. Nunca.  Eu sei que as boas almas, cândidas e ignorantes, choram desabaladamente com a Rainha Maria Stuart e com Braveheart. Outras, mais cultivadinhas, apelam a Rob Roy como se de uma figura histórica se tratasse. Não que não tenha existido um modelo para ele, um homem do clã MacGregor que, depois de ter sido um partidário jacobita, terá acabado como uma caricatura de Robin dos Bosques, aventura que o levou à cadeia. Graças a um texto de Defoe, foi amnistiado pelo Rei e morreu tranquilamente na cama. Mais tarde, Walter Scott escreveu o romance (que não vale Wawerley ou Ivanhoe) e criou-se mais uma lenda.  Mas não é caso único: Durante algum tempo, a história escocesa viveu de outro balão literário, “Os cantos de Ossian”, uma burla de medíocre valor literário e poético, imaginada por um cavalheiro de escasso talento chamado Macpherson. Curiosamente, foi mesmo essa fraude que tornou o homem conhecido e admirado. A aldrabice foi descoberta há pouco mais de um século, o que não travou a sua popularidade. Assim se constroem os mitos e se faz a história...

Não tenho qualquer simpatia especial pela Grã Bretanha, sinto-me mesmo alguém que, desde o tratado de Methuen, não saiu da cepa torta. Trocar vinho vendido a baixo preço por têxteis bem mais caros não só não foi bom para Portugal mas, sobretudo, impediu a industrialização nacional. Começou aí a nossa lenta descida ao estatuto de protectorado da Grã Bretanha de que, aliás, muita gente escocesa beneficiou. 

Todavia, se fosse escocês e eleitor,  teria votado não sem pestanejar. Detesto os nacionalismos serôdios e a mentira que os alimenta, para já não falar na campanha do Sim e do vitimismo que o sustentava.

De todo o modo, o voto Não conseguiu para Escócia um estatuto de quase independência sem as desvantagens inerentes e com uma soma de benefícios que vai acabar por tornar o auto-demitido Salmons em mais um enganoso mito da “liberdade escocesa”: se o homenzinho tivesse ganho é provável que a História futura não lhe perdoasse o mau passo e a imprudência. Vencido será veneravelmente recordado como um benfeitor da terra pátria. Assim se faz a História, como diria o meu querido amigo (tão estupidamente desaparecido) Eduardo Guerra Carneiro

 

d'Oliveira fecit 19.9.014

 

na gravura: tartan do clã Mac Gregor (a que peretenceu Rob Roy)

 

 

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