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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Jan19

Diário Político 212

d'oliveira

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E vão duas...

Por d’Oliveira, travestido em velho do Restelo (antes isso que Pangloss!) no 12ºdia de Decervelage, festa de S Landru, ginecólogo

 

(declaração de interesses: nada me move contra o Doutor Marcelo Rebelo de Sousa cujas inteligência, habilidade e cultura não ignoro. De todo o modo, e desde sempre – ou quase- desde os tempos do “Expresso”, para ser mais concreto, achei-o demasiadamente amigo da intriga política, da invenção de factos políticos, de clamorosa soberba e muito convencido da sua superior missão de guia do povo. Tal ideia, foi-se confirmando com a sua desastrada liderança do PSD, hoje bastante esquecida e prolongou-se durante os longos, longos anos em que exerceu uma “magistratura de influência” via televisão. Foi sem dúvida um excelente comunicador para o que muito deve ter contribuído a sua experiência de professor, de bom professor a acreditar em muitos testemunhos, mas, desde o início previ – e disse-o aqui – que ali havia um calculo frio e uma enorme ambição política. A televisão foi uma rampa de lançamento – como com costa e a quadratura do círculo- e, quando se lançou na campanha, escrevi aqui que aquilo parecia um remake da Branca de Neve e os sete anões. A campanha, mais do que um passeio, foi uma cção inteligentíssima. Recursos mínimos, apoios só consentidos a uma conveniente distância, naturalidade e muitos beijinhos. Ganhou por knock out ao primeiro assalto. E agora, prepara, com segurança e algum suspense para os ingénuos, a recandidatura. Porém, como diria Brecht, há um defeito: fala muito, muitíssimo, admira-se ainda maise não percebe, ou finge que não percebe que isso, essa barulhenta e ternurenta presença constante nos media, cansa alguns e, com o tempo, cansará muitos mais).

Duas intervenções recentes, recentíssimas obrigam-me a rabiscar algumas linhas.

A primeira diz respeito às propinas universitárias. A mesma pessoa que há uns anos as defendia vem agora considerar que devem acabar. Para, parece, que os filhos da (quase inexistente) classe média possam entrar na Universidade e, pelo menos obter uma licenciatura.

As propinas representam entre trezentos a quinhentos milhões de euros o que, em termos absolutos pode parecer pouco, uns trocos, mas que, perante a miserável situação das Universidades é muito. A simples descida de 200 euros prevista no Orçamento daria, afirma a Associação Académica do Porto, para criar uma boa quantidade de residências estudantis, coisa para 1500, 2000 camas.

O valor das actuais, futuras, propinas, anda pelos oitocentos e tal euros o que dá cerca de 75 euros mês por cabeça. Isto, face às despesas de habitação, alimentação, transportes e material de estudo, é pouco, muito pouco. Um quarto, diminuto, anda nas grandes cidades sempre acima dos 500 euros – caso, por milagre, se encontre a esse preço. As cantinas universitárias custam no mínimo três euros ou pouco menos por refeição mas parece que a despesa por refeição nunca fica abaixo de quatro euros. E seria bom não esquecer o pequeno almoço e uma pequena refeição pelo meio da tarde. Façamos de conta que, em alimentação, o estudante gasta dez euros dia. São num mês trezentos euros. Juntem-lhe os trasportes e o material de estudo. Mesmo fazendo tábua rasa das outras despesas “sociais” que um jovem faça, temos aqui outros 500 euros . Claro que os números reais serão sempre superiores mas estamos a falar apenas do mínimo vital e despojado.

Portanto, antes de falr em propinas, deveria estudar-se um fortíssimo aumento de residências dignas, de cantinas melhores e com melhores ementas, de bibliotecas bem apetrechadas e de serviço de empréstimo de material escolar acessíveis e bem fornecidos.

Durante os meus tempos de estudante, tive oportunidade de conhecer residências e cantinas em diferentes países europeus (Espanha, França, Itália, Belgica, Holanda e Alemanha). Passaram muitos anos, é evidente, mas nada havia de comparável por cá, excepção feita de uma residência de estudantes em Lisboa onde caí por imensa sorte –e durante férias – que tinha alojamentos de boa qualidade. Era da MP e confesso que nunca paguei o que fiquei a dever: duas semanas de cama mesa e roupa lavada. Na altura, desculpei-me com a “luta contra o Estado Novo” mas na verdade, os responsáveis daquela casa acolheram-me quando estava sem dinheiro e contra a promessa, de pagar logo que voltasse de férias. Curiosamente, fora dessa residência que fugira o Joaquim Chissano semanas antes.

O desconto nas propinas ou mesmo o seu fim podem ser uma maneira habilidosa de deixar o resto como está (mal ou muito mal). Na Universidade, como na Saúde (SNS) ou na Escola na Ferrovia (ontem avançaram com uma exígua resposta) ou nos Transportes em Geral anunciam-se propostas, leis base e outros “divertimenti” que dizem muito (e muito pouco) do desnorte e do bloqueio em que nos encontramos. Entre a facilidade com que se fazem propostas para sectores da função pública sem curar de verificar os seus efeitos em todo o seu conjunto (e aqui PC e BE e por vezes o PSD tem fortíssimas responsabilidades que não exoneram o PS de ter aberto a caixa de Pandora) e a falta de um perspectiva segura, sã e bem pensada para as próximas décadas tudo anda em roda livre. Com o beneplácito do Presidente da República...

 

 

Telefonemas...

O Sr. Presidente da República entendeu telefonar à Sr.ª D. Cristina Ferreira no (fartamente anunciado) dia da sua estreia na SIC. Terá sido para “compensar” uma entrevista ao Sr. Manuel Goucha (o cavalheiro que acha interessantemente “polémico” o tal Machado da suástica tatuada) e que durara mais de vinte minutos! Esta, há que dizê-lo, não lembra ao mafarrico! S.ª Ex.ª argumenta que é “amigo” de Cristina e que já deu uma entrevista numa revista que ela dirige ou dirigiu. Estou para ver quando é que S.ª Ex.ª telefona para a 2 (que por acaso é bem mais “culta e adulta” que as já citadas e que tem nos programas de fim de semana a melhor série policial dos últimos anos – “O Comissário Montalbano”, produzida pela RAI a partir dos magníficos e imperdíveis livros de Andrea Camilleri, alguns traduzidos em português (Bertrand, Difel etc.). Isto para não falar de um programa diário, 14-15 h, “sociedade civil” que bate em cuidado, inteligência e condução qualquer dos já citados na concorrência. Mas a “2” tem fracos índices de audiência... ).

S.ª Ex.ª é, parece, “amigo” de meio mundo e muito amigo do restante mas se tiver de telefonar a toda essa boa gente, incluindo o fraternal Bolsonaro, não lhe sobra tempo nem para ir à retrete.

É a esta híper-actividade, a este querer estar com todos, a todos os momentos que, por muito que custe a S.ª Ex.ª, costuma chamar-se populismo que, como se sabe, não se limita aos Salvini, aos Mélenchon, às Le Pen ou ao homenzinho da Hungria. Eu, pobre de mim, lembraria, se o ousasse, que esta permanente procura de consensos com selfies e telefonemas a todo o bicho careta, tem a escassa utilidade do azeite sobre as ondas ameaçadoras: acalma-as um momento mas não lhes retira o poder destrutivo. A anestesia popular que reina neste cantinho da Europa é apenas resultado de varrer para debaixo do tapete os lixos acumulados por anos e anos de desleixo, de incúria, de egoísmo, de ignorância, de corrupção e desgoverno.

À superfície tudo calmo, ternurento e nos conformes. Por baixo, as placas tectónicas movem-se imperceptivelmente e, mais cedo ou mais tarde, o maremoto chega à costa descuidada e desmazelada.

* na gravura um dos cenários da série Montalbano