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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

21
Fev19

diário político 213

d'oliveira

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Notícia de um naufrágio iminente

d'Oliveira fecit (Fev 2019)

 

(declaração de interesses: sou- ainda- beneficiário da ADSE. Tenho 44 (quarenta e quatro) anos de quotização. Nos primeiros quarenta e dois (42) anos nunca enviei para a ADSE qualquer pedido de pagamento de despesas feitas e pagas por mim. Por preguiça e porque entendia que eram demasiado pequenas para estar a mobilizar aquele serviço. E, passe a modéstia, porque pensei que assim auxiliava o meu seguro de saúde e o mantinha financeiramente robusto. Nestes últimos anos, fiz uma operação ao pé direito (joanete), um exame médico de alguma importância, duas consultas médicas e sou seguido -mas pago 40 euros de cada vez- por via do diabetes. Se tivesse sido recorrido ao SNS, é provável que a operação ainda não tivesse sido marcada pois todos sabemos que o problema é considerado de pouca importância pelo que fica adiado quase sine die, mesmo com sapatos que se deformam ou que –como no caso da minha mãe se têm de comprar com números diferentes, das dores que se sentem). O exame a que acima me refiro foi realizado oito dias depois de ter sido pedido – no SNS esse prazo nunca é inferior a 90 dias e a média sobe para os 140/150 como, aliás me foi dito nos dois hospitais públicos em que tentei informar-me. A consulta bi-anual de diabetes é por mim marcada com oito/dez dias de antecedência e até posso escolher a hora. Consta de uma entrevista prévia com um enfermeiro e da consulta propriamente dita com uma excelente e simpática médica. Como não há convenção específica o hospital (Instituto CUF Porto) cobra-me um preço especial - € 40- cujo recibo posso enviar para ADSE (coisa que até à data nunca fiz por pensar que o posso suportar e para contribuir para as finanças ainda sólidas deste “seguro de saúde” dos funcionários públicos e dos aposentados do mesmo sector). As poucas consultas que fiz foram –me cobradas por um preço praticamente simbólico. No que respeita à parca saúde oral, tenho uma excelente dentista “não convencionada” mas, pelos motivos que muito acima aduzi, também me vou esquecendo de requerer à ADSE a parte que me cabe.

Todavia, mesmo sem praticamente aproveitar, tenho-me mantido fiel à ADSE para onde desconto praticamente 100 euros mensais! O futuro é sempre incerto e a minha idade aumenta assustadoramente e a mais elementar prudência aconselha-me a fazer esse esforço financeiro).

 

A ADSE é um seguro de saúde dos funcionários públicos, abrange mais de um milhão de pessoas (no activo e reformados), nunca entrou em ruptura financeira, bem pelo contrário, e é a inveja do resto dos cidadãos que tendo direito ao SNS estão cada vez mais desprotegidos.

De facto, os hospitais públicos estão saturados, há cirurgias que demoram anos, exames – colonoscopia - que chegam a demorar mais de três anos (ainda ontem, uma paciente de Grândola denunciava o facto no programa televisivo diário “sociedade civil”), faltam enfermeiros, médicos (especialmente anestesiologistas), o quadro de farmacêuticos hospitalares tem um défice de 150 profissionais – pelo que há farmácias hospitalares que fecham ou estão na iminência de fechar - e há especialidades que pura e simplesmente “empurram” os pacientes para o “privado” (o caso da fisioterapia, para não ir mais longe).

Nos últimos anos, o panorama tem-se agravado, não havendo sector que não se queixe (médicos, enfermeiros, técnicos de todas as categorias e especialidades). Já não há conta certa do número de direcções de serviço que se demitem ou ameaçam demitir-se.

Entretanto, e depois de Paulo Macedo, os ministros que se tem sucedido ou saem varridos pelo desastre ou, no caso actual, mentem descaradamente quando afirmam que há alternativas eficazes à eventual denúncia de contrato dos grupos privados. A Cruz Vermelha, os hospitais das Misericórdias e os das forças Armadas não tem capacidade (e é até discutível a sua qualidade) para atender os mais de 600.000 utentes da ADSE que frequentam normalmente os hospitais denunciantes do acordo.

Esta senhora Ministra, chefiava até há pouco um serviço público que (alegadamente) o Tribunal de Contas acusou de falsificar dados. A sanha ideológica que anima a criatura e que tem sido visível a cada nova intervenção pública (pelo menos na TV) faz prever um desastre absoluto. As greves anunciadas ou previsíveis, a continuada falta de resposta aos mais elementares pedidos de reforço em gente, meios, e dinheiro, o desprezo com que são encarados os problemas decorrentes da existência ou não de PPP em hospitais públicos (e o caso de Braga é bem expressivo tanto mais que, ao que parece, houve boa gestão e muito maior eficácia do que em muitos ou todos os hospitais públicos) tem como resposta única e míope (se não cega) a afirmação de que tudo correrá melhor, no melhor dos mundos se só houver SNS.

Todos os especialistas (nacionais ou estrangeiros) afirmam que para um bom e são SNS é necessária a complementaridade privada e social. Só os arautos do naufrágio nacionalizante” (PC e BE) que subitamente se esqueceram da falência absurda, do desastre medonho dos seus modelos estrangeiros, é podem impunemente afirmar que há medidas fáceis, economicamente viáveis, para este estúpido e desnecessário confronto mas, até à data, não propuseram nenhuma medida prática que baseie a sua posição. Nenhuma! Tudo o que deixam no ar, será pago por mais impostos, por muito mais impostos!

Nada tenho contra os hospitais públicos, recordo com profundíssima gratidão e igual emoção, a noite em que o meu Pai chegou em coma (de que não saiu) à Urgência do Hospital Santo António. Vi toda uma equipa médica que, desconhecendo que o paciente era médico, corria velozmente para tentar salvar aquela anónima vida. Um amigo meu estava nesse grupo e depois veio falar-me, prevenir-me, consolar-me. Viva eu mil anos e não os esquecerei. A minha mulher foi, no mesmo hospital, atendida e assistida duas ou três vezes. Bem, muito bem. Exactamente como, actualmente, no Hospital CUF do Porto. Com uma diferença: aqui tudo foi muito mais rápido, as instalações eram muitíssimo melhores e o atendimento exemlar. Sempre que a acompanho lá, posso esperar na cafetaria cuja limpeza, qualidade e serviço é incomparavelmente melhor à dos hospitais públicos que conheci.

Dito isto, vamos ao confronto agora existente e profundamente soprado pelos adeptos da “nacionalização” e da sanha a tudo o que é particular e privado.

A primeira questão que se verifica é que parece que o simples facto de haver lucro na prestação de cuidados de saúde é um crime. Capitalismo puro!

O “negocio da saúde”! Então qualquer médico de consultório aberto anda a “roubar” os pobres doentes. Meu Pai, enquanto exerceu clínica, numa terra pobre referia que só 20% dos doentes pagavam. Os restantes não podiam. Mas saíam do consultório com uma nova esperança, com medicamentos provenientes das “amostras” deixadas pelos representantes dos laboratórios e eram “visitados” em casa se estavam de cama. De borla. O meu pai não era excepção. Mesmo hoje podemos ver médicos a fazer o mesmo. Serão menos mas não é isso que lhes tira grandeza à generosidade e ao empenho.

O que se pede a um hospital, público ou privado, é que trate da melhor e mais adequada maneira quem o solicita.

Tudo o resto é fantasia tonta e ideologia barata.

Continuando: O SNS, melhor dizendo os hospitais públicos abandonaram há muito tempo, determinado número de especialidades que obviamente caíram no domínio da actividade privada. Razões para isso são várias mas podemos sempre começar pelo financiamento (Este actual Governo cativou mais de 150 milhões que obviamente redundam em menos serviço, pior serviço, falta de serviço. Basta isso para levar muitos utentes para o privado), pela falta de investimento, pelo continuado adiamento de reestruturação ou de construção de hospitais novos (o caso do “Joãzinho” no H. S. João do Porto é uma gritante prova) .

Ter o arrojo de afirmar que o sector privado “come” 1200 milhões do Orçamento é uma acusação irresponsável à luz das evidentes limitações do SNS.

Isto num país onde o simples facto de se precisar de uma análise só se consegue em tempo útil recorrendo aos laboratórios privados. Os hospitais só fazem essas análises aos internados e com longo tempo de espera a algum que outro “externo”.

Especialidades como a fisioterapia são, nos hospitais públicos, algo de inacreditável. Novamente, a minha mulher, conseguiu (com uma cunha do tamanho da légua da Póvoa) que, duas vezes por semana, lhe tratassem de uma mão. Ao mesmo tempo, eu, com uma maleita semelhante, recorri a uma clínica privada e convencionada, e em trinta dias e vinte e seis sessões, puseram-me como novo. Ao fim de duas semanas e quatro tratamentos, a cara metade rendeu-se ao óbvio e num prazo de tempo idêntico ao meu lá sentiu as melhoras necessárias.

Toda a gente sabe que, desde há muitos anos, com a notável excepção de Paulo Macedo, houve sub-financiamento crónico, aumento da despesa, problemas de recrutamento (ou melhor de não recrutamento) de profissionais.

Desde há meses, que se vinha adivinhando, este (mais que previsível) embate. Eram as PPP (no caso de Braga, denunciada pelo grupo particular) que mesmo contra a evidência de melhor serviço e maior produtividade, eram crismadas de más, malévolas e contrárias ao interesse público, era a campanha (ainda ontem recordada nas palavras de Catarina Martins) de que os privados sugavam o dinheiro de todos (no caso da ADSE que é exclusivamente alimentada pelas contribuições dos beneficiários não se vê tal situação) o que ou indicia ignorância da líder do Bloco ou simples mas descarada asneira, tenha ou não também má fé.

Agora surge um conflito acerca da exigência da ADSE (ou de quem lá manda e que não foi eleito com voto dos que pagam e são directos interessados) em cortar 40 milhões na despesa e em exigir aos privados 38 milhões “facturados a mais”. O segundo problema está nos tribunais e o primeiro deixa-me estupefacto: para já o país envelhece e isso traduz-se em mais e mais frequentes pacientes; depois, os medicamentos, as próteses e tida a restante parafernália são cada vez mais caros embora de melhor qualidade e eficácia.

Não quero, porém, deixar de fora a famosa questão que o primeiro problema aflora: ninguém, e eu muito menos, entende a disparidade de valores (de medicamentos, de actos cirúrgicos, de próteses) apresentada por diferentes hospitais. Nesse capítulo, também ninguém entende como foi possível a quem geria a ADSE permitir desde o primeiro dia esta aberrante disparidade. Cumpre a uma justiça célere e séria responder já a este problema. Melhor dizendo: cumpriria...

Na falta de solução dos tribunais, há que imediatamente pôr as partes em contacto, se possível à vista do público para, de uma vez por todas, solucionar uma situação que só angustia os utentes da ADSE.

E lembrar aos militantes radicais que a ADSE não é deles mas de quem a paga. E lembrar aos mesmos que a AR tem poder para obrigar o Governo a financiar decentemente o SNS. Antes isso do que mudar o horário de trabalho de Função Pública de 40 para 36 horas (quantos milhões custa isto?), de fazer tábua rasa do IVA a 23% nos restaurantes (para proveito dos turistas estrangeiros), de baixar propinas e assim diminuir o orçamento das universidades (já com graves problemas), de ,por vários meios, criar novos encargos para o Estado e assim malbaratar o dinheiro dos impostos que (convém lembrar) todos pagam e alguns muito mais do que os outros (caso do IRS).

Hoje mesmo, o dr Correia de Campos, antigo ministro da Saúde, veio, no “Público” pôr os pontos nos ii. Leiam-no, por favor. Aliás, quem o devia ler era essa inepta ministra e os fanáticos social-populistas do PC, do BE e de alguma “esquerda” (?) do PS, ideologicamente falida e politicamente ignorante.

No fundo, bem no fundo, há da parte dos alegados amigo do SNS um profundo ódio à ADSE que acaba por passar por uma “regalia” da Função Pública. Volto a lembrar que essa regalia é paga (e bem paga) pelos 3,5% qie todos mensalmente descontam para a instituição!

A rasoira desta gente é sempre a mesma: igualar por baixo, cada vez mis baixo. O crescente empobrecimento ideológico (para não referir o ético, o cultural e o social) acompanha a tentativa de pauperização crescente dos cidadãos.

(a propósito: algumas criaturas com forte desmemória juram a pés juntos pela herança do dr. António Arnault, “pai” do SNS. Assim se esconde uma longa história começada duas décadas antes pelos muitos empenhados e perseguidos cidadãos que fizeram o “Relatório das Carreiras Médicas” e sobretuso se atira para um buraco negro da História o dr Miller Guerra, professor (sempre ao lado dos estudantes – crise de 62, p ex), deputado na ala liberal (onde iniciou o debate parlamentar sobre um serviço nacional de saúde) cargo de que se demitiu em protesto contra o cerceamento das prometidas liberdades do incio marcelista, deputado à Assembleia Constituinte e bastonário da Ordem dos Médicos. Isto não diminui Arnault que, enquanto Ministro, pode avançar – logo que o país alcançou um mínimo de estabilidade- com uma lei que bebia quase tudo no longo e produtivo (e corajoso) combate de Miller Guerra e dos seus companheiros de duas dezenas de anos de luta e sacrifício.

Só por isso, ou também por isso, Miller Guerra é o rosto da gravura de hoje. É uma pequena homenagem do então jovem estudante preso durante a crise académica de 62 e que não esquece o punhado de professores que se solidarizaram com os estudantes